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Nordeste perde 20% em volume exportado com tarifaço de Trump

Bahia, Ceará e Pernambuco concentram as principais perdas. Estudo da FGV IBRE analisou dados de agosto e setembro e aponta que produtos não isentos, predominantes na pauta regional, foram os mais atingidos pelo tarifaço dos EUA
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A lagosta está entre os pescados mais exportados para os EUA que tiveram impacto com o tarifaço de Trump - Foto: Divulgação/Governo CE
A lagosta está entre os pescados mais exportados para os EUA com impacto do tarifaço de Trump. Foto: Divulgação/Governo CE

O Nordeste foi a região brasileira que mais encolheu em volume físico exportado aos Estados Unidos, com uma queda de 20%, superando todas as demais regiões do país. A constatação é de estudo do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), que analisou os efeitos dos dois primeiros meses do novo tarifário imposto pelos EUA a produtos brasileiros. Embora o Sul tenha liderado em perdas financeiras, o impacto em volume foi mais severo entre os estados nordestinos.

O levantamento foi publicado no Blog do Ibre em artigo assinado por Flávio Ataliba Barreto, João Mário Santos de França, Thiago de Araújo Freitas e Pedro Avelino, com base em dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) para os meses de agosto e setembro de 2025. O estudo destaca que o chamado “tarifaço” atinge com maior intensidade os produtos não isentos — justamente os mais presentes na pauta de exportações do Nordeste.

Considerando a média das exportações da região nos dois meses analisados (US$ 223,79 milhões), a queda de 20% em volume físico representa uma perda estimada de aproximadamente US$ 44,76 milhões, caso o valor exportado tivesse se mantido proporcional ao volume.

Bahia, Ceará e Pernambuco concentram principais perdas

Na Bahia, houve retração interanual de 25,8% nas exportações de pneus, 27,1% na pasta química para dissolução e 30,7% em frutas tropicais. Embora o estado tenha registrado crescimento em produtos como óleo de cacau (+62,8%) e cacau em pó (+111,1%), esses itens ainda são insuficientes para neutralizar o recuo no volume geral embarcado.

No Ceará, os impactos são percebidos tanto em alimentos quanto em bens manufaturados leves. O suco de frutas teve queda de 54,5% e os pescados frescos recuaram 41,8%. Mesmo com alta em produtos semimanufaturados de aço (+121,1%) e pedras ornamentais (+100,5%), a pauta permanece dependente de itens não isentos da nova tarifa norte-americana.

Já em Pernambuco, a oscilação é marcada por volatilidade. Frutas como mangas e goiabas dispararam 3.176,2% em relação a agosto, mas outros produtos, como chapas plásticas e equipamentos de banheiro, apresentaram recuos acima de 80% no valor exportado. O estado também registrou queda de 85,8% em derivados de petróleo.

Fonte: COMEXSTAT / MDIC | Elaboração: Movimento Econômico a partir de tabelas do FGV Ibre

Quatro dos seis estados com maior retração estão no Nordeste

Entre os seis estados brasileiros com maior retração percentual nas exportações para os EUA em setembro de 2025, quatro são do Nordeste: Alagoas (–71,3%), Piauí (–68,6%), Rio Grande do Norte (–65,0%) e Pernambuco (–64,8%), conforme dados do FGV IBRE com base na Secex.

Apesar das quedas expressivas, os valores absolutos de alguns desses estados são historicamente baixos. É o caso de Alagoas, que exportou apenas US$ 0,08 milhão para os EUA em setembro de 2025 — contra US$ 0,28 milhão no mesmo mês de 2024. Isso representa uma retração de –71,3%, mas equivale a uma redução de apenas US$ 200 mil, o que explica a discrepância entre o impacto percentual e o valor em dólares.

Exportações do Sul encolhem em valor, mas mantêm estrutura industrial

A Região Sul foi a mais atingida em termos de valor em dólares perdidos. Com forte peso de manufaturados, a região viu recuos superiores a 60% em exportações de madeira processada, móveis, calçados e autopeças. O Rio Grande do Sul, por exemplo, perdeu cerca de US$ 30 milhões em valor exportado em setembro, comparado ao mês anterior.

Apesar da queda, a estrutura industrial do Sul garante algum nível de resiliência, uma vez que parte dos bens exportados possui valor unitário elevado e canais de distribuição alternativos. A indústria calçadista e metalmecânica, embora atingida, já vinha se adaptando a mudanças no cenário tarifário global.

Tarifaço expõe vulnerabilidades estruturais da pauta exportadora nordestina

De acordo com os autores do FGV IBRE, os efeitos do novo tarifário revelam fragilidades históricas da economia exportadora do Nordeste, marcada por baixa diversificação e forte dependência de commodities alimentares, minerais e semimanufaturados. A ausência de políticas robustas de industrialização regional agrava a vulnerabilidade a choques externos.

Além da questão tarifária, a falta de acesso a acordos bilaterais que incluam isenções específicas para produtos regionais acentua o problema. A recomendação dos pesquisadores é fomentar cadeias produtivas industriais integradas e incentivar a certificação de origem — condição importante para ampliar a competitividade em mercados estratégicos.

Diversificação e acordos comerciais são caminhos para mitigar perdas

Ainda segundo o estudo, a diversificação dos mercados compradores, com maior foco na América Latina, Europa e Ásia, pode reduzir a dependência do mercado norte-americano. Além disso, negociações em torno de acordos bilaterais e regionais que garantam isenção tarifária a itens sensíveis — como frutas, cacau e pescados — são apontadas como fundamentais.

Entre os produtos isentos que tiveram desempenho positivo no Nordeste, destacam-se: pasta de madeira (Bahia e Maranhão), óxidos de alumínio (Maranhão), e derivados de petróleo (Bahia e Sergipe).

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