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Pesquisa abre caminho para produção agrícola em solo salobro do semiárido

Arqueias extremófilas isoladas da erva-sal aumentam tolerância do milho ao sal e abrem caminho para bioinoculantes em solos salinizados do semiárido nordestino
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  1. Pesquisa Embrapa identifica arqueias que aumentam tolerância de plantas à salinidade do solo
  2. Arqueias extremófilas isoladas da erva-sal melhoram desempenho produtivo de milho em ambiente salobro
  3. Brasil possui 16 milhões de hectares de solos afetados por sais, principalmente no Nordeste
  4. Microrganismos produzem fitormônios e osmoprotetores que auxiliam plantas a tolerar excesso de sal
  5. Tecnologia abre possibilidades para recuperação de áreas irrigadas impactadas pela salinização no semiárido
Os microrganismos foram isolados das raízes da erva-sal, planta naturalmente adaptada à salinidade e utilizada na fitorremediação de solos salinos no semiárido. Foto: Clarice Rocha/Embrapa
Os microrganismos foram isolados das raízes da erva-sal, planta naturalmente adaptada à salinidade e utilizada na fitorremediação de solos salinos no semiárido. Foto: Clarice Rocha/Embrapa

Milho, feijão e hortaliças podem manter o desempenho produtivo em áreas irrigadas com água salobra no semiárido nordestino com a aplicação de arqueias extremófilas, microrganismos isolados das raízes da erva-sal (Atriplex nummularia), planta naturalmente adaptada à salinidade e utilizada na fitorremediação de solos salinos, capazes de aumentar a tolerância das plantas ao excesso de sal.

A descoberta é de uma pesquisa conduzida pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) em parceria com a Brandeis University, dos Estados Unidos, publicada no periódico Environmental Microbiome. As arqueias pertencem a um domínio próprio de seres vivos, distinto das bactérias, com elevada resistência a condições químicas severas, e colonizam a rizosfera, a região do solo junto às raízes marcada por intensas trocas químicas e biológicas.

O Brasil possui cerca de 16 milhões de hectares de solos afetados por sais, com mais da metade concentrada no Semiárido nordestino, segundo levantamentos da Embrapa. Entre 20% e 25% das áreas irrigadas da região já apresentam problemas de salinidade ou drenagem, impactando culturas como milho, feijão, algodão e sorgo.

Para o pesquisador Itamar Melo, da Embrapa Meio Ambiente, que coordenou o estudo, solos salinizados acabam excluídos da produção agrícola por falta de tecnologias eficazes de recuperação. “O problema não se restringe ao Semiárido, onde cerca de 30% das áreas irrigadas são atingidas pela salinização. Está presente em várias regiões do Brasil e do mundo”, afirmou.

Microrganismos raros viabilizam cultivo de milho em solos afetados por excesso de sal
Após cultivo em laboratório, microrganismos isolados das raízes da erva-sal foram avaliados em plantas de milho, em experimentos conduzidos em ambiente controlado. Fotos: Embrapa

Tolerância do milho ao ambiente salobro

Nos experimentos conduzidos em ambiente controlado, as arqueias reduziram os efeitos tóxicos do sal, permitindo que o milho mantivesse crescimento mais vigoroso e maior tolerância fisiológica em comparação com plantas não tratadas. A análise por qPCR confirmou a colonização bem-sucedida, e a abundância desses microrganismos na rizosfera do milho aumentou proporcionalmente ao avanço da salinidade no solo. O sequenciamento do genoma completo identificou genes associados à produção de fitormônios, como auxinas, e de osmoprotetores, substâncias que auxiliam no equilíbrio hídrico celular em ambientes salinos.

O pesquisador João Paulo Ventura, com vinculação científica à Embrapa Meio Ambiente, liderou os experimentos e a análise dos dados. Segundo ele, as interações entre plantas e arqueias eram até então “pouco compreendidas e raramente exploradas, sobretudo pelas dificuldades de cultivo desses microrganismos em laboratório”.

Os experimentos comprovaram que, quando inoculadas, as arqueias estabelecem colonização competitiva e bem-sucedida nas raízes do milho. “A abundância desses microrganismos aumenta à medida que se elevam os níveis de sal no solo, o que indica adaptação às condições adversas e potencial de aplicação em áreas afetadas pela salinidade”, afirmou.

Novas técnicas de manejo no semiárido

Bioinoculantes à base de arqueias poderão ser avaliados quanto à aplicação em sementes ou diretamente no solo antes do plantio. Integrada a práticas de manejo como rotação com plantas halófitas, cultivo mínimo e adubação equilibrada, a inoculação microbiana poderá reduzir os efeitos da salinização, aumentar a resiliência dos sistemas agrícolas e contribuir para a segurança alimentar e a renda no campo.

Para Ventura, os resultados reposicionam o papel desses organismos. “De curiosidades da microbiologia associadas a ambientes extremos, as arqueias passam a ser vistas como ferramentas biotecnológicas concretas, com potencial para sustentar a produtividade agrícola e contribuir para a segurança alimentar em áreas afetadas pela salinização e pelas mudanças climáticas”, afirmou.

Salinidade do solo: um problema global

Relatórios da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) apontam que 1,38 bilhão de hectares apresentam algum grau de salinidade e outro 1 bilhão está sob risco. Entre 20% e 50% das áreas irrigadas do planeta sofrem perdas de fertilidade e produtividade.

Estimativas mais conservadoras indicam que cerca de 833 milhões de hectares já são afetados de forma moderada a severa. Um mapeamento da ONU associa a salinização do solo a impactos diretos sobre a segurança alimentar, estimando que cerca de 1,5 bilhão de pessoas vivem em regiões onde o fenômeno ameaça a estabilidade da produção de alimentos.

*Com informações da Embrapa

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