
Com as vendas de cerveja no país recuando 5% em 2025, segundo dados da Associação Brasileira da Indústria da Cerveja (CervBrasil), Ambev e Heineken convergem para a mesma resposta no segmento cervejeiro: concentrar investimentos no portfólio premium e redesenhar o mapa industrial no Nordeste. O movimento ocorre em uma região que responde por cerca de 20% do consumo nacional de cerveja, com crescimento acima da média nacional nos segmentos premium e mainstream, segundo a CervBrasil. O segmento premium representa hoje 25% da indústria cervejeira e 30% do faturamento da Ambev, com crescimento superior a 200% desde 2019 e taxa anual de 15%. A companhia afirma ter assumido a liderança no segmento em 2025.
A Ambev investiu R$ 300 milhões na Fábrica Equatorial, no Maranhão, para ampliar a capacidade produtiva da unidade e introduzir a fabricação local da Spaten, principal rótulo da companhia no segmento premium. A planta de São Luís, que já abastece mais de sete estados das regiões Norte e Nordeste, opera com cinco linhas de envase e capacidade para produzir até 150 mil garrafas e 130 mil latas por hora, com marcas como Brahma, Skol, Antarctica, Bohemia e Original também na linha de produção.
O aporte eleva o total investido na unidade maranhense para mais de R$ 1,2 bilhão desde sua inauguração. “O Nordeste é estratégico para o nosso negócio e para o futuro da categoria cervejeira no país”, afirmou Valdecir Duarte, vice-presidente de supply da Ambev, em comunicado obtido pela Exame. Nos últimos cinco anos, a companhia investiu cerca de R$ 2,8 bilhões no Nordeste, mantendo 12 unidades industriais, 20 centros de distribuição e 87 revendedores, em operação que gera mais de 18 mil empregos diretos e indiretos apenas no Maranhão.

Heineken concentra produção em PE, fecha fábrica no CE e expande Praya
A Heineken realizou o movimento mais estrutural do setor no Nordeste em 2025: investiu R$ 1,2 bilhão na ampliação da cervejaria de Igarassu (PE), inaugurada em agosto, triplicando a capacidade produtiva da unidade e tornando-a a maior produtora da marca Amstel na região. A planta abastece diretamente Pernambuco, Rio Grande do Norte, Ceará, Bahia, Alagoas, Paraíba e Sergipe, opera com energia 100% renovável e reduziu o consumo de água em 30% nos últimos três anos.
A Amstel registrou crescimento de cerca de 15% no primeiro semestre de 2025. “Amstel, em especial, tem mostrado grande potencial de crescimento, com resultados de duplo dígito, e sabemos que ainda há muito espaço para a marca na região”, afirmou Mauro Homem, vice-presidente de sustentabilidade e assuntos corporativos da Heineken.
A concentração em Igarassu teve contrapartida direta: em dezembro de 2025, a Heineken oficializou o fechamento da unidade de Pacatuba (CE), responsável por cerca de 250 empregos diretos e 1.000 indiretos, encerrando uma operação iniciada em 2010. Apenas 25 colaboradores receberam propostas de realocação para outras unidades da companhia no Brasil.
A empresa afirma que permanece no Ceará com operações de logística, distribuição e presença comercial. A reestruturação integra um plano mais amplo de ganho de eficiência e foco nas categorias premium e puro malte, segmentos em que a companhia afirma liderar o mercado nacional. O grupo Heineken já acumula mais de R$ 6 bilhões em investimentos no Brasil nos últimos seis anos.
No portfólio de cervejas leves, a Heineken avança com a Praya, marca carioca criada em 2016 incorporada ao portfólio da Heineken Spin, que passou a ser produzida na unidade de Jacareí (SP) a partir de dezembro de 2025. A internalização da produção viabiliza a expansão para nove novos estados, com foco no Nordeste: Maranhão, Bahia, Sergipe, Alagoas, Paraíba, Piauí, Ceará e Pernambuco, além do Pará.
A projeção é de crescimento de 57% na produção da Praya em 2026. “A expansão da Praya reflete uma leitura clara de mercado: o consumidor brasileiro está diversificando suas escolhas e abrindo espaço para novas propostas dentro da categoria”, afirmou Rafael Rizzi, diretor da Heineken Spin.
Petrópolis anuncia novidades para maio
O Grupo Petrópolis responde ao mesmo fenômeno de retração cervejeira por uma rota distinta: o crescimento acelerado dos RTDs. O segmento de bebidas prontas para consumo avançou 32,4% entre 2019 e 2024 — quase o dobro dos 16,8% registrados pelo mercado cervejeiro no mesmo período, conforme dados da Euromonitor — e cresceu 11% em volume em 2025, segundo a Nielsen. A aposta da companhia é a Crystal Ice Caju, primeiro RTD do mercado produzido com suco clarificado de caju proveniente do Ceará, combinado com vodca e saquê, com 5% de teor alcoólico e distribuição iniciada neste mês de abril.
O portfólio da empresa no segmento cervejeiro inclui cerveja sem glúten, zero álcool, a linha premium Black Prince e cervejas draft. César Fortes, diretor regional Norte-Nordeste do Grupo Petrópolis, sinalizou reação ao avanço das concorrentes. “Temos planos de expansão. Tem algumas novidades que não posso antecipar aqui, mas na APAS a gente já traz algumas inovações além do Crystal Ice Caju”, afirmou. O executivo se refere à APAS Show, maior feira supermercadista do país, prevista para maio em São Paulo, palco tradicional das grandes companhias de bebidas para lançamentos de novos produtos e linhas.
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