
O Estreito de Ormuz registrou apenas três travessias nas 12 horas encerradas na manhã desta segunda-feira (20), número que representa uma paralisação operacional da rota responsável por cerca de 20% do petróleo comercializado globalmente, segundo dados de rastreamento da plataforma Kpler e análise de satélite da empresa SynMax. Das três embarcações em movimento, uma é o petroleiro Nero — sob sanções do Reino Unido —, que deixou o Golfo em direção ao estreito. As outras duas, um navio-tanque de produtos químicos e um de gás liquefeito de petróleo, navegaram em sentido contrário, para dentro do Golfo.
A paralisação ocorre no terceiro dia antes do vencimento do cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã, firmado em 7 de abril com prazo de duas semanas — expiração prevista para quarta-feira (22). O bloqueio opera com novo vetor de escalada: na tarde de domingo (19), forças norte-americanas a bordo do destróier USS Spruance interceptaram e apreenderam o cargueiro iraniano TOUSKA, de quase 275 metros de comprimento, após a tripulação se recusar a parar no Golfo de Omã. O presidente Donald Trump confirmou a operação em publicação na rede Truth Social e classificou a ação iraniana no estreito como violação integral do acordo de trégua.
O Irã respondeu com dupla rejeição: às operações militares e ao processo diplomático. A agência estatal IRNA comunicou neste domingo a recusa iraniana em participar da segunda rodada de negociações prevista para Islamabad, no Paquistão. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmaeil Baghaei, afirmou que Washington não demonstrava disposição real para o diálogo e que Teerã não aceitaria prazos ou ultimatos para proteger seus interesses nacionais.
Teerã condena bloqueio de Ormuz e recusa mesa de negociações
A agência Tasnim informou que as forças armadas iranianas restabeleceram controle militar sobre o estreito no sábado (18), citando a continuidade do bloqueio naval norte-americano como razão para a reversão da reabertura anunciada um dia antes pelo chanceler Abbas Araghchi.
Na sexta-feira (17), o Irã havia aberto o estreito ao tráfego comercial. Trump agradeceu publicamente, mas recusou suspender o bloqueio aos portos iranianos sem acordo prévio. No sábado, as Forças Armadas iranianas atacaram dois petroleiros indianos em trânsito pela via — ação que Trump classificou como violação do cessar-fogo. A sequência de eventos — reabertura, ataque a navios, novo fechamento e apreensão de cargueiro — comprime o tempo disponível para resolução antes do prazo de quarta-feira.
A primeira rodada de negociações, realizada em 11 de abril em Islamabad, durou 21 horas e reuniu delegações lideradas pelo vice-presidente JD Vance e pelo presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, sem produzir acordo. Os pontos de impasse permanecem os mesmos: o programa nuclear iraniano, os limites de enriquecimento de urânio e as garantias de segurança exigidas por Teerã em troca de qualquer compromisso. O chanceler Araghchi havia indicado, ao fim da rodada, que havia “distância significativa” entre as partes.
Uma fonte sênior iraniana informou à Reuters que a continuação do bloqueio aos portos iranianos compromete a viabilidade de qualquer negociação, e que as capacidades defensivas de Teerã — incluindo o programa de mísseis — não estão abertas a discussão. O principal mediador paquistanês, marechal de campo Asim Munir, teria comunicado a Trump que o bloqueio representa obstáculo para as conversas; Trump indicou que consideraria o conselho.
Impacto nos mercados e no fluxo energético global
O fechamento operacional de Ormuz pressiona os mercados globais de energia. O fechamento intermitente do estreito pressiona os preços do petróleo e amplia a volatilidade cambial em economias emergentes, segundo analistas de mercado ouvidos pela Reuters.. Além do petróleo, o estreito é rota de parcela relevante dos fertilizantes comercializados globalmente — dado que amplia o impacto sobre cadeias agrícolas, em especial em países do Hemisfério Sul.
Diplomatas europeus ouvidos pela Reuters alertaram que um acordo apressado entre Washington e Teerã pode deixar questões técnicas e políticas sem solução, aumentando o risco de nova escalada no curto prazo. O cessar-fogo expira em dois dias sem que haja data confirmada para retomada do diálogo.
*Com informações da Agência Brasil
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