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Cinema do Recife ganha força com reconhecimento do Agente Secreto

As premiações e indicações do filme Agente Secreto vão trazer impacto ao cinema realizado no Recife e estão beneficiando outros setores da economia criativa na capital pernambucana
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As premiações e indicações do Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, devem impactar o cinema que se faz em Pernambuco, além de já estar impactando setores da economia criativa. Foto: Agente Secreto/Divulgação

As quatro indicações ao Oscar do Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, e as duas premiações do Globo de Ouro 2026 – de melhor ator (Wagner Moura) e de melhor filme de língua não inglesa – vão trazer novas possibilidades ao cinema feito em Pernambuco, na opinião de três executivos que atuam no setor, além gerar negócios em outras áreas da economia criativa no Recife. A capital pernambucana tem mais de 14 produtoras que fazem longas com regularidade.

“Esse reconhecimento traz mais visibilidade e joga uma luz no cenário cinematográfico do Brasil. Para a Petrobras, Recife é um polo consolidado de cinema. E as premiações trazem mais visibilidade ao cinema brasileiro como um todo”, diz o gerente de patrocínio cultural da Petrobras, Milton Bittencourt. A Petrobras patrocinou a campanha de distribuição do Agente Secreto nos cinemas brasileiros e a campanha internacional do filme na temporada de premiações de 2026.

Milton diz que as campanhas internacionais são importantes porque criam oportunidades para o filme ficar mais conhecido. “Cada prêmio aumenta a visibilidade e a possibilidade dos votantes assistirem aos filmes”, explica Bittencourt. Os votantes são as pessoas que elegem os filmes vencedores destas premiações, incluindo os do Oscar. No ano passado, o Brasil ganhou o Oscar na categoria Melhor Filme Internacional com Ainda Estou Aqui.

A Petrobras vai gastar R$ 100 milhões com o patrocínio do audiovisual entre 2025 e 2027. Segundo Bittencourt, a forma principal de escolher os projetos são em seleções públicas, feitas periodicamente pela estatal.

Set de gravação do filme O Agente Secreto no Recife, com ambientação para o ano de 1977. Foto: Divulgação
Set de gravação do filme O Agente Secreto no Recife, com ambientação para o ano de 1977. Foto: Divulgação

Recursos empregados em filmes têm um impacto na economia. Bittencourt cita uma pesquisa da Fundação Getúlio Vargas (FGV) que mostrou cada R$ 1 investido em patrocínio, traz um retorno de R$ 7,59 à sociedade. A produção de um longa requer o trabalho de muitos tipos de profisssionais, indo desde o fornecimento de refeições até um pesquisador na área de história, entre outros. Ele lembra que a Petrobras apoia o cinema brasileiro há 31 anos e patrocinou mais de 600 filmes, “indo de Carlota Joaquina ao Agente Secreto”. E complementa: “o patrocínio ao cinema é uma forma muito potente da empresa se comunicar com o nosso público”.

O Agente Secreto concorre a quatro estatuetas do Oscar: Melhor Filme — pela segunda vez na história o Brasil está e também pelo segundo ano consecutivo —; Melhor Ator, com Wagner Moura sendo o primeiro brasileiro a competir na categoria; Melhor Filme Internacional, representando a chance de o Brasil vencer pelo segundo ano seguido; e Melhor Elenco, nova categoria com Gabriel Domingues representando o país. O Agente Secreto ganhou 57 prêmios desde o seu lançamento em novembro do ano passado.

O filme está em cartaz desde novembro último, sendo exibido em 470 cinemas e já foi visto por mais de 1,5 milhão de espectadores no Brasil. No exterior, o filme se aproxima dos 300 mil espectadores na França, será lançado no dia 29 de janeiro na Itália e Espanha, e chega aos cinemas do Reino Unido e Irlanda em 20 de fevereiro.

“Kleber e eu fazemos questão de lembrar que este filme é fruto de políticas públicas, do investimento na cultura do nosso país, de investimentos privados e da coprodução — elementos fundamentais para viabilizar projetos desta dimensão”, afirma a produtora do Agente Secreto, Emilie Lesclaux, via sua assessoria de imprensa, logo depois do anúncio das indicações do Oscar, divulgadas na quinta-feira (22).

“O Agente Secreto” é uma coprodução internacional, com produção da CinemaScópio, e tem como coprodutora a francesa MK2 Films, a alemã One Two Films e a holandesa Lemming. A distribuição no Brasil é realizada pela Vitrine Filmes e com patrocínio da Petrobras.

O gerente de patrocínio cultural da Petrobras, Milton Bittencourt, diz que, para a empresa, o Recife é um polo consolidado de cinema. Foto: Petrobras/Divulgação

Produção local e o impacto das premiações do Agente Secreto

A produtora e sócia da Carnaval Filmes, Nara Aragão, diz que as premiações e indicações do Agente Secreto “abrem as portas” para uma presença internacional no cinema feito em Pernambuco que pode vir tanto para o financiamento como para a distribuição dos filmes. Para ela, as premiações também atestam a capacidade técnica e artística do cinema feito no Estado e a assertividade de diversas políticas públicas que ajudaram a consolidar o cinema local. “Acredito que pessoas vão começar a prestar mais atenção nos projetos e filmes de Pernambuco”, conta.

“A gente percebe um certo incômodo dos produtores do eixo Rio de Janeiro-São Paulo porque está crescendo o financiamento aos filmes fora destes polos, mas isso está ocorrendo por causa das políticas públicas. O Fundo Setorial do Audiovisual tem cotas para todas as regiões. O cinema gera milhões de empregos, precisa contratar vários tipos de serviços e infraestrutura”, comenta Nara Aragão. Antes da Carnaval Filmes, Nara foi sócia da REC Produções – fundada em 1998 – que fez oito longas, inclusive Cinema, Aspirinas e Urubus que chegou a ir para um dos festivais mais renomados do cinema, o de Cannes.

Nara faz produção de filmes desde 2001. A Carnaval Filmes vai fazer nove anos em 2026 e produziu oito longas, sendo três como coprodutora, um filme que está em pós-produção, que é O Rio; e outro longa que terá as filmagens iniciadas em abril abril deste ano, Madrugada. Dependendo do tamanho do filme, cada longa tem uma equipe com cerca de 60 pessoas na etapa de produção e precisando também, numa média, que varia de 30 a 50 fornecedores.

Pessoal da Carnaval Filmes no set de filmagem. Da esquerda para a direita: Moabe Filho (técnico de som), Dedete Costa (diretora de Produção), Nara Aragão, Hilton Lacerda (diretor) e João Vieira Jr (produtor). Foto: Carnaval Filmes/Divulgação

Produtora da Jurema Filmes, Camila Valença diz que o atual momento do Agente Secreto é importante porque valida o “nosso lugar e vivemos de financiamento público (do cinema) que sempre foi muito concentrado no Sul e Sudeste”. Ela também argumenta que o reconhecimento do Agente Secreto é uma forma de mostrar que outras regiões também precisam dos financiamentos via Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) – que estabelece cotas para todas as regiões. “Isso mostra que a gente precisa de dinheiro, porque sabe fazer e não vai cair a qualidade do cinema por estar financiando filmes fora do eixo Rio-São Paulo”, comenta.

Para Camila, o Agente Secreto também está mostrando a capacidade que o cinema tem de transformar a economia, citando como exemplo as camisas que do bloco olindense Pitombeira que o ator Wagner Moura usou no filme e que alcançou uma venda muito maior depois do filme. “Ter um momento deste vindo de Pernambuco é fantástico. Isso acontece muito com os filmes lá fora”, afirma. E acrescenta: “Não sei vai ser o impacto desse reconhecimento do Agente Secreto no curto prazo, mas vai ajudar ao governo do Estado e a Prefeitura a olharem pra gente de uma forma diferente. Também acredito que vai melhorar a bilheteria dos próximos filmes que vamos lançar”, argumenta Camila. Ela trabalha com cinema há 18 anos no Recife.

Laursa Tours está oferecendo uma tour pelos lugares do Recife onde foi gravado o Agente Secreto. Foto: Laursa Tours

Cinema também é indústria e impacta a economia criativa

“Saí do filme Agente Secreto com o roteiro da tour na minha cabeça”, diz o sócio-fundador da La Ursa Tours, Roderick Jordão. Depois de ver o Agente Secreto no dia 6 novembro, ele passou a oferecer uma tour de três horas na qual os participantes andam a pé nos locais onde o filme foi gravado no Recife. O primeiro grupo foi formado dois dias depois e já estava lotado. O grupo pode ter, no máximo, 30 pessoas.

A tour custa R$ 40 inteira e R$ 70, o casal. É realizado aos sábado, mas excepcionalmente vai ter uma tour na sexta-feira antes do Carnaval.”O cinema traz impacto em outras áreas. É um fenômeno. Há mais de dois meses, todo sábado tem este passeio e sempre lotado”, conta Roderick.

E o mais inusitado, pra quem, é do Recife: vai ter uma tour na sexta-feira de Carnaval. “Pessoas de fora entraram em contato e pediram para fazer uma na sexta-feira do Carnaval, porque vão estar aqui neste período. Resolvemos atender. A nossa expectativa é de que com as indicações ao Oscar, as pessoas continuem procurando esta tour”, conclui Roderick. Mais de 300 pessoas já fizeram o passeio.

A Recife Film Comission levantou dados do Agente Secreto mostrando o impacto financeiro do Agente Secreto. Segundo informações da entidade, o Agente Secreto beneficiou todos que estão próximos ao filme, foram vendidas mais de 6 mil camisas da agremiação olindense Pitombeira – que é usada por Wagner Moura no filme -, há três empresas de turismo oferecendo tours relacionadas ao filme. E a cada R$ 1 investido pelos fundos e governos que incentivaram o filme, voltou R$ 1,61 para a produção, de acordo com o levantamento do órgão.

O Recife Film Comission é o órgão criado para facilitar as autorizações de gravações feitas em locais públicos do Recife por profissionais do audiovisual, numa parceria entre a Secretaria de Desenvolvimento Econômico e a Secretaria de Cultura, ambas do município. “É muito interessante o impacto do filme. Entre os americanos que viajam pra fora, 44% viajam a lugares que viram em filmes. É uma sorte ter um cineasta como Kleber, apaixonado pelo Recife, que torna o Recife personagem dos seus filmes”, diz o secretário de Desenvolvimento Econômico do Recife, Carlos Andrade Lima.

Além da sorte mais dois fatores contribuíram para a produção cinematográfica do Recife. Pernambuco é um dos poucos estados do País que disponibiliza recursos de um fundo de cultura (Funcultura), tendo um edital próprio para selecionar só projetos do audiovisual, o que passou ocorrer a partir de 2007. E o outro fator que também contribui para a qualidade do cinema local é a cidade ter passado por vários ciclos de produção de cinema.

O primeiro foi o Ciclo do Recife, nos anos 20 do século passado. Depois, nos anos 1970, veio o Cinema Super-8 pernambucano com Jommard Muniz de Brito e outros. Nos anos 90, veio uma nova geração de cineastas com Claudio Assis, Lirio Ferreira e outros. E nos anos 2000, surgiu uma nova geração de diretores, incluindo Kleber Mendonça Filho, que escreveu e dirigiu o Agente Secreto.

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