
O Semiárido do Piauí vem ampliando a produção de jaborandi, planta nativa de áreas úmidas da Amazônia e usada como base para medicamentos contra glaucoma e outras doenças. Desenvolvido pela Centroflora, com apoio da Embrapii e do Senai, o projeto busca elevar a produtividade da planta e o teor de pilocarpina, substância de alto valor farmacêutico exportada para pelo menos 80 países. O projeto já recebeu R$ 2,5 milhões em investimento desde o seu início.
Desenvolvido com apoio da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii), por meio da unidade de Tecnologias em Química Verde, do Senai, a Centroflora tem realizado algumas ações que aumentam a produtividade do jaborandi e o teor da pilocarpina, substância com grande valor medicinal.
O cultivo acontece na cidade de Parnaíba, que recebeu uma versão de jaborandi adaptada ao clima seco. Mesmo com uma espécie adaptada ao clima, a domesticação da espécie exige controle rigoroso de ambiente, irrigação e manejo adequado.
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A pesquisa busca reproduzir, no cultivo controlado, as condições naturais que favorecem a produção do alcaloide. O objetivo é garantir regularidade no fornecimento da matéria prima para a indústria farmacêutica, que depende de altos níveis de pureza.
“A nossa estrutura, que é composta por um sombrite, reduz a intensidade solar em 50%. Então, ele cria um clima bem mais frio, mais favorável, que é exatamente isso que a semente precisa para se desenvolver em uma planta saudável”, explica a engenheira agrônoma da Centroflora Letícia Silva.
O químico analítico da Unidade Embrapii no Senai, Giovanni Pedroso, explica que o avanço da produção depende de fatores que vão além do cultivo. O teor de pilocarpina, principal composto extraído da planta, varia de acordo com condições ambientais e biológicas, o que exige pesquisa para garantir produtividade e qualidade.
“Nós identificamos que a microbiota do solo de áreas nativas é significativamente diferente da domesticada. Então, uma das chaves de aumento da produtividade é prestar atenção a todas as interações que acontecem entre planta e solo”, disse.

Jaborandi do Piauí chega a 80 países
Além do cultivo em fazendas, a cadeia produtiva envolve extrativistas da região Norte, responsáveis pela coleta do jaborandi em áreas nativas, seguindo práticas de manejo sustentável.
Depois da colheita, as folhas passam por um processo industrial complexo para extração da pilocarpina, que exige controle rigoroso de temperatura, pressão e uso de solventes.
O controle de qualidade é feito em laboratório, com equipamentos capazes de medir a concentração da substância e identificar resíduos do processo, como o HPLC, que quantifica o teor de pilocarpina.

Com alto grau de pureza, a substância extraída do jaborandi cultivado no Semiárido piauiense é exportada para diversos países. Segundo a farmacêutica da Centroflora, Luciene Vasconcelos, o principal uso da substância ocorre na produção de colírios para tratamento de glaucoma, além de outros medicamentos. “Ela pode ser vendida no mínimo em 80 países. A gente tem registro na Coreia, na China, no Japão, Estados Unidos e em toda a Europa”, afirma Luciene.
Para os pesquisadores envolvidos, o projeto mostra como a articulação entre diferentes áreas do conhecimento é essencial para transformar biodiversidade em produto industrial de alto valor agregado.
“É necessário que o agrônomo, o biólogo, o químico, o biotecnólogo unam forças para apontar caminhos que vão levar ao conhecimento que pode ser aplicado na indústria. E a Embrapii tem a função de viabilizar que esses grupos atuem em projetos dessa escala”, afirma Giovanni Pedroso. A iniciativa tem reforçado o papel da pesquisa aplicada no aproveitamento sustentável de espécies nativas e na inserção do Brasil no mercado mundial da indústria farmacêutica.
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