
O Ceará tem buscado se posicionar como protagonista na nova economia digital brasileira, com iniciativas como a instalação de um megaprojeto de data center no Porto do Pecém, estimado em R$ 50 bilhões e sustentado por energia 100% renovável. No entanto, por trás da ambição, persistem desafios estruturais, regulatórios e logísticos que ainda limitam o avanço do setor.
Esses obstáculos foram debatidos durante o seminário Ceará Tech Hub, promovido pela Fundação Cultural Nipônica Brasileira, reunindo especialistas, investidores e representantes públicos. Para o deputado Danilo Forte (União Brasil), presidente da Comissão de Desenvolvimento Econômico da Câmara, é urgente enfrentar entraves como a ausência de autorização para exportação de serviços digitais pelas Zonas de Processamento de Exportação (ZPEs), além da necessidade de infraestrutura elétrica compatível com a demanda dos centros de dados.
Embora o Ceará seja o estado com maior número de conexões internacionais por cabos submarinos na América do Sul, ainda faltam rede de transmissão adequada e segurança jurídica para atrair grandes investimentos. Forte defende uma atualização no marco regulatório e medidas para garantir energia limpa a preços competitivos. “A energia verde é o novo petróleo, e o Ceará tem abundância. Mas sem mudanças, perdemos oportunidades”, alertou.
Data center do TikTok no Ceará
Grandes players já sinalizam interesse. Além da Casa dos Ventos, que atua com a francesa TotalEnergies, o TikTok também negocia a instalação de um data center no estado. A infraestrutura de dados não só impulsiona inovação e atrai multinacionais, como também reconfigura a matriz produtiva regional.
Apesar do entusiasmo, especialistas alertam que gargalos institucionais e promessas não concretizadas ainda freiam o avanço de projetos estratégicos. “Não podemos repetir fracassos como a refinaria ou o aquário. Os data centers são hoje infraestrutura crítica, como foram as rodovias no século passado”, afirma David Paes, organizador do evento. Para ele, o Ceará já dispõe dos recursos naturais e da conectividade, mas precisa de agilidade institucional e visão de longo prazo.

A solução da Brisanet
É nesse contexto que a Brisanet desponta como uma alternativa viável e concreta para enfrentar parte dos desafios. A operadora de telecomunicações, uma das maiores do Nordeste, adota uma estratégia de descentralização da infraestrutura digital, com a implantação de 288 mini data centers próprios em 158 cidades da região, conectados por uma malha de 77 mil quilômetros de fibra óptica.
Com mais de 1,5 milhão de clientes, a empresa vem investindo em uma arquitetura distribuída que melhora a qualidade da conexão e reduz a latência. “Os data centers são parte essencial da conectividade do futuro. Precisamos atender à demanda não só do setor corporativo, mas também de órgãos públicos e empresas do interior, que hoje operam com infraestrutura limitada”, afirma o CEO José Roberto Nogueira.
A lógica é baseada no conceito de edge computing, em que o processamento dos dados é feito próximo do ponto de uso. “Ao colocar mini data centers a cada 100 ou 200 km, conseguimos reduzir o tempo de resposta em milissegundos. Isso melhora a performance de aplicações que exigem velocidade e estabilidade”, explica.
No momento, essa rede tem sido usada para sustentar a própria operação da empresa, mas Nogueira não descarta, no médio prazo, abrir esse serviço a terceiros. “Ainda não comercializamos essa estrutura, mas isso pode mudar. A tendência é que o mercado avance nesse sentido.”

Marcos Ferrari, presidente executivo da Telebrasil, acrescenta que os investimentos em conectividade, armazenamento e processamento de dados são a espinha dorsal do novo ciclo de crescimento econômico, baseado em inteligência artificial, Internet das Coisas (IoT) e automação: “A nova economia exige uma infraestrutura robusta e conectividade confiável. Data centers e energias renováveis são peças essenciais desse ecossistema digital. É importante ver o Ceará se posicionando com protagonismo nesse cenário”.
Para o economista Igor Lucena, o Ceará tem os fundamentos para se consolidar como hub da economia digital: conectividade internacional, energia limpa e localização estratégica. “Falta transformar isso em um discurso coordenado de atração de capital e execução eficiente”, defende. Marcos Ferrari, da Telebrasil, reforça: “Data centers e renováveis são a espinha dorsal da nova economia. O Ceará pode liderar, mas precisa sair do campo das intenções.”
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