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Maranhão vive racha político que ameaça hegemonia de Lula

Crise entre o governador Carlos Brandão e "dinistas", com áudios vazados e acusação de traição abala a base de Lula no Maranhão
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Carlos Brandão assume o governo, após a renúncia de Flávio Dino. Grupo que dava sustentação ao governo impodiu Foto: Divulgação PSB
Carlos Brandão quando assumiu o governo, em 2022, após a renúncia de Flávio Dino. Grupo que dava sustentação ao governo implodiu. Foto: Divulgação PSB

“O diabo costuma soprar em ouvido de governador. E o diabo fica por acolá dizendo sabe o quê para o governador, para o prefeito, dizendo assim: ‘Tu é o cara, tu é poderoso, olha como tu é bom’”. A frase utilizada pelo então governador do Maranhão Flávio Dino, em março de 2022, quando se despedia do cargo e o passava para o vice e hoje governador reeleito Carlos Brandão (PSB), voltou a circular nas redes sociais num momento turbulento da política maranhense. Áudios vazados, acusações de traição e o rompimento de uma aliança que governava o estado há mais de 10 anos compõem um cenário de crise que ameaça o desempenho do presidente Lula (PT) no estado em sua tentativa de reeleição em 2026.

O que começou como uma disputa de bastidores pelo comando do Palácio dos Leões, sede do governo do Maranhão, transformou-se em uma crise de grandes proporções. O grupo político que sustentou a hegemonia do então governador Flávio Dino por quase uma década está fragmentado, e a cisão tem nomes, áudios e ressentimentos. Brandão rompeu com os “dinistas” após recuar de um acordo firmado em 2022, segundo o qual o vice-governador Felipe Camarão (PT) assumiria o comando do estado no último ano de mandato, fortalecendo-se para concorrer ao governo em 2026.

Áudios provocam racha no Maranhão

A ruptura veio à tona quando gravações de conversas entre aliados de Dino começaram a circular, revelando tentativas de convencer Brandão a honrar o compromisso político com o PT. O governador reagiu acusando o grupo de tentar “impor” candidaturas e passou a defender a sucessão do sobrinho Orleans Brandão, secretário de Assuntos Municipalistas.

As gravações, que rapidamente ganharam repercussão, foram classificadas por deputados ligados ao ex-governador como “provas de espionagem e traição” dentro do próprio governo. O deputado federal Rubens Pereira Jr. (PT-MA), cujo pai ocupava o cargo de secretário de Articulação Política, denunciou na tribuna da Câmara dos Deputados que foi gravado clandestinamente por ordem do governador e de seu irmão, Marcos Brandão.

“Eu já tinha visto gravar adversário, e isso é repugnante. Mas gravar um aliado, alguém que foi emissário da paz, é algo odioso”, afirmou Rubens Pereira Jr., ao anunciar a saída do seu pai do cargo, “de forma irrevogável, irretratável”. “Na política é melhor ser traído do que ser traidor. E traidor eu não sou.”

Tentativa de pacificação

Em discurso de pouco mais de 10 minutos, Rubens contou que foi chamado por Carlos Brandão para tentar “pacificar o grupo político” e restabelecer o diálogo com Flávio Dino e o desembargador federal Ney Belo. Segundo ele, o governador teria solicitado a mediação e, após a reunião, o próprio Brandão e o irmão Marcos autorizaram a gravação clandestina de uma nova conversa, sem seu conhecimento.

“Fui procurado para uma missão de paz, para conversar com o ministro Flávio Dino. E quando retorno com a resposta, sou gravado. Nunca imaginei que o governador e o irmão dele seriam capazes de armar contra um aliado. Isso é o que há de mais vil na política”, declarou.

Rubens Pereira Jr. relatou ainda que Dino reagiu com serenidade à tentativa de reaproximação, reafirmando seu afastamento da vida partidária desde que assumiu o Supremo Tribunal Federal. “Ele me disse: ‘Paz? Comigo não há guerra. Estou fora da política. Esses assuntos vocês resolvem’. E completou: ‘Na vida pública, é sempre melhor buscar a paz e a unidade do que a guerra’.”

Na mesma fala, o deputado anunciou não apenas a saída do seu pai da Secretaria de Articulação Política. O gesto simbolizou o rompimento definitivo da família Pereira com o governador Carlos Brandão, antigo aliado de primeira hora.

“A traição maior foi com meu pai, que coordenou a campanha de Brandão quando ele tinha 1% das intenções de voto. Nós acreditamos nele, demos as mãos a ele. E hoje somos apunhalados pelas costas. Saio do governo de cabeça erguida, e o meu pai também sai, porque a honra da nossa família é inegociável.”

Brandão fala em “chantagens”

Em nota divulgada nesta quarta-feira (22), o governador do Maranhão, Carlos Brandão, afirmou que as gravações que vieram a público confirmam “chantagens e barganhas nada republicanas” e negou que seu governo tenha feito qualquer registro de conversas.

“Em política, tem que se ter coerência. Sou parceiro do presidente Lula sob qualquer circunstância, mas aqui no Maranhão plantou-se uma divisão. O governo que se encerrou em 2022 quis permanecer no comando da gestão para a qual fui eleito. Fui parceiro, mas impus limites”, declarou o governador.

Brandão disse que “a reação foi insana e agressiva” e acusou ex-aliados de tentarem condicionar apoio político à liberação de vagas no Tribunal de Contas do Estado.

“O deputado Rubens Júnior me trouxe o recado, uma oferta. Eu apoiaria a candidatura de interesse do deputado Márcio Jerry em Colinas, e as vagas retidas do TCE seriam liberadas”, afirmou, acrescentando que “o próprio Rubens Júnior confirmou na tribuna da Câmara Federal”.

O governador também negou ter ordenado qualquer gravação. “Eu não gravei, meu governo não gravou. Eles que fizeram gravar. Agora temem os efeitos dessa exposição vexatória a que se submeteram, expondo nomes de outros níveis de poder”, concluiu Brandão.

PCdoB e PT se afastam do governo

A repercussão do caso provocou um efeito dominó no campo progressista. O deputado federal Márcio Jerry (PCdoB-MA), ex-secretário no governo Dino e um dos principais articuladores da aliança que levou Brandão à reeleição, também rompeu com o governador. Em discurso na Câmara, Jerry classificou as gravações como “coisa de bandido” e acusou diretamente o governo estadual de montar “uma armação criminosa”.

“Fomos vítimas de uma armação feita pelo governo do Maranhão, com participação direta do irmão do governador e, possivelmente, dele próprio. É um caso lamentável”, afirmou.

O PCdoB anunciou a saída de secretários e convocou reunião partidária para discutir o desligamento definitivo da base governista. O PT, por sua vez, tenta manter o vice-governador Felipe Camarão no cargo, mas a convivência com Brandão se tornou politicamente insustentável.

“Se o nosso time se divide aqui, o maior prejudicado vai ser o Lula, porque a tendência é a votação dele cair no Maranhão se a gente sair separado”, alertou Camarão, em entrevista à Folha de S. Paulo.

Maranhão, um desafio para o Planalto

O episódio também expôs a vulnerabilidade da estratégia eleitoral de Lula no Maranhão — estado onde o presidente obteve quase 70% dos votos válidos no segundo turno em 2022 e que vinha sendo considerado um reduto seguro do PT no Nordeste. Sem a coesão entre Dino, Brandão e Camarão, o grupo lulista perde unidade e abre espaço para o avanço de forças de centro e direita, como União Brasil, PSD e Republicanos, que já articulam novas alianças locais.

Analistas políticos locais apontam que o estilo conciliador de Brandão, que o levou a ser vice por duas gestões consecutivas, deu lugar a uma postura mais centralizadora e personalista, marcada pela tentativa de consolidar um projeto familiar de poder. A possível candidatura de Orleans Brandão é vista por ex-aliados como o ponto de inflexão que desfez a coalizão de 2014, responsável por derrotar o grupo Sarney e inaugurar um novo ciclo político no Maranhão.

O próprio Rubens Pereira Jr. resumiu o sentimento de ruptura. “O que deixamos no passado em 2014, o governador Brandão tenta trazer de volta agora — o familismo político puro e simples.”

Um alerta para o futuro

Com a base progressista dividida, a governabilidade de Carlos Brandão se fragiliza e o Maranhão volta a ser palco de disputas intensas entre antigos aliados. A crise vai além das fronteiras estaduais: coloca o governo Lula diante do desafio de recompor sua base mais fiel em um dos estados onde o petismo teve maior força eleitoral.

O “sopro do diabo”, mencionado por Flávio Dino em sua despedida, parece agora ecoar, entre os aliados do ex-governador, como uma metáfora precisa da tentação do poder. Entre gravações, desconfianças e demissões, o Maranhão assiste à implosão de uma aliança que, por mais de dez anos, simbolizou a união da esquerda no estado — e que agora ameaça se transformar em um dos maiores focos de instabilidade do campo lulista antes de 2026.

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