
O número de trabalhadores por plataformas digitais cresceu 33,2% no Nordeste entre 2022 e 2024, ritmo superior à média nacional de 25,4%, segundo a PNAD Contínua divulgada nesta sexta-feira (17) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Enquanto o país somava 1,7 milhão de trabalhadores plataformizados em 2024, a região nordestina concentrava 293 mil pessoas nesse tipo de ocupação, ou 17,7% do total.
Em 2022, o Brasil tinha 1,3 milhão de trabalhadores por aplicativos; no Nordeste, eram 220 mil. Em dois anos, o país incorporou 335 mil novos ocupados neste modelo, dos quais 73 mil vieram da região. A expansão nordestina foi impulsionada principalmente pelo transporte de passageiros, com crescimento mais acentuado em áreas metropolitanas e cidades médias.
A renda média dos trabalhadores por aplicativos no país chegou a R$ 2.996, valor 4,2% superior ao dos não plataformizados (R$ 2.875). No Nordeste, a renda dos plataformizados alcançou R$ 2.516, 41,4% acima da dos demais trabalhadores da região (R$ 1.779), refletindo um diferencial mais expressivo do que a média nacional.
Apesar dos ganhos, o modelo se mantém altamente informal. Em nível nacional, 71,1% dos trabalhadores plataformizados atuavam sem vínculo formal; no Nordeste, o índice chegou a 87,7%, o mais elevado entre todas as regiões. A contribuição para a previdência também é mais baixa na região: apenas 22,7% contribuem, frente a 35,9% no Brasil e 61,9% entre os trabalhadores não plataformizados.
Transporte domina uso de aplicativos na região
O transporte particular de passageiros é a principal atividade dos trabalhadores por aplicativo no Brasil (58,3%) e também no Nordeste, onde a proporção é ainda maior: 69,4% dos plataformizados da região atuam como motoristas, a maior taxa do país. Em seguida, vêm os que utilizam plataformas de entrega de comida e produtos (15%) e os que prestam serviços profissionais ou gerais (9,7%).
No país, os trabalhadores em aplicativos de entrega representam 29,3% e os de serviços profissionais, 17,8%. A diferença indica uma concentração maior de atividades operacionais no Nordeste, com menor diversificação nas ocupações plataformizadas.
Jornada mais longa e ganhos por hora acima da média regional
A média nacional de jornada dos trabalhadores por aplicativos é de 44,8 horas semanais, enquanto a dos demais trabalhadores é de 39,3 horas. No Nordeste, essa diferença é mais acentuada: plataformizados trabalham 44,7 horas, contra 36,8 horas dos não plataformizados — a maior diferença do país entre os dois grupos.
O rendimento-hora nacional dos plataformizados é de R$ 15,40, inferior ao dos não plataformizados (R$ 16,80). Já no Nordeste, o cenário se inverte: plataformizados recebem R$ 13,00 por hora, acima dos R$ 11,10 dos demais ocupados. Isso ocorre apesar da maior carga horária, sugerindo ganho relativo mais favorável na região para quem atua via aplicativo.
Entre os motociclistas, categoria relevante no setor de entregas, o Nordeste acompanha a tendência nacional: trabalhadores plataformizados ganham, em média, R$ 2.119, frente a R$ 1.653 dos não plataformizados, em jornadas igualmente mais longas.
Desigualdade de gênero é mais acentuada na plataformização
Entre os trabalhadores por aplicativos no Brasil, 83,9% são homens, proporção significativamente superior à média de 58,8% no setor privado. Segundo o IBGE, esse padrão se relaciona com o perfil das atividades predominantes no setor, como transporte e entrega, ocupações majoritariamente masculinas.
No Nordeste, essa concentração tende a ser ainda mais acentuada, dado o peso do transporte como principal atividade plataformizada. A baixa participação feminina revela barreiras de acesso ao trabalho digital, tanto por fatores sociais quanto por segurança e estrutura de apoio.
Apps de entrega conectam tanto entregadores como pequenos negócios
Entre os 485 mil trabalhadores plataformizados em aplicativos de entrega no país, 274 mil atuavam como entregadores, enquanto 211 mil exerciam outras ocupações, como pequenos comerciantes, profissionais de alimentação e prestadores de serviço autônomos.
Esses trabalhadores utilizam as plataformas não para entrega direta, mas como meio de captação de clientes e viabilização de vendas, especialmente em regiões com menor infraestrutura de comércio formal. No Nordeste, onde o empreendedorismo por necessidade é mais comum, essa forma de uso dos aplicativos reforça a dependência digital, mesmo entre autônomos com negócio próprio.
O rendimento médio desses dois grupos é bastante desigual: entregadores recebem, em média, R$ 2.340, enquanto os demais ocupados com apps de entrega ganham R$ 4.615, quase o dobro. A carga horária é semelhante, em torno de 46 horas semanais.
Controle das plataformas e dependência digital
A pesquisa identificou altos níveis de dependência das plataformas digitais. Nacionalmente, 91,2% dos motoristas por aplicativo têm o valor do serviço definido pela plataforma, e 76,7% não escolhem seus clientes. Entre entregadores, 70,4% afirmaram que os prazos das entregas são controlados pela empresa, e 76,8% disseram que a forma de pagamento é imposta.
Mais da metade dos motoristas (55,8%) e entregadores (50,1%) relataram influência de incentivos ou bônus na jornada. Além disso, mais de 30% disseram ter enfrentado ameaças de bloqueio ou punições, revelando um ambiente de trabalho com baixo grau de autonomia efetiva, mesmo em atividades classificadas como autônomas.
Expansão entre trabalhadores qualificados é desigual
No Brasil, o grupamento de profissionais das ciências e intelectuais representa 5% dos plataformizados, mas foi o que mais cresceu proporcionalmente desde 2022, impulsionado por serviços como design, tradução e tecnologia. No Nordeste, no entanto, essa transição é mais lenta: apenas 9,7% dos trabalhadores da região usam plataformas para prestação de serviços profissionais, bem abaixo da média nacional de 17,8%.
Esse dado evidencia barreiras regionais à diversificação digital do trabalho qualificado, ligadas a desigualdades de infraestrutura, escolaridade e densidade de mercado.
Escolaridade influencia ganhos e revela subutilização de formação
Nacionalmente, trabalhadores com ensino fundamental completo ou menos que atuam por meio de plataformas digitais têm rendimento até 40% superior ao de seus pares em ocupações tradicionais. No Nordeste, essa tendência se mantém, reforçando o papel das plataformas como alternativa para pessoas com menor qualificação formal.
Por outro lado, entre os que possuem ensino superior completo, os plataformizados ganham, em média, R$ 4.263, contra R$ 6.072 dos não plataformizados — diferença de quase 30%. Muitos acabam em ocupações com exigência abaixo de sua formação, como motoristas ou entregadores.
Avanço sem regulação agrava informalidade no mercado de trabalho
Estados como Bahia, Pernambuco e Ceará lideram o crescimento do trabalho por aplicativos no Nordeste, com destaque para capitais e regiões metropolitanas. A expansão também chega a cidades médias, onde o mercado formal é mais restrito.
A alta informalidade e a baixa cobertura previdenciária, porém, acentuam a vulnerabilidade social dos trabalhadores. Enquanto 44,3% dos ocupados no setor privado no Brasil são informais, entre os plataformizados esse número sobe para 71,1% — e chega a 87,7% no Nordeste.
Reconhecimento de vínculo trabalhista chega ao STF
A disputa por melhores condições de trabalho chegou ao Supremo Tribunal Federal (STF), que deve retomar em novembro o julgamento sobre o possível reconhecimento de vínculo empregatício entre trabalhadores e plataformas digitais. A ação pode redefinir os marcos legais da chamada gig economy no país.
Representantes da categoria defendem o vínculo para combater o que classificam como precarização estrutural. As empresas alegam que oferecem flexibilidade e autonomia. Em parecer recente, a Procuradoria-Geral da República (PGR) se posicionou contra o reconhecimento automático, por entender que a relação não se enquadra nas regras da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT).
*Com informações da Agência IBGE e Agência Brasil
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