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Indústria do Ceará teme impacto de importados sobre empregos e novos investimentos

Abicalçados estima que o fim da alíquota federal pode colocar em risco cerca de 53,9 mil postos de trabalho no setor calçadista em todo o país
Bruno Brandão
Bruno Brandão
De Fortaleza
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~4:52
  1. Ceará responde por 24% da produção nacional de calçados e teme perda de competitividade com importações.
  2. Importações asiáticas crescem aceleradamente: China avançou 85,1% em dez anos e Vietnã e Indonésia crescem em 2025.
  3. Setor calçadista gera mais de 65 mil empregos diretos no estado e atrai novos investimentos industriais.
  4. NKS Vulcanizados e MRS Calçados anunciam R$ 47,5 milhões em investimentos e previsão de 1.200 empregos no Ceará.
  5. FIEC repudia Medida Provisória que elimina 20% de imposto sobre compras internacionais de até US$ 50.
A exportação de calçados feitos no Ceará tem ficado entre os três principais produtos mandados para fora do país - Foto: Divulgação
Setor calçadista cearense responde por 24% da produção nacional de calçados e é um dos mais vulneráveis ao fim da taxação sobre compras internacionais – Foto: Divulgação

A indústria calçadista do Ceará reagiu com forte preocupação à decisão do governo federal de extinguir a cobrança de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50 realizadas em plataformas estrangeiras. O alerta do setor ocorre em meio ao avanço das importações asiáticas: nos últimos dez anos, as compras de calçados da China cresceram 85,1% no Brasil, enquanto, apenas em 2025, os embarques vindos do Vietnã e da Indonésia avançaram 21,4% e 32,8%, respectivamente, atingindo níveis recordes, segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex).

Responsável por 24% da produção nacional de calçados e por mais de 65 mil empregos diretos, o Ceará avalia que o fim da chamada “taxa das blusinhas” amplia a concorrência com produtos importados de baixo custo justamente em um momento de expansão industrial no estado, marcado pela chegada de novas fábricas e investimentos no setor.

Nos últimos 12 meses, novas fábricas anunciaram investimentos e iniciaram operações no estado. Em outubro de 2025, a NKS Vulcanizados confirmou a instalação de uma unidade industrial em Cariré, com investimento de R$ 40 milhões e previsão de gerar 800 empregos.

Já a MRS Calçados iniciou operações em Catunda, em março deste ano, após investimento de R$ 7,5 milhões, com potencial para criar até 400 vagas diretas. No mesmo período, a Shopee inaugurou seu primeiro centro de distribuição no Ceará, em Itaitinga, reforçando a estrutura logística do comércio eletrônico internacional na Região Metropolitana de Fortaleza.

Para as entidades industriais, a combinação entre o avanço das plataformas estrangeiras e a retirada da tributação sobre compras internacionais pode comprometer o novo ciclo de atração industrial vivido pelo estado.

Entidades representativas da indústria cearense publicaram notas de repúdio à Medida Provisória nº 1.357/2026 nesta semana - Foto: Divulgação
Entidades representativas da indústria cearense publicaram notas de repúdio à Medida Provisória nº 1.357/2026 nesta semana – Foto: Divulgação

A medida foi oficializada por meio da Medida Provisória nº 1.357/2026, assinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva na última terça-feira (12). Para representantes da indústria, a retirada da alíquota federal reduz a isonomia competitiva entre fabricantes nacionais e plataformas internacionais de comércio eletrônico.

A Federação das Indústrias do Estado do Ceará (FIEC) foi uma das primeiras entidades a se manifestar. Em nota, classificou a decisão como equivocada e afirmou que a mudança “amplia a desigualdade concorrencial entre empresas brasileiras e fornecedores internacionais”, criando um ambiente desfavorável para a indústria e o varejo nacionais.

Segundo a federação, a indústria brasileira já opera sob elevados custos de produção, complexidade tributária e desafios logísticos. Nesse contexto, a retirada da tributação sobre compras internacionais enfraquece ainda mais a competitividade do setor produtivo e coloca em risco empregos formais e investimentos industriais.

A FIEC também destacou que a criação da taxa havia representado um avanço na busca por equilíbrio concorrencial entre produtos nacionais e importados. Agora, com a revogação da medida, a avaliação é de que o país dá um passo atrás na proteção da cadeia produtiva nacional.

Calçados: setor aponta 53,9 mil empregos em risco

O posicionamento foi reforçado pela Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), com apoio do Sindicalçados Ceará. Em nota, a entidade afirmou que a extinção da alíquota aprofunda o desequilíbrio concorrencial e gera instabilidade regulatória em um momento de forte crescimento das importações asiáticas.

A Abicalçados estima que o fim da alíquota federal pode colocar em risco cerca de 53,9 mil postos de trabalho no setor calçadista em todo o país. Desse total, 18,7 mil empregos seriam perdidos diretamente na indústria, além de 13,2 mil vagas indiretas na cadeia produtiva e outros 22 mil empregos impactados pelo efeito-renda. O impacto potencial supera R$ 1,6 bilhão em remuneração.

Abertura das três novas unidades da Shopee no país deve gerar cerca de 900 empregos diretos; unidade cearense fica em Itaitinga, mesmo município onde a Amazon instalou seu CD em 2021 - Foto: Divulgação
Plataformas estrangeiras como Shein e Shopee são as principais beneficiadas pela isenção do imposto de importação federal – Foto: Divulgação

Sinditêxtil: impacto direto na cadeia têxtil cearense

O Sindicato das Indústrias de Fiação e Tecelagem em Geral no Estado do Ceará (Sinditêxtil Ceará) também informou, através de nota, apoio ao posicionamento da FIEC, destacando que o setor têxtil e de confecção já enfrenta “elevados custos de produção, carga tributária complexa e desafios logísticos relevantes”.

“A retirada da tributação sobre compras internacionais de até US$ 50 amplia a desigualdade concorrencial entre a indústria brasileira e plataformas estrangeiras, impactando diretamente empresas que geram empregos, investem em inovação, sustentabilidade e desenvolvimento econômico no País”, afirma a entidade em sua nota.

O sindicato defendeu “um ambiente econômico mais equilibrado, com condições justas de concorrência, valorização da produção brasileira e fortalecimento da indústria como vetor de crescimento, renda e geração de oportunidades”, declarando-se ao lado da FIEC na defesa da indústria cearense e brasileira.

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