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Da Sulanca ao e-commerce: Polo de Confecções descobre o mundo digital

Empreendedores ampliam vendas para todo o Brasil e exterior com apoio do Sebrae e da Amazon, enquanto mercado digital abre novas oportunidades para o Polo de Confecções
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  1. Empresária de Caruaru migra negócio de moda fitness para e-commerce após pandemia acelerar transformação digital.
  2. Juliana Bezerra reformula marca e amplia vendas para estados como Rio de Janeiro, Distrito Federal, Piauí e Amazonas.
  3. Consumidor mudou hábitos de compra e prefere realizar pedidos pela internet sem necessidade de viajar até Polo.
  4. Anagrom nasceu como empresa 100% digital há nove anos, antecipando tendência de e-commerce no setor têxtil.
  5. Fabricante de moda evangélica e fitness exporta mensalmente entre 500 e 600 peças para Estados Unidos.
Juliana Bezerra migrou seu negócio de roupa fitness da Feira da Moda, no Polo de Confecções, para o e-commerce – Foto: Sebrae/Divulgação

Durante anos, a rotina da empresária Juliana Bezerra era a mesma de milhares de confeccionistas do Agreste pernambucano. Proprietária de uma marca de moda fitness em Caruaru, ela aguardava a movimentação da Feira da Moda, onde lojistas de diferentes estados viajavam para abastecer seus estoques.

As vendas também se iniciavam pelo WhatsApp, com catálogos em PDF enviados aos clientes. A pandemia acelerou uma mudança que já começava a se desenhar.

Os compradores deixaram de viajar com a mesma frequência, descobriram a praticidade de fazer pedidos pela internet e Juliana percebeu que insistir no modelo tradicional significaria limitar o crescimento da empresa.

Foi nesse momento que decidiu fechar o ponto físico e reformular completamente a marca, que deixou de se chamar Corfit para se tornar Celer. Hoje ela investe em uma operação estruturada para vender 100% no ambiente digital.

“Eu tinha vontade de fazer essa mudança, mas não sabia como implementar. Não fazia gestão da empresa, praticamente tudo era anotado no caderno. Hoje trabalhamos com sistema integrado, plataformas digitais e uma empresa muito mais organizada”, afirma.

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A mudança ampliou o alcance da marca. Hoje, cerca de 90% das vendas continuam sendo destinadas ao atacado, mas os clientes estão espalhados por estados como Rio de Janeiro, Distrito Federal, Piauí e Amazonas. Além da loja virtual própria, a empresária prepara a entrada em novos canais de venda, como TikTok Shop e Mercado Livre para a venda direta ao consumidor final.

Para Juliana, a maior transformação foi perceber que o consumidor mudou seus hábitos de compra. “Hoje o cliente quer praticidade. Ele prefere fazer o pedido de casa, na hora que quiser, e receber a mercadoria sem precisar viajar até o Polo. Ainda existe resistência de algumas empresas, mas o online é uma realidade que só tende a crescer”, avalia.

De pioneiro no digital à exportação

O empresário Enival Saulo enxergou a transformação digital um pouco antes. Fundador da Anagrom, fabricante de moda evangélica e fitness de Caruaru, ele decidiu criar a empresa, há nove anos, com o modelo de vendas exclusivamente pela internet, pouco comum para a época.

A Anagrom investiu em plataformas digitais, estrutura logística e vendas diretas ao consumidor. “Nós já nascemos com a ideia de ser 100% digital, quando quase ninguém falava sobre e-commerce. Depois da pandemia esse mercado explodiu, mas nós já estávamos preparados”, conta.

A estratégia permitiu que a empresa construísse uma operação nacional. Hoje, vende para todos os estados brasileiros por meio de plataformas próprias, além de Market places como Mercado Livre, Shopee, Shein e TikTok Shop.

O negócio também ultrapassou as fronteiras do país. Mensalmente, entre 500 e 600 peças são comercializadas para consumidores dos Estados Unidos utilizando a estrutura logística da Amazon.

Polo de Confecções Anagrom - Foto: Divulgação
Direto do Polo de Confecções, em Caruaru, Enival Saulo vende cerca de 8 mil peças por mês de moda jeans e fitnessa para o público evangélico de Brasil e exporta para os Estados Unidos – Foto: Divulgação

O maior desafio é mudar a cultura do Polo

As histórias de Juliana e Enival ilustram uma transformação que começa a ganhar força no Polo de Confecções do Agreste, formado principalmente por Caruaru, Toritama e Santa Cruz do Capibaribe. Os dois empresários participam de um programa executado pela Radar Scout, plataforma de inteligência de mercado homologada pela Amazon e integrante da Amazon Service Partner Network (SPN Global), em parceria com o Sebrae Pernambuco.

Inicialmente, são atendidas 100 micro e pequenas empresas do Polo de Confecções no marketplace. Além da capacitação, os participantes recebem apoio em áreas como gestão financeira, registro de marca, precificação, marketing e logística, incluindo incentivos como isenção temporária de tarifas de venda, armazenagem e coleta.

O potencial para expansão é grande. A Radar Scout mapeou outras 600 empresas interessadas em ingressar ou expandir a presença digital.

O maior obstáculo para ampliar as vendas online não está na tecnologia, mas na cultura empresarial construída ao longo de décadas. Segundo o CEO da empresa, Raphael França, muitos fabricantes continuam focados quase exclusivamente no modelo tradicional, baseado nas excursões de compradores e na venda para atacadistas.

“Eles querem que o consumidor venha para o Polo, porque sempre foi assim. Mas hoje quem determina onde a venda acontece é o consumidor. As empresas precisam estar presentes no canal onde ele compra, e esse canal é o ambiente digital”, relata.

Raphael afirma que boa parte da produção confeccionada no Agreste percorre uma longa cadeia de intermediários antes de chegar ao consumidor final. “Muitos produtos produzidos aqui chegam ao mercado como se fossem de São Paulo. Há diversos atravessadores nesse processo. Isso reduz a margem de quem fabrica em Pernambuco e faz com que o consumidor nem saiba onde aquela peça foi produzida”, explica.

Polo de confecções - capacitação e-commerce - Foto:Divulgação
Rapahel França, CEO da Radar Scout, lidera um programa que está capacitando e inserindo comerciantes do Polo de Confecções com a ajuda da Amazon – Foto: Divulgação

Barreira do frete vencida com logística

Durante muito tempo, um dos principais entraves para a comercialização online das pequenas confecções do Polo de Confecções do Agreste era o custo do frete. “O consumidor colocava a roupa no carrinho, informava o CEP e desistia da compra porque o frete custava praticamente o mesmo valor da mercadoria”, explica Raphael.

Esse cenário começou a mudar após a instalação de centros de distribuição no Grande Recife, concentrados principalmente em Jaboatão dos Guararapes e Cabo de Santo Agostinho. A Amazon inaugurou seu espaço em Pernambuco em 2025, possibilitando a expansão da operação do Fulfillment by Amazon (FBA) no estado e a criação do programa para o Polo de Confeções.

“A partir de aproximadamente R$ 5 é possível enviar uma peça para qualquer lugar do país. Isso torna viável vender diretamente ao consumidor e reduz a dependência dos intermediários”, destaca Raphael.

Mercado cresce e abre novas oportunidades

O avanço do comércio eletrônico reforça esse movimento. Dados da Associação Brasileira de Inteligência Artificial e E-commerce (Abiacom) mostram que o faturamento do setor passou de R$ 126,4 bilhões em 2020 para mais de R$ 235 bilhões em 2025, crescimento de 86%. Para este ano, a previsão é de R$ 259,8 bilhões movimentados por cerca de 97 milhões de consumidores.

Ao mesmo tempo, a Pesquisa Pulso dos Pequenos Negócios, do Sebrae, revela que aproximadamente 73% dos pequenos negócios brasileiros já comercializam produtos pela internet. No Agreste Central e Setentrional, onde estão concentradas mais de 9,1 mil empresas formalizadas do setor de confecções, esse movimento representa uma oportunidade para ampliar mercados sem abandonar as tradicionais feiras.

Para Gilson Gonçalves, especialista do Sebrae/PE na Indústria de Confecção, a pandemia consolidou uma mudança definitiva no comportamento do consumidor.

“Foi um divisor de águas que ajudou a desmistificar o consumo eletrônico de moda. Os produtores perceberam essa mudança no comportamento do consumidor e passaram a intensificar seus processos para a comercialização digital”, cita.

A transformação digital é bem vista pelos empreendedores. Enival acredita que o potencial do Polo de Confecções ainda está longe de ser explorado.

“Temos capacidade para sermos uma referência mundial na venda de moda. O que precisamos é de mais educação empreendedora, incentivos e uma estrutura logística cada vez mais eficiente”, opina.

Juliana está investindo na abertura do mercado nos market places. Ainda este ano, pretende iniciar sua loja no Mercado Livre e no Tiktok Shop. “O meu pensamento maior hoje é fortalecer marca e ela  chegar em vários lugares, para cada vez mais esse faturamento ir aumentando e a marca ser conhecida”, explica.

Leia também: Plano para polo de confecções inclui tributação, censo e marketing

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