
A pecuária de corte em Alagoas, Sergipe e Pernambuco pode aumentar sua produtividade em até 40% com a adoção de melhorias no manejo de pastagens. A estimativa do estudo resultante da Expedição Encorte, realizado pela Start Soluções e que mapeou 82 mil propriedades nos três estados e revelou um amplo espaço para crescimento com os recursos já existentes.
A Expedição Encorte foi realizada entre os dias 28 de abril e 17 de maio deste ano. A carência de dados consolidados sobre a pecuária de corte no Nordeste foi um dos principais motivadores para a Start Soluções promover a iniciativa.
A equipe percorreu os três estados e mapeou uma área de 1,5 milhão de hectares de pastagem e detectou um rebanho total de 1,72 milhão de bovinos. O objetivo da expedição foi estabelecer o perfil das propriedades pecuárias em cinco pilares: pastagem, rebanho, gestão, bem-estar animal e sustentabilidade, além de estimar o potencial produtivo em cria, recria, engorda e produção de carne. Outro foco foi compreender a interação entre os elos da cadeia produtiva e a industrialização da carne.
Segundo Marcelo Araújo, diretor técnico da Start Soluções, a atividade agropecuária vem crescendo nos três estados principalmente pelo espaço que a cana-de-açúcar deixou em algumas áreas. Ele também destaca a importância da criação e da instalação de novas plantas frigoríficas na região, o que vem estimulando produtores a investir na produção.
“O momento da pecuária de corte nacional tem favorecido esse crescimento. No centro-sul do Brasil, estamos vendo cada vez mais a agricultura ocupando espaços que antes eram área de pastagem, então a pecuária está migrando para as extremidades e para o Nordeste. A atividade tem avançado na região com uso de tecnologias”, explicou.

Com uma lotação média de 0,92 unidade animal por hectare, semelhante à média nacional, e considerando apenas a possibilidade de expansão de rebanho por aumento de eficiência de uso da terra, com o aumento da lotação por hectare, pode-se pegar os resultados alcançados pelos 25% mais eficientes – 1,29 UA/ha – e projetar isso para toda a região.
“É um resultado factível, já alcançado por parte dos produtores e não existem maiores impeditivos para que seja alcançado pelos demais pecuaristas. Nessa matemática simples, é possível lograr um aumento de 40% no rebanho de corte e alcançar cerca de 2,89 milhões de cabeças apenas considerando-se a região abrangida pela Expedição Encorte 2025”, explica Araújo.
Nordeste aumenta exportações de carne bovina
Um estudo do Escritório Técnico de Estudos Econômicos do Nordeste (Etene), do Banco do Nordeste (BNB) mostrou que Pernambuco, Alagoas e o Maranhão foram os estados do Nordeste com maior alta nas exportações de carne bovina nos dois primeiros meses de 2025.
Pernambuco registrou um notável crescimento de 375,85% na exportação de carne bovina nos dois primeiros meses de 2025, elevando o volume exportado de 13,6 toneladas para 64,6 toneladas. Além disso, Alagoas também apresentou um desempenho positivo, com incremento de 30%, totalizando 4,3 toneladas exportadas, gerando cerca de US\$ 34 mil no período.

De modo geral, o Nordeste obteve alta de 65,51% no volume e de 77,88% no valor das exportações de carne bovina, com a região exportando para 49 países, com destaque para Uruguai, na América do Sul, e Hong Kong, na Ásia.
Segundo análise do Etene, a expansão nas exportações está associada à habilitação de frigoríficos para comércio internacional em estados como Pernambuco, além de melhores condições logísticas e climáticas, e ganhos de competitividade na terminação do rebanho.
Falta de gestão e mão de obra qualificada freia avanço
A pesquisa realizada pela Start apontou também que apenas 13,6% das propriedades utilizam software para gestão e controle da produção, e 41% sequer monitoram seus custos. Para Araújo, o uso da tecnologia deve vir acompanhado de uma mudança de postura: “Eu sempre falo que quem não mede, não gerencia, e quem não gerencia, não melhora. Então, o primeiro passo é medir como está a pecuária e esse foi um dos motivos também da expedição Encorte”, explicou.

Quanto à capacitação da mão de obra, o levantamento apontou que 63% das fazendas afirmaram realizar programas de forma eventual, mas apenas 16% fazem isso regularmente. “Queremos melhorar a lotação, melhorar a produtividade, mas não capacitamos a mão de obra que faz a pecuária acontecer. O que precisa é o produtor rural encarar a fazenda como uma empresa”, afirmou o especialista.
Marcelo disse também que a Start desenvolveu um projeto próprio para capacitação, a Faculdade do Vaqueiro, um curso técnico voltado à mão de obra no campo, com turmas já realizadas em Alagoas e projeta realizar turmas em Pernambuco e Sergipe.

“Na parte da iniciativa pública, a gente tem o Sebrae, o sistema S de um modo geral, mas principalmente o Sebrae e o Senar como grandes parceiros da qualificação da mão-de-obra”, complementa.
O Sebrae em Alagoas também atua diretamente com consultorias voltadas para o setor. São oferecidos serviços de melhoramento genético por fertilização in vitro, consultorias sobre rotulagem de alimentos e informação nutricional, além de orientação em boas práticas da pecuária de leite e de corte. Também é oferecida consultoria para adequação às exigências dos serviços de inspeção na agroindústria.
O superintendente do Sebrae Alagoas, Domício Silva, afirmou que as consultorias exercem papel fundamental, especialmente pela qualificação dos profissionais envolvidos e pela forma como o Sebrae atua subsidiando esses serviços.
“Seja no fomento à inovação ou à adoção de novas tecnologias, o Sebrae Alagoas tem sido um agente essencial para impulsionar o desenvolvimento da pecuária no estado, com foco especial nos pequenos negócios”, declarou.
Rastreabilidade e logística fortalecem potencial exportador
A redução do abate informal e a pressão por rastreabilidade e sustentabilidade também estão mudando a dinâmica da cadeia produtiva. Para Araújo, o Nordeste tem vantagens logísticas para o mercado externo. “Não há local melhor no Brasil do que o Nordeste, principalmente Alagoas e Pernambuco, para exportação de carne. Estamos bem localizados em relação à África, Europa e Ásia”, completou.

O uso de tecnologias como irrigação, confinamentos estratégicos e planejamento da lotação em períodos secos tem sido essencial para adaptar a pecuária às condições climáticas do semiárido.
Outro destaque do levantamento é que 83% das propriedades possuem Reserva Legal e 84% protegem suas nascentes. Araújo defende que, mais do que uma exigência de mercado, trata-se de uma consciência histórica: “O produtor rural sempre teve essa conscientização. A água é a riqueza da propriedade. O que falta é o setor se comunicar melhor com o consumidor”, defendeu.
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