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Velho Chico voltará a ter hidrovia após 11 anos com R$ 6 bi em investimentos

Governo anuncia a retomada da hidrovia do São Francisco. O modal fluvial voltará a operar ao longo de 1.371 km, com impacto direto na logística agrícola, mineral e exportadora do Nordeste
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Rio São Francisco hidrovia Icofort última empresa a operar em 2014
Em 2014, a Icofort, empresa especializada no transporte de caroço de algodão, foi a última operar na hidrovia do Rio São Francisco. Foto: Icofort/Arquivo

O governo federal anunciou nesta sexta-feira (13) a retomada da hidrovia do São Francisco, marcando a reativação de um dos mais antigos corredores logísticos fluviais do país, paralisado desde 2014. Com investimentos superiores a R$ 6 bilhões, oriundos do Novo Programa de Aceleração do Crescimento (Novo PAC) e do Fundo da Marinha Mercante, o projeto tem como objetivo movimentar até 5 milhões de toneladas de cargas por ano. A operação será coordenada pela Infra SA, com conclusão estimada até 2030, e envolverá a revitalização completa da infraestrutura de navegação ao longo do Velho Chico.

O anúncio foi feito em Petrolina. O ministro de Portos e Aeroportos, Silvio Costa Filho, ressaltou a importância da obra para a redução do custo logístico e integração dos estados nordestinos. “Essa é uma pauta muito importante para o desenvolvimento do Nordeste, será muito estratégico para o desenvolvimento de toda a região. Em junho vamos assinar a delegação à Companhia das Docas do Estado da Bahia e iniciaremos os estudos técnicos ao lado da Infra SA”, detalhou, ao informar sobre a descentralização da hidrovia para a Codeba.

“A Nova Hidrovia do São Francisco representa mais um avanço para a logística nacional, integrando regiões e promovendo um transporte mais limpo, eficiente e competitivo”, destacou o secretário Nacional de Hidrovias e Navegação do Ministério de Portos e Aeroportos (MPor), Dino Antunes. Entre as cargas previstas, estão insumos agrícolas, gesso, gipsita, calcário, grãos, bebidas, minério e sal.

Hidrovia do Rio São Francisco mapa
Trecho navegável do Rio São Francisco totaliza mais de 1,3 mil quilômetros entre Pirapora (MG), Juazeiro (BA) e Petrolina (PE). Foto: Dnocs/Reprodução

Hidrovia beneficiará economicamente 300 municípios

A hidrovia será composta por uma série de intervenções técnicas, incluindo obras de dragagem para remoção de sedimentos acumulados, derrocamento de formações rochosas que impedem a passagem segura de embarcações, instalação de sinalização náutica para garantir a segurança do tráfego fluvial e construção de terminais hidroviários em pontos estratégicos ao longo do percurso.

O trecho navegável totaliza 1.371 quilômetros entre Pirapora (MG), Juazeiro (BA) e Petrolina (PE), com largura média de 500 metros. Abrange 300 municípios nos estados de Goiás, Tocantins, Pará, Maranhão, Mato Grosso, Distrito Federal, Pernambuco e Bahia. Segundo dados do IBGE, a região atendida alcança uma população estimada em 20,3 milhões de pessoas. O regime hidrológico do rio é marcado por águas altas de janeiro a maio e águas baixas entre junho e dezembro, exigindo manutenção permanente para garantir navegabilidade regular.

De 2010 a 2014, o rio movimentou cerca de 14,6 milhões de toneladas de carga, segundo a ANTAQ, o que demonstrava viabilidade operacional. Entretanto, em julho de 2014, a Icofort, única empresa em operação à época, especializada no transporte de caroço de algodão, suspendeu o uso da hidrovia. A decisão foi motivada pelo severo assoreamento do leito e pela vazão reduzida para 1.100 m³/s, o que impossibilitou a navegação. Com isso, interrompeu-se uma rota que reduzia de 20% a 30% os custos logísticos da empresa e mantinha empregos na região.

anúncio da reativação da hidrovia do São Francisco
Anúncio da reativação da hidrovia do São Francisco foi feito em cerimônia realizada na cidade de Petrolina, em Pernambuco. Foto: Ayrton Latapiat/Prefeitura de Pernambuco

Agronegócio, mineração e modal de exportação

O retorno das operações fluviais atende diretamente aos setores do agronegócio, mineração e logística de exportação. A hidrovia é estratégica para o escoamento da produção de grãos e algodão no cerrado do oeste da Bahia e sul do Piauí, além da fruticultura irrigada no Vale do São Francisco. As cidades de Petrolina (PE) e Juazeiro (BA) são polos relevantes na produção de manga, uva, mamão e melancia, com parte considerável destinada à exportação. A produção de cana-de-açúcar irrigada também será beneficiada, com acesso facilitado aos portos marítimos.

Na avicultura, a reativação da hidrovia impactará positivamente polos produtivos como Feira de Santana (BA), Caruaru e Recife (PE) e Fortaleza (CE), ampliando a competitividade por meio da integração ao sistema logístico multimodal. No setor mineral, a gipsita extraída em Araripina (PI) e o calcário agrícola produzido próximo a Ibotirama (BA) poderão ser transportados com maior eficiência e menor custo, fortalecendo a indústria de gesso e insumos agrícolas.

A conexão intermodal com os portos do Sudeste, sobretudo Vitória (ES), também será ampliada. A logística multimodal permitirá que cargas oriundas do interior do Nordeste sejam escoadas por via fluvial, conectadas por rodovias e ferrovias até o litoral, reduzindo o tempo e o custo do transporte. Segundo estimativas do setor, o modal hidroviário pode representar até 40% de economia sobre o custo do transporte rodoviário.

Transporte mais sustentável

Do ponto de vista ambiental, o projeto reforça o compromisso do governo com a sustentabilidade. A substituição parcial do transporte rodoviário pelo fluvial contribui para a redução das emissões de gases de efeito estufa, preserva a malha rodoviária e reduz o consumo de combustíveis fósseis.

A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) projeta uma safra de 322 milhões de toneladas de grãos em 2024/2025, e parte desse volume poderá ser redirecionada para transporte fluvial, especialmente nas rotas de longa distância.

A expectativa é que os terminais hidroviários sirvam também como plataformas logísticas para armazenamento e distribuição de insumos e produtos finais, conectando regiões produtoras a centros consumidores e exportadores.

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