
Os nove estados que integram o Consórcio Nordeste estão estruturando o Fundo Caatinga, mecanismo voltado à captação de recursos para financiar ações de regeneração ambiental e fortalecimento da resiliência climática no Semiárido brasileiro. O anúncio foi feito pelo chefe de gabinete do consórcio, Glauber Piva, durante o Seminário Internacional de Combate à Desertificação, realizado em Brasília nesta quarta-feira (17), data em que é celebrado o Dia Mundial de Combate à Desertificação.
A proposta é direcionar recursos para projetos de restauração produtiva, bioeconomia, manejo sustentável, inovação tecnológica e adaptação às mudanças climáticas. A iniciativa integra a estratégia de “recaatingamento”, conceito que busca recuperar as capacidades ecológicas, produtivas e sociais da Caatinga.
Segundo ele, o instrumento será fundamental para mobilizar investimentos e ampliar a cooperação entre governos, setor privado, universidades e organizações da sociedade civil, inclusive na agenda internacional de mudança climática.
Semiárido como território de soluções
Durante sua apresentação, Piva defendeu uma mudança de perspectiva sobre o Semiárido brasileiro. “O Semiárido brasileiro não é um problema. O Semiárido brasileiro é uma solução a ser compreendida”, destacou.
De acordo com o gestor, a região abriga cerca de 28 milhões de pessoas e reúne experiências consolidadas de convivência com o clima semiárido, desenvolvidas por agricultores familiares, povos indígenas, comunidades quilombolas, universidades e institutos de pesquisa.
Entre as soluções já implementadas no território estão programas de cisternas, sistemas agroecológicos e práticas de manejo sustentável da Caatinga, consideradas referências internacionais em adaptação climática.
“O Nordeste não pede solidariedade, o Nordeste pede parceria. Nós temos conhecimento acumulado, capacidade institucional e experiência territorial para construir soluções de alcance global”, afirmou.
Política nacional fortalece estratégia
A estruturação do fundo ocorre em um momento de fortalecimento institucional da agenda ambiental para o bioma, impulsionada pela recente aprovação da Política Nacional de Recuperação da Caatinga.
Segundo o Consórcio Nordeste, a nova política cria as bases necessárias para ampliar investimentos e consolidar parcerias voltadas à recuperação de áreas degradadas, à segurança hídrica e à geração de renda.
Além do desafio ambiental, a desertificação é tratada como uma questão econômica e social, com impactos diretos sobre a segurança hídrica, a migração e os modos de vida das populações rurais.
O Nordeste também busca associar essa agenda ao protagonismo regional na transição energética. A região lidera a geração de energia eólica no país e amplia rapidamente a produção de energia solar.
As experiências desenvolvidas no Semiárido deverão ser apresentadas pelo Consórcio Nordeste na COP17 da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação, que será realizada na Mongólia, com foco na ampliação da cooperação com países da África, América Latina e Ásia.
Tecnologia, bioeconomia e financiamento
Os debates realizados durante o seminário reforçaram que o enfrentamento à desertificação deixou de ser apenas uma agenda ambiental para se consolidar como uma estratégia de desenvolvimento econômico, segurança alimentar e inclusão social. Dados apresentados no evento mostram que a degradação do solo já afeta 18% do território brasileiro e compromete diretamente a produtividade de cerca de 1,7 milhão de estabelecimentos da agricultura familiar.
Representante da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), Gustavo Kananca destacou que a recuperação de áreas degradadas é uma medida essencial para reduzir desigualdades regionais e fortalecer a resiliência climática. “Restaurar a terra não é apenas uma agenda ambiental, é uma agenda de produção de resiliência, de justiça territorial e de futuro”, afirmou.
O seminário também evidenciou a necessidade de ampliar os investimentos públicos destinados à recuperação do Semiárido. Para o deputado federal Nilto Tatto (PT-SP), o orçamento da União precisa refletir a dimensão do problema, com a ampliação de recursos do BNDES e de fundos regionais para ações estruturantes voltadas à restauração ambiental.
A inovação tecnológica foi apontada como um dos pilares para transformar conhecimento científico em geração de renda. Diretor do Instituto Nacional do Semiárido (INSA/MCTI), Etã Barbosa apresentou os resultados do Sistema de Saneamento Ambiental e Reúso de Água (SARA), que recebeu investimentos de R$ 21 milhões para expansão. Segundo ele, a economia do futuro estará cada vez mais associada ao conhecimento e à gestão de dados.
A diretora do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, Sônia da Costa, ressaltou a importância de políticas permanentes de segurança hídrica para garantir desenvolvimento econômico e permanência das famílias no campo. Ao citar relatos de agricultoras beneficiadas pelo Programa Água Doce, ela alertou para a necessidade de manter iniciativas de dessalinização em comunidades rurais. “Não deixem o Programa Água Doce acabar, porque a única fonte de água pura que nós temos nessa região é o processo de dessalinização”, relatou.
A bioeconomia da Caatinga também ganhou destaque. Francisco Campelo, da Fundação Araripe, lembrou que um terço da matriz energética nordestina é abastecida por biomassa florestal, demonstrando o potencial do manejo sustentável como alternativa técnica e economicamente viável ao desmatamento.
No campo dos novos ativos ambientais, Aroldo Almeida, da Articulação Semiárido Brasileiro (ASA), apresentou propostas para remunerar comunidades que preservam a vegetação nativa por meio de mecanismos de crédito de carbono, ampliando as oportunidades de geração de renda associadas à conservação ambiental.
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