
A indústria calçadista do Ceará reagiu com forte preocupação à decisão do governo federal de extinguir a cobrança de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50 realizadas em plataformas estrangeiras. O alerta do setor ocorre em meio ao avanço das importações asiáticas: nos últimos dez anos, as compras de calçados da China cresceram 85,1% no Brasil, enquanto, apenas em 2025, os embarques vindos do Vietnã e da Indonésia avançaram 21,4% e 32,8%, respectivamente, atingindo níveis recordes, segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex).
Responsável por 24% da produção nacional de calçados e por mais de 65 mil empregos diretos, o Ceará avalia que o fim da chamada “taxa das blusinhas” amplia a concorrência com produtos importados de baixo custo justamente em um momento de expansão industrial no estado, marcado pela chegada de novas fábricas e investimentos no setor.
Nos últimos 12 meses, novas fábricas anunciaram investimentos e iniciaram operações no estado. Em outubro de 2025, a NKS Vulcanizados confirmou a instalação de uma unidade industrial em Cariré, com investimento de R$ 40 milhões e previsão de gerar 800 empregos.
Já a MRS Calçados iniciou operações em Catunda, em março deste ano, após investimento de R$ 7,5 milhões, com potencial para criar até 400 vagas diretas. No mesmo período, a Shopee inaugurou seu primeiro centro de distribuição no Ceará, em Itaitinga, reforçando a estrutura logística do comércio eletrônico internacional na Região Metropolitana de Fortaleza.
Para as entidades industriais, a combinação entre o avanço das plataformas estrangeiras e a retirada da tributação sobre compras internacionais pode comprometer o novo ciclo de atração industrial vivido pelo estado.

A medida foi oficializada por meio da Medida Provisória nº 1.357/2026, assinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva na última terça-feira (12). Para representantes da indústria, a retirada da alíquota federal reduz a isonomia competitiva entre fabricantes nacionais e plataformas internacionais de comércio eletrônico.
A Federação das Indústrias do Estado do Ceará (FIEC) foi uma das primeiras entidades a se manifestar. Em nota, classificou a decisão como equivocada e afirmou que a mudança “amplia a desigualdade concorrencial entre empresas brasileiras e fornecedores internacionais”, criando um ambiente desfavorável para a indústria e o varejo nacionais.
Segundo a federação, a indústria brasileira já opera sob elevados custos de produção, complexidade tributária e desafios logísticos. Nesse contexto, a retirada da tributação sobre compras internacionais enfraquece ainda mais a competitividade do setor produtivo e coloca em risco empregos formais e investimentos industriais.
A FIEC também destacou que a criação da taxa havia representado um avanço na busca por equilíbrio concorrencial entre produtos nacionais e importados. Agora, com a revogação da medida, a avaliação é de que o país dá um passo atrás na proteção da cadeia produtiva nacional.
Calçados: setor aponta 53,9 mil empregos em risco
O posicionamento foi reforçado pela Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), com apoio do Sindicalçados Ceará. Em nota, a entidade afirmou que a extinção da alíquota aprofunda o desequilíbrio concorrencial e gera instabilidade regulatória em um momento de forte crescimento das importações asiáticas.
A Abicalçados estima que o fim da alíquota federal pode colocar em risco cerca de 53,9 mil postos de trabalho no setor calçadista em todo o país. Desse total, 18,7 mil empregos seriam perdidos diretamente na indústria, além de 13,2 mil vagas indiretas na cadeia produtiva e outros 22 mil empregos impactados pelo efeito-renda. O impacto potencial supera R$ 1,6 bilhão em remuneração.

Sinditêxtil: impacto direto na cadeia têxtil cearense
O Sindicato das Indústrias de Fiação e Tecelagem em Geral no Estado do Ceará (Sinditêxtil Ceará) também informou, através de nota, apoio ao posicionamento da FIEC, destacando que o setor têxtil e de confecção já enfrenta “elevados custos de produção, carga tributária complexa e desafios logísticos relevantes”.
“A retirada da tributação sobre compras internacionais de até US$ 50 amplia a desigualdade concorrencial entre a indústria brasileira e plataformas estrangeiras, impactando diretamente empresas que geram empregos, investem em inovação, sustentabilidade e desenvolvimento econômico no País”, afirma a entidade em sua nota.
O sindicato defendeu “um ambiente econômico mais equilibrado, com condições justas de concorrência, valorização da produção brasileira e fortalecimento da indústria como vetor de crescimento, renda e geração de oportunidades”, declarando-se ao lado da FIEC na defesa da indústria cearense e brasileira.
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