
A Embrapa, em parceria com o Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ), desenvolve estudos para ampliar o aproveitamento econômico da palmeira juçara (Euterpe edulis), espécie nativa da Mata Atlântica ameaçada de extinção e classificada como “superfruta” pelas suas propriedades químicas e nutricionais. O trabalho integra o projeto Bioeconomia: da conservação à agregação de valor aos frutos da palmeira juçara no Sistema Cantareira, vinculado ao Programa Semeando Água, e busca transformar os frutos da espécie em fonte de renda para agricultores familiares sem derrubar a planta.
Além da tradicional polpa usada em sucos e sorvetes, a pesquisa avalia o potencial da juçara para fabricação de bebidas fermentadas, óleo vegetal, farinha, vinagre, polpa em pó desidratada e blends com grãos de café. A proposta é ampliar o tempo de comercialização do fruto, diversificar aplicações industriais e alimentícias e criar novas oportunidades de renda para produtores do Sistema Cantareira.
A juçara pertence ao mesmo gênero botânico do açaí amazônico e produz frutos de alto valor nutricional. A diferença em relação ao açaí e à pupunha está na extração do palmito: enquanto essas espécies possuem múltiplos caules e conseguem rebrotar após o corte, a juçara tem tronco único. A retirada do palmito provoca a morte da planta. A exploração se intensificou na década de 1970, reduzindo fortemente as populações naturais da espécie nas décadas seguintes.
Pesquisa e capacitação
O aproveitamento dos frutos desponta como alternativa econômica que gera renda sem comprometer a sobrevivência da palmeira, contribuindo simultaneamente para a conservação da Mata Atlântica. A juçara também é indicada para ações de reflorestamento, preservação ambiental e arborização urbana, segundo o Instituto Brasileiro de Florestas (IBF), com papel ecológico relevante: seus frutos alimentam diversas espécies animais e sua presença contribui para a regeneração e manutenção da biodiversidade florestal.
Aline Biasoto, pesquisadora coordenadora dos estudos na Embrapa Meio Ambiente, disse que a pesquisa vai além do produto final. “Contamos com a colaboração de colegas de diferentes áreas da Embrapa, reunindo especialidades complementares que se somam para fortalecer o projeto e ampliar a qualidade dos resultados alcançados”, destacou.
Os trabalhos incluem pesquisas sobre propriedades nutracêuticas e compostos bioativos, métodos de processamento para ampliar a vida útil dos derivados, avaliações de pegada de carbono e hídrica da cadeia produtiva, estudos sobre polinização e ecologia da paisagem e caracterização socioeconômica dos produtores.
O IPÊ conduz análises em propriedades rurais com remanescentes de juçara para criação de indicadores de sustentabilidade e metodologias de diagnóstico socioeconômico e ambiental, com coletas de solo, frutos e abelhas polinizadoras associadas à espécie. O projeto prevê a capacitação de agricultores familiares em boas práticas de fabricação, processamento da polpa, rotulagem de alimentos e desenvolvimento de planos de negócios, com atividades práticas de coleta, despolpamento e produção de sorvete de massa. As ações contam com participação da Embrapa Agroindústria de Alimentos, da Unicamp e de empresas parceiras voltadas ao desenvolvimento de fermentados e outros produtos à base de juçara.
Juçara no Nordeste e além
A palmeira juçara ocorre desde o Rio Grande do Norte até o Rio Grande do Sul, segundo publicação da Embrapa Florestas, alcançando também o nordeste da Argentina e o sudeste do Paraguai. No Nordeste, há registro de populações nos estados da Bahia, Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte, associadas à Mata Atlântica e seus ecossistemas florestais.
A presença da espécie está ligada principalmente à Floresta Ombrófila Densa, que ocorre ao longo do litoral nordestino, mas a juçara também aparece em matas interiores, como a Floresta Estacional Semidecidual, formação presente no interior da Bahia, de Pernambuco e de outros estados da região.
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