
O Serviço de Imigração e Controle de Aduanas dos Estados Unidos (ICE) prendeu nesta segunda-feira (13) o ex-deputado federal Alexandre Ramagem (PL-RJ) em Orlando, na Flórida, por irregularidade migratória. O nome de Ramagem aparece no site do Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos com a situação “sob custódia do ICE”. O local de detenção não foi informado.
A Polícia Federal confirmou a detenção em nota. “Prisão é fruto da cooperação policial internacional entre Brasil e Estados Unidos no combate ao crime organizado”, afirmou o órgão. “O preso é considerado foragido da Justiça brasileira após condenação pelos crimes de organização criminosa armada, golpe de Estado e tentativa de abolição violenta do Estado de Direito”, acrescentou.
Versão dos aliados
O blogueiro Paulo Figueiredo, próximo a Ramagem, afirmou à Gazeta do Povo que a abordagem teve origem em uma infração de trânsito em Orlando e que o encaminhamento ao ICE seguiu procedimento padrão no estado da Flórida após verificação da documentação. Figueiredo afirmou ainda que Ramagem possui pedido de asilo pendente nos Estados Unidos, o que, segundo ele, garantiria permanência legal no país até a decisão do caso. A versão não foi confirmada por fontes oficiais brasileiras ou norte-americanas.
O líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante (RJ), declarou que soube da prisão pela imprensa e que acompanhará o caso “com máxima atenção”, pois a situação “ultrapassa uma situação individual e toca diretamente no respeito às garantias e à atuação de um parlamentar eleito pelo povo brasileiro”.
Condenação e fuga
Em setembro de 2025, Ramagem foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) a 16 anos, 1 mês e 15 dias de prisão em regime inicial fechado, por tentativa de golpe de Estado, organização criminosa armada e abolição violenta do Estado Democrático de Direito, em julgamento da Primeira Turma da Corte.
A pena incluiu perda do mandato parlamentar, inelegibilidade por 8 anos após o cumprimento da pena e perda do cargo de delegado da Polícia Federal, função que exercia desde 2005. Os condenados no mesmo julgamento foram sentenciados ao pagamento coletivo de R$ 30 milhões por danos morais.
Proibido de sair do país, Ramagem deixou o Brasil clandestinamente no mesmo dia em que foi condenado, enquanto cumpria licença médica concedida mediante atestados apresentados à Corte. Segundo investigações da PF, atravessou a fronteira seca de Bonfim (RR) com a Guiana, embarcou no Aeroporto de Georgetown e chegou aos Estados Unidos em 11 de setembro com passaporte diplomático, que não havia sido apreendido.
O mandato foi cassado em dezembro de 2025 por ato da Mesa da Câmara dos Deputados, e o passaporte diplomático foi cancelado na mesma ocasião. No mesmo período, os vencimentos parlamentares foram bloqueados por determinação do STF.
Extradição e Interpol
O pedido formal de extradição foi entregue pela Embaixada do Brasil em Washington ao Departamento de Estado norte-americano em 30 de dezembro de 2025. Em janeiro de 2026, o Ministério da Justiça comunicou formalmente ao STF o envio da documentação. O nome de Ramagem foi incluído na lista de foragidos da Interpol por determinação do ministro Alexandre de Moraes, medida que viabilizou a possibilidade de detenção por autoridades estrangeiras.
Em fevereiro de 2026, Ramagem prestou depoimento por videoconferência ao STF na ação penal da trama golpista, que havia sido suspensa e voltou a tramitar após a cassação do mandato. A fuga só veio a público em novembro de 2025, após reportagem que o localizou em um hotel de luxo em Miami.
Em dezembro de 2025, decisão do ministro Moraes identificou um esquema para obtenção de documentos falsos que seriam usados por Ramagem para “ludibriar as autoridades americanas” e conseguir carteira de motorista nos EUA.
Trajetória e investigações anteriores
Ramagem dirigiu a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) de julho de 2019 a março de 2022, durante o governo Jair Bolsonaro. Em junho de 2025, a PF concluiu o inquérito sobre a chamada “Abin paralela” e indiciou 34 pessoas, entre elas Ramagem, apontado como principal responsável por organizar o esquema ilegal de monitoramento.
Segundo o relatório final da PF, o sistema israelense de geolocalização FirstMile, desenvolvido pela empresa Cognyte, foi usado de forma irregular para espionagem entre fevereiro de 2019 e abril de 2021, com pelo menos 60.734 consultas para fins ilícitos — incluindo rastreamento de ministros do STF, deputados e jornalistas, sem autorização judicial. Em 2022, Ramagem foi eleito deputado federal pelo Rio de Janeiro com 59 mil votos.
*Com informações da Agência Brasil
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