
O debate temático sobre a PEC da Escala 6×1 no plenário do Senado, marcado para o próximo dia 1º de julho, colocou o setor de bares e restaurantes em estado de alerta. A rigidez da proposta tem gerado temor entre os trabalhadores da ponta, que operam diretamente no salão. Em Pernambuco, empregados e empregadores adotam discurso preventivo.
A Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) ressalta que o setor de bares e restaurantes sustenta mais de 100 mil empregos formais diretos em Pernambuco. A liderança setorial adverte para o risco de demissões e migração de trabalhadores para o mercado informal devido à rigidez da escala proposta.
Os cálculos da Abrasel projetam uma queda de até 30% na arrecadação das comissões e gorjetas dos trabalhadores da ponta. O encurtamento dos turnos de fim de semana reduz o faturamento do salão nos horários de maior movimento.
”O trabalhador vai sofrer uma punição dupla. Ele vai ganhar menos e vai pagar mais. Ele ganha menos porque perde um dia de trabalho e a comissão do salão cheio. E vai pagar mais porque a nova escala vai gerar aumentos em cascata”, diz o presiente da entidade, Tony Sousa.
A gastronomia pernambucana atua como um dos principais motores do turismo e da economia local. O engessamento da jornada, segundo representantes do setor, pode provocar uma redução drástica nos rendimentos mensais de garçons, cumins e barmen, que dependem diretamente do fluxo de clientes nos estabelecimentos.
De acordo com os trabalhadores, a dinâmica dos restaurantes é ditada pelo movimento dos fins de semana e feriados. Grande parte da remuneração real desses profissionais vem das comissões e da taxa de serviço de 10%, que são diretamente afetadas pelo tempo de atendimento.
Com a aplicação de um modelo obrigatório como o 5×2, os estabelecimentos preveem a redução do horário de funcionamento para conter custos com novas contratações. Essa medida reduzirá as horas de salão aberto justamente nos turnos mais lucrativos para as equipes.
O impacto nas comissões e no orçamento familiar
Os funcionários do setor indicam que a gratificação por produtividade representa a principal parcela dos ganhos mensais. A limitação dos horários noturnos e de fins de semana interfere diretamente no planejamento financeiro das famílias.
O gerente de operações Anderson Lima relata as dificuldades que a mudança pode trazer para o orçamento. “No salário da gente o que dá o plus realmente é a comissão. Então, assim, sem essa comissão vai impactar muito muito no nosso no nosso orçamento”, explica.
“Fechar mais cedo também vai impactar muito. Tem restaurante que vai até uma hora. A gente vai fazer o quê? Vai deixar de atender? Isso vai influenciar no faturamento. Com certeza não tem como. Essa ideia aí é totalmente errônea. Isso aí vai dar errado porque vai impactar muito”, continua.
A possibilidade de ter dois dias de folga na semana é vista com ressalvas pelos profissionais quando associada à perda financeira. A tendência apontada pela categoria é a busca por ocupações secundárias para cobrir o desfalque na renda.
”O funcionário vai perder um dia de comissão? A maioria dos funcionários vai procurar complementar esses dois dias ou sugerindo uma extra na própria empresa ou fazendo uma extra em algum canto que vai abrir espaço para isso”, argumenta Anderson Lima.

Custos operacionais e reflexos nos preços do cardápio
Do lado empresarial, as projeções apontam um acréscimo de até 20% nos custos operacionais com a aprovação da PEC. Em Pernambuco, segundo a Abrasel, 16% das empresas operam no prejuízo ou no limite e mais de 80% são micro e pequenos negócios familiares. A entidade estima que o repasse inflacionário para os cardápios ficará entre 7% e 10%.
O presidente da Abrasel-PE e proprietário da Cia do Chopp, Tony Sousa, projeta um impacto que ultrapassa o setor de alimentação. “O erro crasso desse debate na pressa, de forma tão atabalhoada, é achar que a mudança atinge apenas o comércio de alimentação. O impacto econômico vai colapsar a estrutura de custos de toda a sociedade”, aponta o dirigente.
Tony Sousa aponta um efeito cascata em complexos multiuso. ”Hoje, uma fatia enorme dos nossos bares e restaurantes funciona dentro de condomínios comerciais, empresariais ou complexos multiuso. Se você engessa a escala, como fica a segurança, a portaria e a limpeza desses condomínios que precisam funcionar 24 horas por dia, sete dias por semana?”, questiona.
“O custo condominial desses complexos vai explodir para cobrir as novas folgas obrigatórias, inviabilizando tanto a operação do restaurante que está lá dentro quanto as lojas vizinhas”, acrescenta.
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