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Como a construção civil em Pernambuco reinventa seu papel ambiental

Longe de ser o antagonista, o setor da construção civil, articulado pela Ademi-PE, assume um papel de protagonista na construção de um futuro sustentável
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Hermon Augusto

Por Hermon Augusto Junior *

Uma tese fundamental, e pouco observada, emerge do desenvolvimento urbano em Pernambuco: a resposta planejada ao déficit habitacional tornou-se uma eficaz ferramenta de preservação ambiental no estado. Contrariando a percepção convencional que opõe o crescimento das cidades ao meio ambiente, a expansão do setor imobiliário formal, regulado e inovador, está se revelando a principal estratégia contra a degradação gerada pela ocupação desordenada. Longe de ser o antagonista, o setor da construção civil, articulado pela Associação das Empresas do Mercado Imobiliário (Ademi-PE), assume um papel de protagonista na construção de um futuro mais sustentável.

A raiz da degradação ambiental urbana não está no crescimento em si, mas no vácuo deixado pela falta de moradia digna. A verdadeira força motriz da expansão caótica sobre áreas frágeis é o profundo déficit habitacional qualitativo. Embora Pernambuco apresente uma das menores taxas de déficit relativo do Brasil, a crise se manifesta nas condições precárias que empurram milhares de famílias para a informalidade. A falta de moradia digna impulsiona a ocupação irregular de áreas verdes, unidades de conservação e áreas de preservação permanente (APPs), causando desmatamento, poluição e sobrecarga da infraestrutura. Esse fenômeno alimenta um ciclo vicioso com impacto climático direto, já que a principal fonte de emissões de gases de efeito estufa no Brasil é justamente a “Mudança de Uso da Terra e Florestas”, segundo dados do SEEG.

Neste cenário, a provisão de moradia densa e verticalizada pelo setor formal se torna uma poderosa ferramenta de ação climática, evitando a ocupação dispersa. Contudo, vozes da academia e da sociedade civil alertam para que o modelo de desenvolvimento garanta a inclusão social, evitando processos de gentrificação e assegurando que a infraestrutura urbana acompanhe o adensamento.

MCMV: construção sustentável

Um ponto de inflexão reconfigurou silenciosamente este cenário, alinhando políticas públicas a mecanismos de mercado. A reedição do programa Minha Casa, Minha Vida deixou de ser uma política puramente habitacional para se tornar um mandato de sustentabilidade. Ao exigir infraestrutura completa e segurança socioambiental como condição para financiamento, a lei transformou o maior programa do setor no principal indutor de desenvolvimento urbano ordenado. Os números do mercado confirmam a escala desta transformação, com o programa respondendo por 51,7% do Valor Geral de Vendas no estado. Fica evidente que o principal vetor de crescimento econômico tornou-se também o principal instrumento de implementação de uma política ambiental urbana eficaz.

Esse movimento é catalisado por incentivos como o Selo Casa Azul da Caixa, que alinha o benefício ambiental a vantagens estratégicas. Ao promover a gestão eficiente de recursos naturais, como água e energia, a certificação cria um ciclo virtuoso. Para os moradores, os benefícios diretos são maior qualidade de vida, conforto ambiental e uma redução concreta nas despesas mensais; para as construtoras, isso se traduz em vantagens comerciais tangíveis, como a redução nas taxas de juros do financiamento e um poderoso diferencial de mercado.

Neste novo ambiente, o protagonismo da Ademi-PE e seus associados se manifesta na transição da retórica à ação concreta e sistêmica. As ações representam um verdadeiro processo de educação ambiental contínuo no setor, impactando positivamente a forma e a qualidade das cidades. O compromisso foi internalizado na própria estrutura da associação, que agora possui uma Assessoria Ambiental em seu quadro fixo. A criação de um Comitê de Políticas Ambientais institucionalizou a agenda, indo além de iniciativas isoladas para promover ativamente o desenvolvimento sustentável. Essa estrutura se traduz em engajamento político e institucional, com atuação em conselhos ambientais e uma cobrança contínua por processos de licenciamento mais transparentes.

Mais do que focar apenas em seus empreendimentos, o setor passou a advogar por cidades melhores, com exigências de urbanização sustentável e saneamento universal. Internamente, a associação atua como uma plataforma de educação ambiental, realizando eventos para disseminar as melhores práticas e reforçando esse esforço com mecanismos de incentivo, como o Troféu Ademi de Sustentabilidade. O vencedor de 2024, o empreendimento Mirante do Frio, por exemplo, foi reconhecido por implementar um sistema de energia solar e um projeto paisagístico que prioriza a vegetação nativa, materializando o discurso em ações concretas.

Os resultados são tangíveis: a modernização tecnológica já permitiu a redução de resíduos nos canteiros em cerca de 40%. Em um cenário onde o rigor de agentes financeiros elevou a barra para a concessão de crédito, a investigação e remoção adequada de contaminantes no solo e a adoção de análises de risco de enchentes com tempo de retorno de 200 anos tornaram-se práticas recorrentes. O compromisso se estende para além dos muros, com o setor investindo na qualificação das áreas no entorno dos empreendimentos, com foco em mobilidade, arborização urbana e compensação de vegetação, gerando um ganho líquido para a cidade. O cuidado avança até mesmo para a sustentabilidade pós-entrega, com o estímulo à inclusão de cláusulas ambientais nas convenções dos condomínios.

O que se observa em Pernambuco, portanto, é mais do que uma simples mudança em práticas construtivas; o conjunto de iniciativas configura um verdadeiro movimento ambiental e social liderado pelo setor da construção civil. A transformação silenciosa já é visível. A percepção de que desempenho econômico e responsabilidade socioambiental são indissociáveis deixou de ser um discurso para se tornar uma necessidade estratégica, consolidando a agenda ESG como o alicerce para o futuro das cidades.

A meta para os próximos passos é dupla: integrar a nova cidade vertical a uma mobilidade de baixo carbono e descarbonizar o próprio setor, o que dependerá de uma governança compartilhada e um planejamento urbano integrado. A jornada, reconhece o setor, está apenas no começo e exige um diálogo profundo com a sociedade, mas já aponta para a consolidação de um novo e poderoso paradigma: o de que edificar, em sua forma mais consciente, é também um ato de preservar.

*Biólogo, CEO da Calango Meio Ambiente e Tecnologia, Assessor Técnico Ambiental da Ademi-PE.

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