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Desistência de 141 usinas faz NE perder R$ 18 bilhões em energia renovável

As 141 usinas desistiram e devolveram a outorga à Aneel. Especialistas dizem que estes empreendimentos vão migrar pra outras regiões
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Houve uma redução dos investimentos em usinas eólicas e solar, que atingiu principalmente o Nordeste. Foto: Divulgação/Parque do Piauí

No ano passado, 141 usinas – sendo 35 eólicas e 106 solares – devolveram as outorgas (de funcionamento) à Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), que regula o setor. Ou seja: desistiram de implantar parques geradores centralizados e deixaram de realizar um investimento total de R$ 18,9 bilhões. Desse total, entre 90% e 95% ficariam no Nordeste. A desistência foi provocada pelas incertezas do setor elétrico como os cortes de geração forçados e a falta de linhas de transmissão, que trouxeram prejuízos bilionários às empresas do setor da região. E o mais grave: uma parte destes investimentos vão migrar para outras regiões, mesmo o Nordeste tendo os melhores ventos e uma das mais altas radiação solar.

“A gente percebe que vários agentes estão desistindo de fazer os investimentos no Nordeste e estão migrando os recursos não só para outras regiões do país, mas até para outros países. Então, é algo triste de se ver, porque a gente levou 15 a 20 anos para construir a indústria das renováveis, que era realmente a grande promessa do Nordeste. E agora a gente vê a região Nordeste, de certa forma, abandonada. Os investimentos estão todos minguando”, resume o CEO da Volt Robotics, Donato da Silva Filho.

Os cortes de geração forçados fazem as usinas solares e eólicas produzirem menos do que o previsto, quando há falta de linhas de transmissão ou excesso de geração de energia, como ocorre pela manhã por causa da geração dos pequenos sistemas, como os instalados nos telhados. O problema atingiu principalmente as renováveis instaladas no Nordeste.

Com relação aos cortes de geração, o executivo alega que a resposta do governo federal tem sido “lenta” e não há um plano para a redução dos mesmos. “Existem muitas indefinições. Não há uma ação coordenada sobre este tema e as várias iniciativas que estão ocorrendo, como tarifa inteligente, sistemas de armazenamento,mecanismos já previstos em lei, estão acontecendo de forma desarticulada e num ritmo muito inferior àquele que o ambiente de negócios demanda”.

Com desistência de 141 usinas, NE perde R$ 18,9 bi em energia renovável
Arte: IA/ME

Apagão de 2023 afetou cronograma das usinas

Os cortes de geração vêm ocorrendo desde agosto de 2023, depois de um apagão que deixou parte do Brasil sem energia. Os cortes de geração são determinados pelo Operador Nacional do Sistema (ONS) que tem receio que o excesso de energia provoque um colapso ao sistema.

As 35 usinas eólicas que estavam previstas para entrarem em operação, em 2025, resultariam num investimento de R$ 4,39 bilhões e as 106 usinas solares centralizadas empregariam R$ 14,51 bilhões, segundo informações baseadas em levantamentos da própria Aneel que foram repassadas pela Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (ABSolar).

A região deixou de receber uma capacidade instalada de geração de energia da ordem de 5,4 gigawatts (GW). Isso corresponde a um pouco mais metade da capacidade instalada da Companhia Hidro Elétrica do São Francisco (Chesf).

Não foi só o investimento que a região perdeu. A desistência da implantação desses empreendimentos fizeram, respectivamente, com que 15.330 postos de trabalho deixassem de ser gerados no setor eólico e 131.910, nas usinas solares fotovoltaicas.

Com desistência de 141 usinas solares e eólicas, NE perde R$ 18 bi em energia renovável
Sistema de Informações de Geração da Aneel, o SIGA, é atualizado diariamente com dados de usinas em operação e de empreendimentos outorgados em fase de construção. Foto: Aneel/Reprodução

Cortes de geração trouxeram um risco alto ao setor no Nordeste

O diretor técnico regulatório da Associação Brasileira de Energia Eólica e Novas Tecnologias (ABEEólica), Francisco Silva, afirma que os cortes de geração trouxeram um risco alto e desmedido ao setor. “Todo o mercado que investe nessas fontes está reavaliando os seus investimentos, porque hoje esses geradores estão ficando com uma incerteza que inviabiliza a possibilidade de conseguir construir novos empreendimentos, especialmente no Nordeste”, comenta.

Ele explica que o corte de geração não era considerado um risco relevante no passado, pois havia previsão legal de ressarcimento aos geradores. “No entanto, num determinado momento, foram criadas classificações por parte da agência reguladora para qualificar os momentos em que efetivamente o gerador teria ou não direito a receber por esses ressarcimentos”, conta, acrescentando que esta mudança fez com que boa parte do montante foi classificado como não sendo passível de ressarcimentos.

Francisco cita como exemplo que, em 2024, de um montante de quase R$ 2 bilhões de que os geradores tiveram de cortes, foram ressarcidos menos de 1% deste total. “Em 2025, as perdas provocadas pelos cortes foram próximas a R$ 7 bilhões e o ressarcimento ficou em menos de 5% deste total. Como os cortes dependem da operação do Operador Nacional do Sistema Elétrico, os empreendedores ficam expostos a um risco imprevisível”, diz, argumentando que isso aumenta a insegurança regulatória.

E esta insegurança regulatória provoca adiamento de projetos e ameaça novos investimentos no Nordeste.

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