
O Nordeste vai continuar com dois dos principais problemas do setor elétrico que afetam a região atualmente, segundo o Plano da Operação Energética (PEN) 2026-2030, elaborado pelo Operador Nacional do Sistema(ONS) e divulgado, parcialmente, nesta sexta-feira (10). A região tem um grande potencial para a geração eólica e solar, mas os investimentos recuaram com relação aos últimos anos por causa dos cortes de geração, que fizeram as usinas eólicas e solares centralizadas perderem receitas, produzindo menos do que o previsto. O estudo aponta que os cortes de geração totais vão sair das 19 horas para 14 horas de toda a geração que poderia ser feita. A redução foi considerada pequena por técnicos da área.
O estudo considera que os cortes de geração (curtailment) se dividem em dois: o energético, provocado quando há oferta (da geração) é maior do que a carga (consumo) e o curtailment por confiabilidade, que é o que depende da infraestrutura para escoar a energia, como as linhas de transmissão e subestações, entre outros. De acordo com o ONS, o primeiro será mais frequente e intenso, chegando a cortes da ordem de 40 Gigawatts todos os anos, enquanto o curtailment por confiabilidade – o que é determinado por falta de infra-estrutura será menor. Este último vai sair de 7% das horas em 2027 para 4% das horas em 2030.
Considerando as premissas utilizadas na projeção do ONS, os cortes de geração vão diminuir no período (2027 a 2030), mas continuarão “expressivos” com a redução ocorrendo por causa do crescimento da demanda, da expansão da rede de transmissão e da diminuição no ritmo de expansão das fontes eólicas e solares conectadas à rede básica, segundo o estudo. Ou seja, o decréscimo ocorre porque há menos investimentos nas fontes eólicas e solares centralizadas, que antes da crise provocada pelos cortes de geração, concentravam a sua implantação no Nordeste.
Os investimentos diminuíram porque qualquer empresa suspende uma implantação de um projeto ao perceber que não pode prever o quanto vai obter de receita por causa dos cortes de geração. Somente no ano passado, os cortes de geração provocaram uma perda de receita estimada em R$ 6 bilhões para as geradoras eólicas e solares do Nordeste, desperdiçando cerca de 20% do que poderia ser gerado pelas duas fontes. Os cortes de geração são determinados pelo ONS, quando ocorre excedente de geração ou falta de infraestrutura para escoar a energia.
Ainda nas projeções do PEN, a potencia instalada da geração solar centralizada vai sair de 19,1 Gigawatts (GW) em dezembro de 2025 para 23,5 GW em 2030, as eólicas que apresentaram uma potência de geração instalada de 34,6 GW em 2025 vão chegar em 2030 com 36 GW, enquanto a Micro e Mini Geração Distribuída (MMGD) – que inclui pequenos projetos de geração solar- passarão de 44,8 GW para 67,5 GW, também em dezembro de 2030. Os projetos da MMGD são espalhados pelo Brasil, não sofrem com os cortes e é o tipo de geração que mais vai crescer nos próximos anos.

Os cortes de geração poderiam diminuir mais, diz especialista
Na avaliação do CEO da consultoria Volt Robotics, Donato da Silva Filho, as projeções do ONS representam um cenário em que não ocorram mudanças estruturais capazes de aumentar a flexibilidade do sistema elétrico. “Na nossa visão, a gente tem o potencial para os cortes estarem entre 3% e 5% da geração possível pelas renováveis, porque existem várias iniciativas, ainda tímidas, que tendem a se estruturar e contribuir para uma mudança nos cortes de geração”, comenta o especialista.
Uma delas, segundo Donato, é a tarifa inteligente que está sendo definida pela Agência Nacional de Energia Elétrica com a possibilidade de entrar em vigor em 2027 para aqueles com consumo acima de 1 mil quilowatts (kw). Este tipo de tarifa deixaria a conta de luz mais barata pela manhã e mais cara no começo da noite. “Isso pode contribuir para deslocar o consumo e gastarem mais energia no período da manhã”, explica Donato. É justamente das 7h às 15h que vão continuar acontecendo os maiores cortes de geração energético até 2030, de acordo com o estudo do ONS.
Outro fator que também vai contribuir para haver um maior consumo da geração renovável é a entrada em operação das térmicas que venceram o leilão do LRCAP 2026 que vão passar a operar a partir de 2028. “Hoje, as usinas térmicas são lentas pra ligar e desligar para atender o pico da demanda do final da tarde, às vezes tendo que funcionar desde manhã”, diz Donato, acrescentando que as térmicas do LRCAP 2026 vão entrar já no horário do maior consumo de energia, possibilitando um maior consumo da geração renovável, por exemplo, pela manhã.
Donato lembra também que este ano haverá um leilão para comprar armazenamento de energia em baterias, que também deve contribuir para uma diminuição dos cortes de geração, quando estes sistemas entrarem em operação, o que pode ocorrer a partir de 2028. “Há consumidores e empresas planejando instalar baterias para armazenar a energia gerada pela manhã e consumir à noite no horário que a energia é mais cara”, comenta o especialista.
Ainda de acordo com Donato, existem outras iniciativas que podem ser adotadas para diminuir os cortes de geração, incluindo também novos consumidores, como por exemplo, os data centers, que são eletrointensivos, o estímulo aos donos dos carros elétricos para carregarem as baterias pela manhã, entre outros. O Brasil deve chegar a ter um milhão de carros elétricos em agosto próximo. Até a abertura do mercado livre, previsto para 2027 no caso dos pequenos comércios e indústrias e 2028 para os clientes residenciais, podem contribuir para um aumento do consumo da energia gerada pelas renováveis. “Vão surgir novos produtos oferecidos pelas empresas com o preço mais barato no horário em que há excedente de geração”, conta o especialista.
Ele defende que o principal desafio – para uma redução maior dos cortes de geração – é ter uma coordenação das ações entre Ministério de Minas e Energia, Aneel, ONS, EPE e CCEE para que as mudanças regulatórias sejam incorporadas ao planejamento do setor e cheguem ao dia a dia da população de forma planejada.
O especialista também percebeu que o próprio PEN prevê pequena expansão da geração eólica e solar centralizada até 2030. Na opinião dele, isso reflete a insegurança dos investidores diante do curtailment. “Ninguém vai investir em novos projetos se não enxergar um caminho para reduzir os cortes”, afirma. Para ele, uma sinalização coordenada de políticas públicas e incentivos ao aumento do consumo de energia renovável seria suficiente para restabelecer a confiança dos investidores e reduzir significativamente o problema nos próximos anos.
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