
Werson Kaval*
O rosto do empreendedorismo brasileiro atual não é o da inovação disruptiva de Schumpeter, que rompe o fluxo econômico com novas tecnologias. O rosto real é o do desespero gourmetizado e da precarização travestida de “mindset”. Vivemos a era da romantização da sobrevivência, onde o desemprego transformado em desocupação, foi também rebatizado de liberdade, e a falta de direitos é vendida como autonomia.
Enquanto a teoria define o empreendedor como o agente da “destruição criativa”, o que vemos no Brasil é um regresso histórico. A crise da sociedade salarial e o discurso neoliberal transformaram o trabalhador desamparado no “empreendedor de si mesmo”. Não estamos criando valor. Estamos gerindo a sobrevivência.
Dados do Global Entrepreneurship Monitor (GEM) revelam que a realidade é brutal: em 2024, a taxa de empreendedorismo por necessidade voltou a subir. São milhões de brasileiros empurrados para a informalidade por falta de opção, especialmente em regiões como Pernambuco, onde quase 50% dos trabalhadores estão nessa situação.
Empreendedor e palco
Enquanto a economia real sangra, surge o “empreendedorismo de palco”, onde gurus vendem fórmulas mágicas sem lastro na realidade. O caso de Bel Pesce é emblemático: uma narrativa inspiradora de sucesso no Vale do Silício que, após investigações, revelou inconsistências graves e falta de entregas factíveis. Esse modelo nivela todos por cima, mas culpa o indivíduo pelo fracasso sistêmico, alegando falta de “resiliência” ou de “acordar às 5 da manhã”.
Os dados refutam os discursos motivacionais. Mortalidade: 29% dos MEIs fecham as portas após cinco anos. Causas: 59% dos que fecharam estavam desempregados antes de abrir o negócio; faltam capital, gestão e acesso ao crédito. Precarização: A “gig economy” mascara a falta de proteção social, transformando entregadores de aplicativos em “parceiros” que assumem todos os riscos sem qualquer direito.
O custo mais alto é humano. A pressão para “fazer acontecer” em um cenário hostil está adoecendo a nação: mais de 70% dos empreendedores sofrem com desordens de saúde mental. A glamourização da exaustão e o medo constante de não atingir o sucesso inalcançável das redes sociais geram uma epidemia de burnout.
O fim da inocência
Precisamos parar de confundir desemprego com oportunidade e de aplaudir quem vende fumaça. O verdadeiro empreendedorismo exige planejamento, capital e políticas públicas. Não frases de efeito no Instagram. Enquanto tratarmos a gestão da sobrevivência como inovação, continuaremos sendo um país de milhões que sonham em ser patrões, mas acordam escravos de uma engrenagem que mói sonhos.
*Werson Kaval, economista, professor do Centro Universitário Tiradentes – UNIT, especialista em qualidade e produtividade, consultor e palestrante









