
A indústria, não só pernambucana, ganhou um aliado para consolidar o conhecimento aplicado que pode resultar em modificações nos processos, desenvolvimento de tecnologias e novos produtos. É o Senai Park, “um nascedouro” de plantas pilotos industriais que vão desenvolver manufaturados que poderão, posteriormente, ser escalados nas fábricas. Instalado em Ipojuca, ao lado da sede administrativa do Complexo Industrial Portuário de Suape, o centro tecnológico será inaugurado nesta segunda-feira (20).
O empreendimento recebeu um investimento de R$ 100 milhões e trabalha com a expectativa de captar mais R$ 200 milhões em novos projetos. Um dos objetivos do Senai Park é tropicalizar várias tecnologias desenvolvidas lá fora para que o País importe menos produtos de alto valor agregado, como por exemplo, baterias de lítio para veículos leves e híbridos com algum grau de eletrificação. Hoje, o Brasil não fabrica este item.
“É preciso trazer para dentro de Suape as capacidades já existentes das universidades, dos institutos de pesquisa para que possamos, com isso, desenvolver projetos de tecnologia e inovação que consigam traduzir e transferir essas tecnologias, esse conhecimento que existe no Estado, e transformá-los em novos negócios ”, resume o diretor de Inovação e Tecnologia do Senai-PE, Oziel Alves.
Segundo Oziel, o Senai Park também pode permitir que indústrias de menor porte, no nível de maturidade tecnológica, apliquem essas tecnologias no cenário real. E complementa: “A gente compartilha os riscos para a indústria, reduz os riscos tecnológicos, riscos financeiros e vai conseguir acelerar o desenvolvimento dessas cadeias industriais”.
Até agora, são dois projetos em execução no centro tecnológico. A planta piloto que vai desenvolver um protótipo nacional de bateria de lítio de baixa tensão, de 12 volts (V) e 48V, para veículos híbridos e leves. Este projeto conta com participação da Moura, Stellantis, Volkswagen, Iochpe Maxion e Horse.
O segundo projeto é focado na digitalização da cadeia de produção do hidrogênio sustentável, com a participação de companhias como Neuman & Esser, Siemens, White Martins, Hytron, Compesa e CTG Brasil. Juntas, as iniciativas totalizaram investimentos de R$ 100 milhões.

Linha de produção de baterias
A planta piloto de baterias terá uma linha de produção importada da China que deve chegar a Suape em dezembro com a previsão de entrar em operação em março de 2026. Serão produzidas cerca de 1 mil baterias por mês. “O objetivo é produzir os lotes pioneiros desse tipo de bateria no Brasil, e para isso a gente tem a Baterias Mouras, que é a empresa âncora e está no projeto”, comenta Oziel.
A iniciativa faz parte do programa Mover, do governo federal, que apoia projetos que podem contribuir para o futuro da mobilidade mais sustentável.
O diretor de de Operações de Lítio da Baterias Moura, Spartacus Pedrosa, considera a planta piloto “uma oportunidade fantástica para inserir Pernambuco e o Nordeste dentro do contexto da eletrificação do veículo”, acrescentando que serão as primeiras baterias deste tipo produzidas aqui. Segundo ele, a iniciativa vai “capacitar nossos engenheiros, nossos técnicos, nossos operadores a como fazer essas baterias que, sem dúvida nenhuma, integrarão o futuro da eletromobilidade no Brasil”.
Atualmente, cerca de 70% das células de lítio do mundo são produzidas na China, que tem 40% dos minerais chamados terras raras. O Brasil tem 20%, mas não responde nem por 1% do que é beneficiado desta matéria-prima no mundo.
“Hoje, a demanda não justifica o investimento (para implantar uma fábrica de bateria de lítio), mas quando a demanda se aproximar, a indústria vai responder”, argumenta Spartacus.
O Senai Park também vai desenvolver estudos – usando a Inteligência Artificial (IA) – para apontar qual a melhor forma de armazenar energia em grandes sistemas de baterias, chamados BESS. “As soluções que podem vir do uso do BESS vão ajudar a reduzir os cortes de geração, que são um problema na região”, comenta o presidente da Federação das Indústrias do Estado de Pernambuco (Fiepe), Bruno Veloso.
Os cortes de geração fazem que as geradoras eólicas e solares, principalmente do Nordeste, produzam menos energia do que a prevista devido à falta de linha de transmissão para escoar a energia e também por não dispor de grandes sistemas de baterias para armazená-la. O armazenamento vai permitir ao gerador injetar a energia no sistema no horário de maior consumo.
Bruno diz também que o Senai Park é um centro de desenvolvimento tecnológico, que vai fazer com que os projetos se transformem em protótipo, podendo levar para a indústria algo que já foi testado. “É um nascedouro de projetos pilotos, obviamente engajado com outras indústrias também, e daqui nós podemos transformar esses projetos em efetividade numa produção muito maior depois”, comenta o presidente da Fiepe.

Planta de hidrogênio verde
O Senai Park tem uma planta piloto produzindo hidrogênio verde. Lá, estão sendo estudadas as rotas de aplicação do hidrogênio na mobilidade, na produção de novos combustíveis sustentáveis – como o SAF, entre outros produtos verdes, como a amônia. “O hidrogênio é um vetor de transporte de energia”, afirma Oziel.
O eletrolisador instalado na planta piloto do Senai Park tem uma potência de geração de 100 kW. O equipamento produz 30 quilos de hidrogênio verde por dia. Segundo Oziel, isso é suficiente para abastecer quatro veículos, fazendo uma viagem de ida e volta de Suape para o Recife, aplicando o hidrogênio em célula combustível. Ele lembra que é uma planta piloto.
Fábrica piloto de sensor de radar
A próxima planta piloto que pode se instalar no Senai Park poderá produzir o sensor do radar que faz parte do Sistema Avançado de Auxílio a Direção (ADAS) na função de frenagem. Este sistema forma um conjunto de tecnologias do veículo projetadas para auxiliar o motorista em tarefas de condução, como manter faixa, estacionar, evitar colisões), além de detectar obstáculos, erros do condutor ou situações de risco.
A implantação desta planta piloto vai demandar um investimento de R$ 44 milhões. E o Senai Park está concorrendo a uma chamada pública do Mover para receber recursos a serem usados na instalação do projeto, apoiado também por pelo menos duas grandes montadoras instaladas no Brasil.
O centro tecnológico também está tentando atrair uma planta piloto de drones, que demandaria novos investimentos.

Senai Park, a ZPE e o cluster de energias renováveis
O presidente de Suape, Armando Monteiro Bisneto, afirma que o Senai Park é importante para Suape por vários motivos, mas principalmente para ajudar a consolidar o cluster de energias renováveis que está se instalando no atracadouro, citando as duas fábricas de e-metanol anunciadas para o complexo, que são a da European Energy e a da Go Verde. “E a gente pretende atrair outras fábricas para fabricar o SAF, o combustível sustentável de aviação, a amônia, enfim. Então, isso dialoga com esse novo cluster de Suape. O Senai Park, além de formar mão de obra, vai desenvolver novas tecnologias”, comenta.
O executivo também argumenta que o Senai Park também dialoga com a ZPE Pública de Pernambuco que o governo Raqyel Lyra pediu ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio para ser criada. “E nessa ZPE a gente pretende instalar boa parte dessas indústrias”, comenta Bisneto, acrescentando que elas já nascem com contratos de fornecimento de longo prazo, garantindo demanda estável para produtos, como e-metanol e SAF.
Impacto da inovação
O Senai Park é vinculado ao Instituto Senai de Inovação para Tecnologias da Informação e Comunicação (ISI-TICs), fundado em 2013 e credenciado como unidade EMBRAPII. São 28 ISIs no Brasil.”A cada R$ 1 colocado nesta rede, são devolvidos R$ 18 para a economia”, conta a diretora regional do SENAI-PE, Camila Barreto. Segundo ela, 0,66% do Produto Interno Brasileiro (PIB) passa pelos centros tecnológicos da instituição.
“O Senai Park traz um contexto que funciona mundo afora. A ideia é que funcione aqui também”, conclui Oziel, argumentando que o centro foi construído de forma modular e tem interesse em abrigar novos projetos de outras áreas.
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