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Alagoas tenta revitalizar produção de laranja-lima no Vale do Mundaú

Principal polo citrícola do estado enfrenta perda de produtividade, pragas e manejo inadequado de laranja; diagnóstico da Embrapa deve orientar ações
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~7:07
  1. Embrapa inicia diagnóstico técnico para recuperar produção de laranja-lima no Vale do Mundaú alagoano
  2. Cinco municípios formam polo cítrico, com Santana do Mundaú respondendo por 90% da produção regional
  3. Alagoas produziu 84.442 toneladas em 2024, sendo 94,3% de laranja-lima de baixa acidez
  4. Baixa produtividade está ligada a manejo inadequado, falta de tecnologia e problemas fitossanitários
  5. Embrapa planeja trabalhar com valor genético de mudas e melhorias no sistema de manejo local
produção de laranja-lima em Alagoas
Enfrentando problemas de manejo, fitossanitários e de escoamento, Vale do Mundaú busca reorganizar produção de laranja-lima. Foto: Divulgação

A laranja-lima, principal cultura citrícola de Alagoas e marca produtiva do Vale do Mundaú, passa por um momento de reorganização. Depois de anos de perda de produtividade, avanço de pragas, manejo inadequado e baixa adoção de tecnologia, a Embrapa vai iniciar uma frente de diagnóstico e articulação técnica para tentar recuperar a força da atividade na região.

Os municípios de Branquinha, Ibateguara, São José da Laje, União dos Palmares e Santana do Mundaú integram o polo cítrico alagoano. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que Santana do Mundaú responde por cerca de 90% da produção regional. Em 2024, Alagoas produziu 84.442 toneladas de laranja-doce, sendo 94,3% desse volume de laranja-lima, variedade de baixa acidez e mais voltada ao consumo in natura.

Apesar das condições ambientais favoráveis, a citricultura da região tem convivido com gargalos que ameaçam a sustentabilidade econômica da atividade. Na semana passada, a Embrapa realizou um workshop para debater a cultura e propor melhorias. As principais constatações são que a baixa produtividade dos pomares está associada à não adoção de manejo agrícola adequado, aos investimentos limitados em tecnologia, à falta de diversificação de cultivos e a problemas nutricionais e fitossanitários.

Embrapa prepara diagnóstico para recuperar citricultura

O pesquisador Anderson Marafon, da Embrapa Tabuleiros Costeiros, explicou ao Movimento Econômico que os esforços estão voltados para realizar um diagnóstico sobre a citricultura no Vale do Mundaú e assim formar uma rede técnica para orientar ações de pesquisa, tecnologia e extensão rural.

“Os próximos passos agora são realizar um diagnóstico e formação de uma rede, que será nosso marco inicial. Nesse processo, queremos entender os motivos que levaram à queda na produção de laranja-lima no Vale do Mundaú e propor soluções que otimizem a produção local”, afirmou.

Embrapa Workshop sobre laranja e citricultura em Alagoas
Embrapa realizou workshop e reuniu pesquisadores, técnicos e produtores locais para debater a cadeia produtiva de laranja lima em Alagoas. Foto: Divulgação

Marafon explica que a Embrapa pretende trabalhar, no Instituto Federal de Alagoas (Ifal) Campus Satuba e no Centro de Ciências Agrárias (Ceca) da Ufal, em Rio Largo, com o valor genético de mudas que possam ser implantadas na região. A proposta também inclui melhorias no sistema de manejo atualmente utilizado pelos produtores e ações para valorização do mercado da laranja-lima.

“Vamos estruturar uma base de dados que nos permita desenvolver ações de tecnologia, atuar com projetos de pesquisa e dar prosseguimento ao acordo de cooperação técnica com a Emater”, disse o pesquisador.

O pesquisador explicou ainda que dentro das proposições da rede de pesquisa e inovação, estão previstas visitas técnicas e dias de campo orientando práticas de manejo e coleta de amostras de solo, indução de novos projetos de pesquisa por meio de financiamentos e acordos de parcerias, que incluem cooperativas e prefeituras e instituições como Ufal, Ifal, Senar e Emater.

Rede técnica deve apoiar manejo, mudas e comercialização

A estratégia discutida para revitalizar a citricultura no Vale do Mundaú passa por diferentes frentes. Entre as proposições levantadas estão a correção dos níveis de fertilidade do solo, com aplicação de calcário, gesso e silicatos; a avaliação de novos porta-enxertos; o uso de mudas certificadas; e a seleção de materiais genéticos mais adaptados às condições locais.

Também estão previstas ações para criação de uma base de dados socioeconômicos da citricultura alagoana, levantamento dos custos de produção da laranja-lima, atualização dos estudos de sazonalidade da comercialização e mapeamento dos canais de venda da fruta produzida no Vale do Mundaú.

A comercialização é outro ponto sensível. Durante o workshop, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) informou que a compra de laranja pelo Programa de Aquisição de Alimentos chegou a R$ 897 mil em 2025, quase o dobro de 2024. Para 2026, a previsão é de compra de mais de 315 toneladas de laranja, totalizando cerca de R$ 1,598 milhão. A estimativa é beneficiar 339 citricultores, dos quais 254 são de Santana do Mundaú.

Citricultura de Laranja-lima em Alagoas Vale do Mundaú
Laranja-lima produzida atualmente no Vale do Mundaú, em Alagoas, atende mercado local. Foto: Divulgação

Migração para outras culturas expõe fragilidade produtiva

As dificuldades enfrentadas na citricultura levaram parte dos produtores a buscar alternativas nos últimos anos. Segundo o supervisor de campo do Sistema Faeal/Senar, Saul Melo, alguns agricultores migraram para a banana, cultura que ganhou espaço mais recentemente na região. No entanto, a mudança também esbarrou em problemas ligados a manejo e sanidade vegetal.

“A banana é uma cultura mais recente, mas observamos que muitos produtores de laranja chegaram a migrar, porém também enfrentaram problemas de manejo e fungos resistentes, o que comprometeu muito a produção”, disse.

O quadro reforça, segundo técnicos que acompanham a região, que o desafio do Vale do Mundaú não está apenas na escolha da cultura, mas na necessidade de assistência técnica contínua, adoção de tecnologias adequadas e maior organização produtiva.

Atualmente, o Senar atende mais de 100 produtores da região e também tem acompanhado as dificuldades enfrentadas pela citricultura local. Segundo ele, a alta incidência de pragas, o manejo insuficiente e o uso de variedades menos resistentes têm comprometido o desempenho dos pomares.

“Hoje a citricultura tem passado por um momento mais delicado, pois há uma alta incidência de pragas e pouco manejo adequado, além de muitos produtores trabalharem com uma variação de laranja pouco resistente às pragas. A produção hoje atende o mercado local, não é focada em exportação, e o Senar tem apoiado ações na região para manter a cultura em Alagoas e vai somar esforços à Embrapa e outros atores envolvidos neste processo”, afirmou.

Entre os principais problemas citados no debate técnico sobre a citricultura do Vale do Mundaú estão pragas e doenças como mosca-negra dos citros, morte-súbita, gomose e leprose, além de estiagens prolongadas, abandono de pomares e migração de produtores para outras culturas.

Outro desafio é a conservação do solo. Os pomares da região estão inseridos em áreas de relevo movimentado, o que aumenta a ação erosiva quando não há adoção de práticas conservacionistas de solo e água.

Estado promete apoio à fruticultura na Mata Alagoana

Questionada sobre ações para fortalecer a cadeia produtiva da citricultura no Vale do Mundaú, a Secretaria de Estado da Agricultura (Seagri) informou que o Frutifica Alagoas, uma das etapas do Planta Alagoas, atua no fortalecimento e ampliação da fruticultura local.

Segundo a pasta, já foram implantadas quatro estufas agrícolas nos municípios de Satuba, Murici, Maragogi e Rio Largo, em parceria com a Universidade Federal de Alagoas e o Instituto Federal de Alagoas. “O investimento é de R$ 318.636,00, por meio de convênio com o Ministério da Agricultura e Pecuária”, disse por meio de nota.

A secretaria informou ainda que, na região da Mata Alagoana, serão entregues maquinários para aumentar a eficiência produtiva, além de ações para melhorar estradas vicinais, com o objetivo de reduzir custos e facilitar o escoamento da produção.

Leia Mais: Produtores de Alagoas cobram modernização do Consecana-AL

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