
Em outubro último, o Nordeste concentrou 14 das 15 usinas solares centralizadas que sofreram os maiores cortes de geração. Deste total, somente uma estava localizada no Norte de Minas Gerais. Esses cortes fazem as empresas produzirem menos do que o contratado e reduzem a receita das geradoras de energia renovável da região, incluindo as eólicas. “O grande perdedor do corte de geração é o Nordeste”, afirma o diretor-geral da Volts Robotics, Donato Filho.
Segundo ele, mais de 90% do impacto dos cortes de geração incide sobre empresas instaladas na região. “No Brasil, quase tudo que é eólica está no Nordeste – tendo só uma pequena parte no Rio Grande do Sul – e quase toda a geração solar centralizada também está no NE, com exceção de uma pequena parte em Minas Gerais”, comenta Donato Filho.
As 15 geradoras de energia solar centralizada que tiveram os maiores cortes de geração em outubro tiveram cortes que variaram de 63,57% a 40,84%. Minas Gerais ficou com a empresa que recebeu o maior corte de geração no mês passado. A Bahia teve seis geradoras, enquanto Pernambuco e Piauí, registraram, cada um três empresas.
Segundo Donato Filho, o percentual dos cortes de geração podem variar entre 7% e mais de 60%, dependendo da localização da usina. Para o leitor entender, quando o corte de geração atinge 60%, isso significa que uma geradora só produziu 40% do total que estava previsto.
“É uma tristeza imensa, porque isso pode fazer evaporar toda uma cadeia que levou de 15 a 20 anos para se concretizar”, diz Donato Filho, acrescentando que isso vai prejudicar os negócios que dependem das usinas solares e eólicas, como fornecedores locais e fabricantes de equipamentos, entre outros.
O prejuízo gerado depende do tipo de contrato. Por exemplo, a geradora que vende no mercado livre, terá que comprar energia para fornecer o que se comprometeu a entregar no contrato. “Isso vai trazer mais custos para esta geradora. No fim das contas, fica todo mundo ruim das pernas”, argumenta Donato.
Os cortes de geração são determinados pelo Operador Nacional do Sistema (ONS) elétrico brasileiro. Vários fatores contribuem para isso ocorrer, como falta de linhas de transmissão para escoar parte da energia produzida no Nordeste, aumento da produção de energia no horário da manhã, quando o consumo é baixo, entre outros.
As pequenas usinas instaladas em telhados – que fazem parte da chamada geração distribuída – não sofrem cortes de geração , porque o excesso da energia produzida nestes sistemas é injetada diretamente na rede de distribuição. As solares que recebem os cortes são maiores e recebem o nome de geração centralizada.

Emergencial é o ressarcimento das usinas, diz consultor
As geradoras de energia do Nordeste estão passando por cortes de geração desde setembro de 2023. No entanto, os cortes aumentaram de proporção. A estimativa é que isso tenha retirado uma receita de R$ 5,4 bilhões das geradoras de energias renováveis entre janeiro e outubro deste ano, sendo que R$ 1 bilhão foi somente em outubro. “O mais emergencial é as empresas conseguirem o ressarcimento das receitas que perderam”, explica Donato.
Ele sugere que deveria ser criado um comitê de crise da sobra de energia para implementar medidas mais estruturantes que reduzam os cortes de geração. “Não estamos vendo esta mobilização”, afirma. Geralmente, quando há escassez de energia uma das primeiras medidas do governo federal é criar um comitê de gestão de crise para economizar energia, como ocorreu algumas vezes.
Donato Filho defende também que devem ser adotadas medidas para aumentar o consumo pela manhã, porque se houver mais carga (demanda) no sistema não vai precisar cortar ou podem diminuir os cortes de geração. Uma delas seria a realização de leilões para grandes clientes consumirem mais pela manhã, incentivos para as hidrelétricas gerarem mais energia à tarde. “Quando as solares vão saindo, entraria as hidrelétricas”, conta Donato.
O especialista também cita ações que poderiam ser direcionadas aos milhares de consumidores de energia, como fazer o abastecimento dos carros elétricos pela manhã, lavar roupa, passar roupa etc.
A expectativa do setor elétrico é de que a MP 1304, que poderá ser sancionada pelo presidente da República, defina como será o ressarcimento dos cortes de geração, evitando a quebradeira do setor de renováveis.
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