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Empreendedorismo feminino esbarra em crédito e desigualdad

"Precisamos implementar medidas que transformem qualidade, igualdade e oportunidade em resultados concretos"
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  1. Mais de 10 milhões de mulheres comandam negócios no Brasil em 2025, representando 34% dos empreendedores.
  2. Apenas 25% dos recursos destinados a pequenos negócios chegam às mulheres empreendedoras, criando desvantagem financeira.
  3. Empreendedoras pagam taxas de juros mais altas que homens, reduzindo viabilidade financeira de expansão empresarial.
  4. Jornada dupla ou tripla limita tempo para gestão estratégica, capacitação e networking das mulheres empreendedoras.
  5. Negócios de mulheres negras são menores, menos formalizados e com renda média inferior, exigindo políticas específicas.

Por Ana Claudia Badra Cotait*

Em 2025 o empreendedorismo feminino no Brasil alcançou números que merecem comemoração e atenção. Os dados mostram que mais de 10 milhões de mulheres estão à frente de negócios no país, um recorde que expressa tanto a resiliência quanto a iniciativa feminina diante de um mercado em transformação.

Apesar desse aumento em participação, o cenário revela fragilidades estruturais que podem limitar a sustentabilidade e o crescimento desses empreendimentos. Em termos de representatividade, as mulheres corresponderam a cerca de 34% dos empreendedores, sinalizando progresso, mas também a existência de barreiras em relação à igualdade de gênero na economia.

Um dos maiores desafios que nossas empreendedoras enfrentam é o acesso ao crédito. Estudos apontam que apenas uma parcela reduzida dos recursos destinados a pequenos negócios – cerca de 25% –  chega às mulheres enquanto existem muitas linhas que beneficiam majoritariamente empreendimentos masculinos. Essa diferença significa menos capital para investimentos, estoque e profissionalização das empresas lideradas por mulheres.

Outro problema são as taxas de juros mais altas cobradas das empreendedoras. Pesquisas apontam que empresárias, especialmente as microempreendedoras, chegam a pagar taxas médias efetivas superiores às dos homens, reduzindo ainda mais a viabilidade financeira de expansão dos seus negócios. Essa diferença agrava desigualdades já existentes e aumenta o risco de endividamento e de fechamento prematuro.

Outro aspecto que precisa ser considerado é a jornada das empreendedoras. Muitas mulheres acumulam uma jornada dupla ou tripla que engloba administrar o negócio, cuidar da casa e também da família, o que limita tempo para gestão estratégica, capacitação, networking e busca por novos mercados. Pesquisas apontam alto índice de sobrecarga das empreendedoras, com impactos diretos na produtividade, na capacidade de inovação e na expansão dos negócios.

As desigualdades raciais também atravessam esse ecossistema: negócios de propriedade de mulheres negras tendem a ser menores, com menor formalização e menor renda média, o que exige políticas específicas de inclusão e fomento para reduzir essa assimetria territorial e racial.

Para 2026, precisamos consolidar os ganhos de participação feminina e reduzir as vulnerabilidades que limitam a qualidade desse avanço. Algumas prioridades práticas e políticas públicas devem priorizar:

Linhas de crédito — ampliar produtos financeiros com juros e garantias compatíveis à realidade de micro e pequenas empresárias, incluindo planos específicos para MEIs lideradas por mulheres e por negras.

Desburocratização dos serviços — expandir e digitalizar capacitação, consultorias e redes de mentoria, com oferta em horários e formatos compatíveis com jornadas reduzidas.

Compras públicas — criar cotas e estímulos para que compras governamentais e grandes cadeias contratem produtos e serviços de empreendedoras.

O Brasil vive hoje um momento promissor no protagonismo feminino no empreendedorismo com mais empreendedoras, que significam mais diversidade de ideias, mais resiliência econômica e maior dinamismo para a economia local. Entretanto, sem ações estruturais que enfrentem o acesso desigual ao crédito, o ônus das taxas mais altas, a sobrecarga de trabalho e as desigualdades raciais, corre-se o risco de que o crescimento permaneça concentrado em negócios de subsistência, em vez de negócios sustentáveis e escaláveis.

Precisamos reconhecer o avanço quantitativo e, ao mesmo tempo, implementar medidas que transformem qualidade, igualdade e oportunidade em resultados concretos. Só assim transformaremos a presença feminina no empreendedorismo em um motor potente de desenvolvimento econômico e social para todo o país.

*Ana Claudia Badra Cotait é presidente do CMEC Nacional  –  Conselho Nacional da Mulher Empreendedora e da Cultura

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