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Déficit digital limita inserção de trabalhadores do NE no mercado de IA

Pesquisa RSB 68 da CNI aponta que 40,6% dos trabalhadores do Nordeste dominam tarefas complexas, contra 44,5% da média nacional. O déficit digital é maior entre idosos e baixa renda
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Entre entrevistados com ensino superior, 74,6% atingem nível médio-alto ou alto em tarefas complexas que envolvem o universo digital e aplicação de IA. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Menos de 41% dos trabalhadores do Nordeste alcançam nível médio-alto ou alto de habilidade em tarefas digitais complexas, como uso de inteligência artificial, operação de planilhas e configuração de sistemas. Esse desempenho fica 3,9 pontos percentuais abaixo da média nacional de 44,5%. Os dados constam da 68ª edição da pesquisa Retratos da Sociedade Brasileira (RSB 68), divulgada em 17 de abril pela Confederação Nacional da Indústria (CNI). A pesquisa foi elaborada com base em 2.008 entrevistas presenciais realizadas pela Nexus entre 10 e 15 de outubro de 2025 nas 27 Unidades da Federação, com pessoas a partir de 16 anos, margem de erro de 2 pontos percentuais e intervalo de confiança de 95%.

O Nordeste registra lacuna tanto nas habilidades básicas quanto nas complexas. Nas atividades elementares, como o uso de aplicativos de mensagens, transações financeiras e navegação na internet, a região alcança 60,8% de domínio alto ou médio-alto, contra 64,1% do Brasil. No indicador geral, que combina os dois conjuntos de atividades, o Nordeste chega a 49,6%, contra 54,2% da média nacional. A pesquisa não apresenta abertura por estado dentro da região.

O comparativo entre regiões mostra que o déficit nordestino nas tarefas complexas não é o maior do país. O Norte/Centro-Oeste registra 37,3% de domínio alto ou médio-alto nesse grupo de atividades — 3,3 pontos percentuais abaixo do Nordeste —, enquanto o interior nacional alcança 40,3%, praticamente o mesmo patamar regional. O Sudeste lidera com 49,4%, seguido pela média nacional (44,5%) e pelo Sul (43,7%).

Nas tarefas básicas, o Nordeste (60,8%) e o Norte/Centro-Oeste (61,1%) ficam na base do ranking regional, com o interior nacional (60,0%) como único recorte com desempenho inferior. No indicador geral, o Sudeste alcança 59,3%, o Sul registra 52,8%, o Nordeste chega a 49,6% e o Norte/Centro-Oeste fecha com 46,2%.

Escolaridade e renda como vetores do déficit digital

A escolaridade é a variável com maior amplitude de variação nos dados nacionais. Entre entrevistados com ensino superior, 74,6% atingem nível médio-alto ou alto em tarefas complexas. Entre aqueles com ensino fundamental, o percentual recua para 17,9%; no grupo classificado como analfabeto ou que apenas sabe ler e escrever, o índice é de 1%.

Entre entrevistados com renda acima de 5 salários mínimos, 64,6% têm domínio médio-alto ou alto nas tarefas complexas; no estrato de até 1 salário mínimo, o percentual é de 30,8%. A RSB 68 não estabelece relação de causalidade direta entre os indicadores regionais e essas variáveis, mas os dados são consistentes com o resultado inferior registrado pelo Nordeste em relação a déficit digital, grau de urbanização e estrutura econômica local.

Faixa etária e risco para o mercado de trabalho

O grupo de 25 a 34 anos concentra a maior participação de pessoas com habilidade alta em tarefas complexas: 39,4%. Na faixa de 16 a 24 anos, 65,7% dos entrevistados apresentam habilidade médio-alta ou alta no conjunto das tarefas complexas. A partir dos 35 a 44 anos, o índice recua para 53,4%. Nessa faixa, a participação de pessoas com habilidade baixa (27,1%) supera pela primeira vez a de habilidade alta (26,2%), dado relevante para um grupo que ainda permanecerá no mercado de trabalho por pelo menos 20 anos.

Entre 45 e 59 anos, o domínio médio-alto ou alto cai para 36%. No grupo de 60 anos ou mais, atinge 9,9%. “Considerando que essas pessoas ainda têm uma vida laboral a ser percorrida, é necessário que elas se capacitem e se adaptem às novas tecnologias, para que possam continuar inseridas no mercado de trabalho cada vez mais tecnológico”, afirmou Cláudia Perdigão, da equipe técnica da Superintendência de Economia da CNI.

Metodologia e tarefas avaliadas

O levantamento mensurou a maturidade digital a partir de 16 atividades7 básicas e 9 complexas. As tarefas básicas incluem redação e edição de textos, uso de aplicativos de mensagens, gestão de redes sociais, navegação em websites, compras e vendas online, transações financeiras via Pix e transferência bancária, e verificação de informações por buscas online. As tarefas complexas abrangem configuração de celulares e computadores novos, resolução de problemas técnicos em dispositivos, construção de planilhas e visualização de dados, criação e edição de imagens e vídeos, trabalho na nuvem, identificação de vírus e fraudes digitais, uso de inteligência artificial — como ChatGPT, Grok e Gemini —, criação de websites e aplicativos, e configuração de programas.

Os entrevistados atribuíram notas de 1 a 5 para cada atividade, convertidas em indicador de escala entre 0 e 100, segmentado em quatro faixas: baixa (0–25), médio-baixa (25–50), médio-alta (50–75) e alta (75–100).

Novas ocupações em IA e ferramenta de qualificação

O Observatório Nacional da Indústria (ONI) identificou seis novas ocupações diretamente ligadas à inteligência artificial com potencial de gerar pelo menos 4.950 postos de trabalho: engenheiro de sistemas embarcados com IA, cientista ou especialista em dados para operação de redes de telecomunicações, técnico em automação cognitiva de infraestrutura, técnico em observabilidade de infraestrutura física e digital, analista de manutenção preditiva autônoma e analytics industrial, e técnico em automação de redes e AIOps — modalidade que aplica análise de dados e inteligência artificial para otimizar e automatizar operações de tecnologia da informação.

As ocupações correspondem a demandas emergentes da incorporação de tecnologias digitais em setores industriais estratégicos, em um mercado onde, segundo a RSB 68, 55,5% dos brasileiros ainda não atingem nível adequado de domínio em tarefas complexas.

O Senai disponibiliza a NAI — plataforma gratuita desenvolvida com tecnologia do Google Cloud que analisa currículos, mapeia lacunas de qualificação, recomenda cursos da instituição e direciona usuários a vagas via Google Jobs, acessível em nai.senai.br. O Senai opera 1.024 unidades escolares em todos os estados, registra 3,1 milhões de matrículas anuais e qualificou mais de 92 milhões de trabalhadores desde 1942.

*Com informações da CNI

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