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Espuma da palmeira buriti vira isolante térmico e “rival” sustentável do isopor

Buriti BioEspuma, startup piauiense incubada na UFPI, capta R$ 2 milhões no Lab Procel II para desenvolver isolante feito da bioespuma do buriti como alternativa verde na construção civil
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Espuma da palmeira buriti vira isolante térmico e "rival" sustentável do isopor
Processamento da bioespuma do buriti pode ser utilizado em lajes pré-moldadas, painéis de forro modular e placas de parede. Foto: Instagram/Reprodução

O pecíolo da folha da palmeira buriti (Mauritia flexuosa), parte interna do talo que comunidades da Amazônia e do Piauí usam há gerações para fabricar artesanato e brinquedos, virou matéria-prima de isolantes térmicos e absorventes acústicos para a construção civil e rival sustentável do isopor. A transformação é resultado de uma pesquisa iniciada em 2009 no curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Piauí (UFPI) e rendeu à startup Buriti BioEspuma um aporte superior a R$ 2 milhões, obtido após seleção para a segunda fase do Lab Procel II, programa nacional de eficiência energética. A empresa é uma das quatro startups selecionadas em todo o Brasil para essa etapa.

O pecíolo da folha do buriti possui em sua parte interna um tecido vegetal de extrema leveza e alto teor de celulose. A palmeira pode atingir até 25 metros de altura, com folhas que chegam a 3,5 metros de comprimento, o que garante abundância de matéria-prima sem necessidade de supressão vegetal.

Pesquisas realizadas de forma independente na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP) demonstraram que, quando exposto a 150°C, o material não ultrapassou 90°C internamente, enquanto o poliestireno expandido (isopor) inicia degradação a partir dos 80°C.

O isopor é amplamente utilizado em painéis estruturais de telhados e coberturas na construção civil, mas não é biodegradável e apresenta riscos ambientais no descarte. A bioespuma do buriti apresenta biodegradabilidade, menor flamabilidade e baixo impacto na extração como vantagens frente aos isolantes sintéticos convencionais.

Elayne Figueiredo, gerente de Inovação da UFPI, acrescenta que o material é não inflamável, o que amplia seu potencial em projetos com exigências de segurança contra incêndio.

Na Buriti BioEspuma, a matéria-prima é processada para extrair a espuma natural do pecíolo, que é então moldada em isolantes da linha Thermaa, desenvolvida para aplicação em sistemas construtivos voltados à eficiência energética de edificações, com uso em lajes pré-moldadas, painéis de forro modular e placas de parede.

O material incorpora carbono biogênico e apresenta baixa energia no processo produtivo, características que contribuem para a substituição de isolantes de maior impacto ambiental.

Do doutorado ao mercado

A pesquisa avançou em 2013, quando um dos sócios participou do programa Ciência sem Fronteiras nos Estados Unidos, aprofundando os estudos na Temple University em parceria com especialistas em arquitetura e engenharia mecânica. De volta ao Piauí, o trabalho resultou em uma tese de doutorado no Programa de Pós-Graduação em Ciência e Engenharia de Materiais (PPGCM/UFPI), publicações científicas internacionais e um pedido de patente.

A empresa foi formalizada em março de 2023, após seleção no programa Centelha II, e opera incubada pela Incubadora de Empresas do Agronegócio da UFPI (Ineagro). O quadro societário reúne cinco fundadores: os professores doutores Felippe Fabrício (arquiteto e engenheiro), Renato Cosse (engenheiro mecânico) e Lívio César (farmacêutico), além de Taynan Rachid (arquiteto e designer) e Leonardo Modesto (administrador). A empresa conta com portfólio de 15 produtos em comercialização.

A indicação ao edital do Lab Procel II foi articulada por Elayne Figueiredo a partir de conexão estabelecida durante o Desafio StartUFPI 2025, quando pesquisadores do Senai Pernambuco visitaram as incubadas da universidade. Ao identificar o potencial da Buriti BioEspuma na área de economia circular, a gerente submeteu a empresa à seleção. “A gente queria realmente algo que representasse o Piauí para colocar o estado nessa rota de tecnologia”, afirmou.

Aplicação dos recursos

O investimento será destinado ao aprimoramento das propriedades do material, validações laboratoriais acreditadas e obtenção de certificações de desempenho, segurança e sustentabilidade. Estão previstos ainda a aquisição de equipamentos para produção piloto e a implantação de projetos demonstrativos em edificações reais. O projeto inclui análise do ciclo de vida da tecnologia, com quantificação de energia incorporada e avaliação do potencial de redução de emissões de carbono.

Paralelamente ao desenvolvimento tecnológico, a startup estrutura cadeias produtivas baseadas no extrativismo sustentável do buriti no vale do rio Parnaíba, com remuneração a preço justo para comunidades fornecedoras.

“A empresa tem sua vertente comercial, mas como parte da inovação também valorizamos o trabalhador rural do vale do rio Parnaíba. Assim, mapeamos comunidades que podem fornecer a nossa matéria-prima, que é o talo da palmeira buriti, e pagamos um preço justo por esse material. Isso coloca uma renda extra nessas comunidades que têm abraçado a nossa iniciativa”, afirmou Renato Cosse, cofundador e professor do Departamento de Engenharia Mecânica da UFPI.

O buriti ocorre naturalmente nos biomas Cerrado e Amazônia, com presença expressiva no Piauí, Maranhão e Pará, onde a espécie integra a cultura local há séculos.

Planta de buriti (Mauritia flexuosa)
A parte esponjosa do pecíolo (medula) da folha do buriti é geralmente usada na confecção de artesanatos diversos e papel. Foto: Zig Koch/Embrapa

Estrutura do Lab Procel

O Lab Procel foi criado em 2020 como iniciativa da Empresa Brasileira de Participações em Energia Nuclear e Binacional S.A (ENBPar), uma empresa pública vinculada ao Ministério de Minas e Energia, em parceria com o Senai, a Firjan, o Instituto Senai de Inovação de Santa Catarina e o Procel.

A segunda fase do programa, o Lab Procel II, opera com convênio de R$ 33 milhões distribuídos em três chamadas públicas voltadas à economia circular, cidades inteligentes e indústria 4.0. O programa conecta startups com soluções de eficiência energética à rede de institutos técnicos e científicos, com foco em validação tecnológica e acesso a mercado.

As outras três empresas selecionadas na mesma chamada, segundo lista oficial do programa, são a BDM Corporações, venture building com atuação em energia sustentável e mais de 21 pedidos de patente depositados no Brasil e no exterior; a HRios Soluções Ambientais, startup carioca fundada em 2019 que desenvolve ecobarreiras inteligentes para coleta de resíduos em rios e oceanos; e a XMA.IA Tecnologia, que opera plataforma de manutenção autônoma com inteligência artificial para operações industriais. Nenhuma das três tem sede no Nordeste.

Antes desta captação, a Buriti BioEspuma participou da Expo Revestir 2024, em São Paulo, um dos maiores eventos mundiais do setor de construção civil, e foi parceira da Casa Cor Piauí 2024, onde aplicou seus absorventes sonoros em dois ambientes. Venceu a Batalha de Startups da Feira do Empreendedor Sebrae Piauí em 2024, foi eleita Startup do Ano no Prêmio Carnaúba Valley em janeiro de 2025 e representou o Norte/Nordeste como única empresa da região em missão internacional no Gitex Expand North Star, em Dubai, em setembro de 2024.

*Com informações da UFPI e do Piauí Negócios

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