
Em Gilbués, no extremo sul do Piauí, onde o chão rachado e a vegetação escassa retratam décadas de degradação, uma tecnologia inédita e genuinamente nordestina está mudando o rumo da desertificação. O município, que perdeu mais de 7 mil km² de solo produtivo, voltou a ser protagonista nacional ao testar pela primeira vez um hidrogel natural feito com espécies nativas, como o babaçu e o cajueiro.
A inovação, desenvolvida por cientistas piauienses, tem potencial para transformar áreas improdutivas em solo fértil. Biodegradável, ecológico e livre de derivados de petróleo, o produto mantém a umidade da terra por mais tempo, mesmo em períodos prolongados de seca. A aplicação marca um novo capítulo no enfrentamento à desertificação no Brasil.
Tecnologia piauiense une ciência, biodiversidade e baixo impacto ambiental
O hidrogel aplicado em Gilbués é fruto da parceria entre a Fundação de Amparo à Pesquisa do Piauí (Fapepi), a Universidade Federal do Piauí (UFPI), a Afert Biofertilizantes e o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Polissacarídeos (INCT/CNPq). A base do produto são polissacarídeos vegetais, extraídos de espécies abundantes no território piauiense.
O gel consegue reter umidade no solo por longos períodos reduzindo a necessidade de irrigação, favorecendo o crescimento das mudas em condições críticas. Tudo isso com um produto que não agride o meio ambiente.
“Essa tecnologia é diferente de tudo que já foi usado no Brasil. Ela é natural, biodegradável e feita com matérias-primas do próprio Piauí. É uma solução científica e sustentável para recuperar solos que pareciam perdidos”, destaca João Xavier, presidente da Fapepi.
Diferente dos géis sintéticos, o hidrogel usado em Gilbués não é feito com petróleo. Ele é 100% vegetal, extraído de plantas que já fazem parte do ecossistema local. Segundo o professor Edson Cavalcanti Filho, da UFPI e do INCT Polissacarídeos, trata-se de uma solução biotecnológica que pode ser aplicada em outras áreas do semiárido.
“A aplicação dos polissacarídeos vegetais representa um avanço científico importante. É ciência feita no Piauí com potencial para mudar realidades no país inteiro”, reforça o pesquisador.
Recuperação de áreas degradadas será expandida até 2029
Atualmente, o projeto está em execução em uma área de 10 hectares, mas a meta é ambiciosa: recuperar até 1.600 hectares de solo degradado até 2029. O plano é parte do Programa de Ação Estadual de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca (PAE-PI), que foi estruturado com a colaboração de pesquisadores, órgãos públicos e comunidades locais.
A proposta inclui plantio de espécies nativas, controle de desmatamento, exigência de reposição florestal e monitoramento constante por parte da Secretaria de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Semarh).
O maior caso de desertificação do Brasil tem novo aliado

Gilbués é o município mais afetado pela desertificação em todo o país. Localizado na microrregião do Alto Médio Gurguéia, integra uma das quatro zonas críticas de degradação no Nordeste, ao lado de Cabrobó (PE), Seridó (RN) e Irauçuba (CE). Com pouco mais de 11 mil habitantes, o município piauiense está no centro de um esforço coletivo que une ciência, políticas públicas e educação ambiental.
No último 17 de junho, Dia Mundial de Combate à Desertificação, o Governo do Estado do Piauí anunciou um pacote de novas ações para enfrentar o problema, incluindo a reativação do Núcleo de Pesquisa em Recuperação de Áreas Degradadas (Nuperade), instalado em Gilbués desde 2006.
Política ambiental integrada fortalece combate à desertificação
Segundo o secretário estadual de Meio Ambiente, Feliphe Araújo, a desertificação é tratada como um problema também social, com impactos diretos na vida das famílias afetadas. Por isso, as ações do governo buscam conciliar preservação ambiental e melhoria da qualidade de vida da população, com foco no desenvolvimento sustentável a longo prazo.
A combinação entre tecnologia local, mobilização comunitária e planejamento estratégico tem feito do Piauí uma referência nacional no combate à desertificação. Em Gilbués, onde o solo virou sinônimo de abandono, o verde começa a reaparecer. E com ele, a certeza de que é possível restaurar não apenas a terra, mas também a dignidade de quem dela depende.
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