
Por Clara Nascimento, Felipe Nascimento e Maysa Sena, da Folha de Pernambuco
A previsão de um El Niño de forte intensidade nos próximos meses tem mobilizado especialistas, produtores rurais e representantes do setor produtivo em Pernambuco. A previsão de meteorologistas internacionais é que o fenômeno, caracterizado pelo aquecimento das águas do Oceano Pacífico Equatorial, alcance patamares semelhantes aos registrados em 1997 e 2015, considerados alguns dos eventos mais severos das últimas décadas.
Embora seja um fenômeno natural e recorrente, o contexto atual preocupa cientistas devido à combinação entre o El Niño e o avanço das mudanças climáticas globais. O resultado esperado é um cenário de chuvas abaixo da média, temperaturas mais elevadas, redução da disponibilidade hídrica e impactos significativos sobre a agricultura, a pecuária, a geração de energia e os preços ao consumidor.
Para Pernambuco, os efeitos tendem a ser ainda mais sensíveis. O estado já possui uma das menores disponibilidades hídricas do país e concentra importantes cadeias produtivas dependentes do clima, como a agricultura familiar, a pecuária leiteira e a produção sucroenergética. Especialistas alertam que os reflexos econômicos podem ser sentidos tanto no campo quanto nas cidades, especialmente por meio do aumento da inflação dos alimentos e dos custos de energia.
Impactos do El Niño
Segundo o economista Paulo Alencar, as projeções atuais indicam uma probabilidade de aproximadamente 63% de ocorrência de um evento considerado forte ou muito forte. De acordo com ele, os impactos econômicos mais intensos devem aparecer a partir do início de 2027, quando as perdas de produtividade começarem a chegar ao mercado consumidor.
“O Nordeste já convive naturalmente com baixos índices de precipitação. Com o El Niño, a tendência é que chova ainda menos. Isso reduz a disponibilidade de água no solo, afeta diretamente a produção agrícola e compromete as safras que dependem exclusivamente das chuvas”, afirmou.
O economista explica que os efeitos sobre os preços não acontecem imediatamente porque muitas lavouras já estão em desenvolvimento. No entanto, as próximas etapas de plantio e colheita poderão sofrer prejuízos.
“A inflação dos alimentos deve ser uma das principais consequências. Hortaliças, frutas, leite, carne e outros produtos perecíveis costumam sentir os efeitos primeiro. A menor oferta gera aumento de preços e esse impacto chega ao bolso da população”, destacou.

Pecuária
Os riscos para a agropecuária são considerados os mais preocupantes. A pesquisadora e especialista em mudanças climáticas do Instituto Agronômico de Pernambuco (IPA), Francis Lacerda, alerta que o Semiárido e o Agreste devem ser as regiões mais vulneráveis aos efeitos do fenômeno.
Segundo ela, durante um dos episódios mais intensos registrados na primeira metade da década de 1990, algumas áreas do Sertão do São Francisco apresentaram redução de quase 80% no volume de chuvas em comparação com a média histórica.
“Os principais impactos do El Niño em Pernambuco são a seca e as ondas de calor. Quando ocorre uma redução tão significativa das precipitações, aumenta o número de dias consecutivos sem chuva, elevando ainda mais as temperaturas e agravando a perda de água dos reservatórios”, explicou.
A pecuária também pode sofrer impactos expressivos. Pernambuco possui uma das principais bacias leiteiras do Nordeste, concentrada principalmente no Agreste. De acordo com a pesquisadora do IPA, períodos prolongados de calor extremo provocam alterações metabólicas nos animais, reduzindo sua produtividade.
“As vacas produzem menos leite para preservar o próprio organismo. Em anos de El Niño, é comum observar queda na produção leiteira, o que afeta diretamente a renda dos produtores e a oferta de alimentos”, concluiu.
A situação é ainda mais delicada para pequenos agricultores e produtores familiares, que possuem menor capacidade de investimento em sistemas de irrigação e tecnologias de adaptação climática.
Conta de luz
Além dos alimentos, outro fator que pode pressionar a inflação é a energia elétrica. Segundo o economista Edgar Lima, a redução das chuvas tende a diminuir os níveis dos reservatórios das hidrelétricas, exigindo maior acionamento das usinas termelétricas, que possuem custo de geração mais elevado.
“Mesmo com a expansão das energias solar e eólica, o Brasil ainda depende fortemente das hidrelétricas. Quando os reservatórios diminuem, aumenta a necessidade de utilizar termelétricas, o que eleva os custos da energia”, explicou.
Para o economista, o fenômeno cria um efeito em cadeia que ultrapassa o setor agropecuário. “Quando há perda de safra, há menos alimentos disponíveis. Isso aumenta preços. Ao mesmo tempo, diversos produtos agrícolas funcionam como insumos para outras indústrias. A cana-de-açúcar, por exemplo, produz açúcar e etanol. A soja é usada na alimentação animal. Portanto, os impactos acabam alcançando diferentes segmentos da economia”, observou.

Sucroenergético
Embora os efeitos do El Niño sejam tradicionalmente mais severos no Agreste e no Sertão, o setor sucroenergético também acompanha a situação com atenção. Segundo o presidente do Sindicato da Indústria do Açúcar e do Álcool no Estado de Pernambuco (Sindaçúcar-PE) e da NovaBio, Renato Cunha, a redução das chuvas pode comprometer a produtividade dos canaviais na Zona da Mata.
“Na Mata Norte, o ideal é que chova entre 1.200 e 1.300 milímetros por ano. Quando os índices ficam abaixo desse patamar, surgem impactos na produtividade da cana-de-açúcar“, afirmou.
O dirigente destaca que o setor já vem adotando medidas preventivas para reduzir riscos. A principal orientação é antecipar os plantios de inverno para aproveitar a umidade acumulada no primeiro semestre. Outra estratégia é evitar expansões excessivas das áreas cultivadas em períodos de maior incerteza climática.
“A irrigação é fundamental, mas também precisamos avançar no armazenamento de água para garantir segurança hídrica ao setor”, ressaltou.
Planejamento
Na avaliação do presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Pernambuco (Faepe), Pio Guerra, o principal desafio é agir antes que os impactos se consolidem. Segundo ele, experiências anteriores demonstram que ações preventivas são mais eficientes do que respostas emergenciais adotadas após a instalação da crise.
“Já deveríamos estar trabalhando em medidas preventivas. Quando se espera os prejuízos acontecerem para agir, os custos sociais e econômicos são muito maiores”, afirmou.
Entre as medidas sugeridas estão ampliação da estocagem de forragem, fortalecimento dos sistemas de abastecimento de água, ampliação do crédito rural, revisão de seguros agrícolas e planejamento antecipado para eventuais decretos de emergência.
Pio Guerra lembra que episódios anteriores provocaram perdas expressivas na agropecuária nordestina. Em alguns casos, a mortalidade dos rebanhos ultrapassou 20%, enquanto determinadas culturas registraram reduções superiores a 25% na produtividade.
Duração
Além da intensidade prevista, especialistas acompanham a possibilidade de um período prolongado de atuação do fenômeno. De acordo com a pesquisadora do IPA, o pico costuma ocorrer entre novembro e janeiro, mas a força do atual evento pode prolongar seus efeitos.
“Existe a possibilidade de um repique. Dependendo da intensidade alcançada, o El Niño pode durar mais de um ano e, em alguns cenários, permanecer por até dois anos“, afirmou.
Diante desse cenário, especialistas defendem investimentos em adaptação climática, fortalecimento da infraestrutura hídrica, ampliação da irrigação e desenvolvimento de tecnologias agrícolas mais resistentes à seca. A avaliação é que os custos da prevenção são significativamente menores do que os prejuízos provocados pelos eventos climáticos extremos, que tendem a se tornar cada vez mais frequentes em um contexto de aquecimento global.
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