
A necessidade urgente de um ambiente favorável aos negócios, amparado por planejamento de longo prazo e integração entre os modais de transporte, dominou os debates do Fórum Nordeste Export, realizado nesta segunda-feira (8) em Maceió. O evento reuniu as lideranças do setor para debater estratégias de logística que ampliem a competitividade no cenário nacional e internacional.
Realizado pela Brasil Export, o CEO, Fabrício Julião, disse ao Movimento Econômico que o evento trouxe para Alagoas um debate relevante para o Nordeste sobre logística, transportes, portos e sustentabilidade. Ele também destacou a importância de novos investimentos no Porto de Maceió, para ampliar a capacidade competitiva do estado.
“No caso específico de Maceió, nós precisamos discutir as oportunidades do setor portuário. Nós temos agora um terminal de passageiros que foi arrematado por um novo grupo e vai receber investimentos fortes de modernização. O turismo em Maceió é muito forte e um terminal moderno acaba contribuindo muito com isso. Mas precisamos olhar a carga como um todo: o porto precisa pensar no crescimento e no escoamento da produção, desenvolvendo novos terminais e acessos”, ponderou Julião.
Um dos principais diagnósticos do evento foi o crescimento econômico regional e a dependência de os complexos portuários operarem de forma integrada, dividindo perfis de carga e explorando suas vocações naturais, em vez de disputarem o mesmo mercado de forma predatória.
“Nós precisamos olhar para os portos da região de forma integrada. Cada porto tem a sua característica, então dá tranquilamente para fazer uma divisão de perfil. Você pode ter o porto focado em granel, outro com perfil de contêiner, e aquele que vai trabalhar frutas com armazéns frigoríficos. No começo, achava-se que os portos seriam concorrentes, mas hoje existe uma grande integração entre os presidentes das companhias portuárias”, explicou Julião.
Essa visão foi endossada no painel que reuniu os dirigentes portuários da região. Paulo Henrique Macedo, diretor-presidente da Companhia Docas do Rio Grande do Norte (Codern), reforçou que o avanço passa por cooperação. “Entre os portos do Nordeste, nós não somos concorrentes. Nós nos ajudamos. Somos parceiros”, avaliou.
A presidente da Empresa Maranhense de Administração Portuária (EMAP), Oquerlina Costa, destacou também que o Porto do Itaqui como o principal hub público do Arco Norte. O terminal tem canalizado grande parte da produção agrícola do Matopiba e do leste do Mato Grosso devido à sua profundidade natural (berços de 12 a 26 metros) e conexões rodoferroviárias.
Planejamento a longo prazo para o Nordeste
O ministro do Tribunal de Contas da União, Vital do Rêgo, defendeu uma visão de longo prazo para o Nordeste, ao qual ele classificou como “solução para o Brasil”. Ele destacou o potencial da região e a disponibilidade do Tribunal para alavancar investimentos em infraestrutura.
O ministro destacou que o Nordeste já representa cerca de 14% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional e reúne condições para ampliar ainda mais sua participação econômica. “Não vamos fazer papel de coitados. Precisamos de investimentos, sim, mas precisamos fiscalizar o que já temos”, disse.
Vital do Rêgo destacou a concentração no modal rodoviário logístico, enquanto as ferrovias representam aproximadamente 20% da matriz de transportes nacional.
“Temos uma cabotagem que praticamente não existe. Estamos estrangulando o Porto de Santos enquanto temos portos no Nordeste que poderiam estar exportando com vantagem competitiva. O Nordeste tem competitividade, tem material, tem força e tem um povo trabalhador. O que precisamos é fazer nossos representantes olharem para a região no longo prazo, para 20, 40 e 60 anos”, afirmou.
O ministro também destacou a necessidade de aproximação entre o TCU e gestores públicos para dar mais segurança aos processos que visam o desenvolvimento da infraestrutura nacional.
“Tem que punir quem é mau gestor, quem foge das regras. Mas o gestor correto precisa ter segurança jurídica e previsibilidade”, disse.

O gargalo da multimodalidade no Nordeste
Durante o evento, gestores debateram que a infraestrutura de acessos ainda é o principal calcanhar de Aquiles do Nordeste. O diretor-presidente da Companhia das Docas do Estado da Bahia (Codeba), Antonio Gobbo, apontou que a burocracia e a falta de trilhos impedem o avanço rápido dos projetos.
“Hoje existe insuficiência ferroviária e falta permeabilidade na Bahia. Para vencer grandes gargalos, temos que pensar fora da caixa e construir soluções baseadas em racionalidade econômica”, cobrou Gobbo.
O presidente da Infra S.A., Jorge Bastos, defendeu uma mudança urgente na matriz de transportes brasileira, que ainda depende excessivamente do modal rodoviário para longa distância.
“Não faz sentido você sair com um caminhão de arroz do Rio Grande do Sul para o Ceará. Isso tem que ir de ferrovia ou por cabotagem. Ampliar a cabotagem é fundamental para reduzir custos logísticos”, ponderou Bastos, adiantando que a estatal trabalha na elaboração do novo Plano Nacional de Logística (PNL) para dar previsibilidade aos investimentos, independentemente de trocas de gestão.
Rota verde: Nordeste na vanguarda da transição energética
Se por um lado os acessos tradicionais patinam, por outro a agenda ambiental (ESG) deixou de ser apenas um selo corporativo e passou a ditar o fechamento de novos negócios e contratos no setor portuário.
Jorge Bastos ressaltou que o Brasil detém a maior matriz renovável do mundo e defendeu o uso do etanol como o grande aliado para a descarbonização do transporte marítimo internacional.
O CEO do Brasil Export usou como exemplo o anúncio recente da Maersk, que divulgou que o etanol será o combustível oficial da companhia, mas alertou que o mercado precisa calibrar as expectativas econômicas em relação à velocidade dessa transição.
“É uma discussão que envolve grandes investimentos. Não é simplesmente falar da noite para o dia que vou mudar o combustível do navio ou mudar o motor. É algo complexo que vale para os terminais e para toda a operação. É uma conversa que não é para longo prazo, está sendo discutida já e envolve investimentos para já, mas vai depender muito da iniciativa privada adequar seus terminais conforme a demanda”, sinalizou o executivo.
A modernização verde já desenha um novo perfil de negócios para os portos da região. A advogada Beatriz Gallotti, sócia da Gallotti Advogados, apontou que os terminais estão deixando de ser apenas locais de movimentação de caixas e sacarias para se tornarem hubs complexos de tecnologia e energia renovável. Ela citou o exemplo do Porto do Pecém, no Ceará, que já anunciou a atração de projetos de data centers que serão totalmente abastecidos por energia limpa.
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