
A diferença de 50 milissegundos entre processar dados em Fortaleza ou em São Paulo — que pode dobrar para mais de 100ms se a operação ocorrer fora do país — está redefinindo a lógica de localização de data centers no Brasil e colocando o Nordeste no centro da disputa global por infraestrutura de inteligência artificial. A avaliação é de Augusto Salomon, presidente Brasil da Cirion Technologies, em entrevista ao Movimento Econômico durante visita ao Recife.
Para aplicações de IA com inferência em tempo real, streaming e entrega de conteúdo, essa margem é determinante. Processar os dados próximo aos pontos de aterrissagem dos cabos submarinos elimina o trajeto adicional até o Sudeste e reduz a latência à sua expressão mínima. É esse argumento que sustenta a tese de Salomon: o Nordeste tem as condições para avançar de hub de conectividade para hub digital completo, com capacidade ampliada de data centers, interconexão e serviços de nuvem.
“As bases já estão dadas: energia renovável, posição geográfica privilegiada e crescente interesse de players globais”, disse o executivo. A Cirion, com presença em mais de 20 países da América Latina, opera o sistema SAC (South America Crossing), que posiciona Fortaleza como nó central de interconexão internacional na região, dentro de uma malha própria que supera 105 mil km de fibra e inclui participação em seis sistemas submarinos: SAC, MAC, PAC, Cook’s Crossing, TAC e SAC-2.
Investimentos concretos e nova infraestrutura de aterrissagem
A Cirion já converteu o posicionamento estratégico do Nordeste em ativos operacionais. Em 2023, a empresa colocou em operação o Bare Metal Cloud em Fortaleza, serviço de computação dedicada com baixa latência e provisão rápida de servidores para clientes locais e regionais. Em maio de 2025, lançou o serviço Landing Party em 15 estações de aterrissagem carrier-neutral na região, oferecendo infraestrutura completa para conectar novos cabos submarinos às redes terrestres — resposta direta à alta concentração de pontos de aterrissagem no litoral nordestino.
O ecossistema regional atrai também grandes operadores globais. O TikTok anunciou parceria com a Casa dos Ventos para instalar seu primeiro data center na América Latina no Porto do Pecém (CE), que será o maior do Brasil em capacidade energética. AWS, Microsoft e Google também demonstram interesse na região, atraídos pela energia renovável e pela proximidade com os cabos submarinos. Para viabilizar a interconexão entre esses ativos, a Cirion opera o DC Connect, plataforma que já integra mais de 70 data centers no Brasil e 160 na América Latina.

Resiliência submarina e diversificação geográfica
A concentração de pontos de aterrissagem no Nordeste é tratada pela Cirion como vantagem competitiva — não como risco — desde que gerenciada com disciplina operacional. Em setembro de 2023, o sistema SAC sofreu rompimento parcial no trecho entre Fortaleza e o Rio de Janeiro, causado pela âncora de uma embarcação, com impacto em serviços de internet no Nordeste e Sudeste.
A Cirion ativou rotas de contingência para redirecionar 80% do tráfego IP afetado enquanto o reparo era executado. O episódio reforçou a estratégia da empresa de operar com rotas redundantes — terrestres e subaquáticas — e consolidou a implantação do SAC-2 como instrumento central de resiliência, ampliando capacidade e reduzindo a exposição a falhas pontuais.
A lógica de diversificação se estende à distribuição geográfica dos data centers no Brasil. Para Salomon, o mercado nacional não se divide entre São Paulo e o restante do país, mas evolui para uma rede integrada de nós interconectados. Além de Fortaleza, mercados como Rio de Janeiro, Curitiba e cidades do interior brasileiro vêm ganhando relevância.
A Cirion reflete esse movimento: adquiriu terreno em São Cristóvão (RJ) para o RIO2, novo data center carrier-neutral de até 60 MW, próximo às redes internacionais de cabos submarinos, enquanto mantém expansão simultânea em São Paulo. Projeção da consultoria Oliver Wyman aponta que o estado concentrará 80% da capacidade nacional de data centers — dominância que, segundo Salomon, coexiste com o avanço das demais regiões, não o impede.
ReData travado no Senado e competição regional
A indefinição sobre o ReData — regime de incentivos fiscais para o setor de data centers que aguarda votação no Senado — é tratada pela Cirion com cautela institucional. Salomon afirmou que a empresa mantém seu plano de expansão independentemente do avanço legislativo, mas reconheceu que “a previsibilidade regulatória e a clareza nas regras do jogo são fatores que todo o setor avalia ao planejar investimentos de longo prazo”.
No cenário regional, Chile, México, Colômbia e Argentina já avançaram com marcos regulatórios e programas de incentivos para atrair investimentos em data centers. Salomon não descartou o risco competitivo, mas avaliou que o Brasil mantém vantagens estruturais — escala de demanda, talento humano, base industrial e infraestrutura de conectividade — que sustentam o interesse dos operadores globais.
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