
O seminário Conexões Transnordestina foi marcado por ampla mobilização política, empresarial e social em Araripina, nesta sexta-feira (15). As discussões se concentraram na implantação de um porto seco no Araripe e nos impactos que o trecho Salgueiro–Suape da Transnordestina pode gerar para o polo gesseiro. Esta foi a terceira edição do evento, que já passou por Salgueiro e Petrolina, e seguirá para mais quatro cidades pernambucanas. Realizado no Centro Tecnológico do Araripe, o encontro reuniu cerca de 150 participantes, numa promoção do portal Movimento Econômico, com apoio da Sudene e do Governo de Pernambuco.
Estiveram presentes os prefeitos de Araripina, Evilásio Mateus, e de Trindade, Elbinha Rodrigues, além de representantes da Sudene, do Governo do Estado, da Infra S.A., da Copergás, da Fiepe, do Sindusgesso e da Adesa, entre outros. A mobilização reflete a preocupação com a competitividade do polo gesseiro, que enfrenta concorrência internacional, como a dos espanhóis, capazes de vender gesso mais barato no Brasil graças a custos logísticos inferiores. “O polo gesseiro poderia produzir dez vezes mais se tivesse eficiência logística”, afirmou o secretário estadual de Desenvolvimento Econômico, Guilherme Cavalcanti.
De acordo com o coordenador de Estudos, Pesquisa e Inovação da Sudene, José Farias, a conclusão do trecho Salgueiro–Suape reduzirá o chamado “Custo Brasil” e aumentará a competitividade local, especialmente no Araripe. A troca do modal rodoviário pelo ferroviário pode resultar em queda de até 30% nos custos de transporte.
Disputa pelo Porto Seco
O presidente da Agência de Desenvolvimento Econômico e Social do Araripe (ADESA), Daniel Torres, defendeu que o porto seco seja instalado no Sítio Abóbora, em Trindade, a seis quilômetros do distrito de Lagoa do Barro, em Araripina, e próximo à BR-316. A localização estratégica, segundo ele, atenderia diretamente áreas de extração de calcário e facilitaria o escoamento da produção, conectando o Sertão do Araripe à Transnordestina e aos portos marítimos.
Torres destacou que a divisa entre Pernambuco, Piauí e Ceará pode se consolidar como hub logístico nacional, graças à concentração de 95% da produção brasileira de gipsita e às reservas de calcário e mármore. A infraestrutura também beneficiaria a cadeia leiteira, a segunda maior do Estado, e setores como fruticultura, avicultura e pecuária, especialmente se avançar o projeto de irrigação do Canal do Sertão, que pode irrigar 120 mil hectares e movimentar até R$ 15 bilhões anuais.
Competitividade do polo gesseiro
O diretor regional da Fiepe, Fábio Monteiro, apresentou o trabalho do Fórum Permanente de Infraestrutura, criado para monitorar obras estratégicas como a Transnordestina. Ele destacou que o polo, formado por cerca de 510 empresas, poderia reduzir o custo do frete para o Recife de R$ 65 para R$ 15–20 por tonelada, fortalecendo a concorrência com o produto importado. O transporte ferroviário abriria novas possibilidades de exportação para mercados como Paraguai, Chile e Colômbia, além de facilitar a criação de um porto seco e a expansão agrícola na Chapada do Araripe.
Fabio Monteiro apontou para as perdas que a região ver sofrendo. “Já não somos responsáveis por 95% do gesso produzido no Brasil. O Maranhão vem avançando com oferta, apesar de termos muito mais empresas aqui. No entanto, estamos perdendo competividade”, disparou. O diretor ressaltou que as empresas estão indo buscar lenha a 600 km de distância.
O secretário de Desenvolvimento Econômico de Araripina, Alexandro Grande, apontou como principais gargalos da região o alto custo do transporte e da energia. “O nosso transporte é mais caro que o nosso produto. Se a Transnordestina virar realidade, isso aqui vai se tornar uma ilha de desenvolvimento”, afirmou. Ele acrescentou que o gesso agrícola pode aumentar em 8,27% a produtividade da soja e que 11 cidades dependem economicamente do polo gesseiro. “Mas precisamos de gás. Não podemos seguir usando lenha para a produção de gesso”, disse.
Anúncio da Copergás para Araripina
No evento, o presidente da Copergás, Bruno Costa, anunciou que a companhia vai implantar uma estação de regaseificação em Araripina. O investimento faz parte de um projeto que já conta com 16 pré-contratos assinados com empresas interessadas e prevê a criação de um fundo, por meio da Agência de Fomento do Estado (AGE), para garantir empréstimos voltados à expansão do uso de gás natural na região.
Atualmente, o abastecimento de gás é feito por caminhões, e a nova infraestrutura promete ampliar a competitividade industrial e reduzir custos energéticos. Bruno Costa também a nunciou a criação de um fundo de apoio ao setor. “Mas ainda é cedo para falarmos de transportar gás pelos trilhos. Ainda precisamos nos debruçar mais sobre esse tema”, ponderou.
O diretor da Infra S.A., André Luis Ludolfo, informou que todos os estudos para adequar o projeto às futuras licitações estão em andamento, incluindo sondagens com aerolevantamento para maior precisão. A previsão é lançar a licitação no segundo semestre deste ano, com custo estimado em R$ 3,5 bilhões e conclusão prevista para 2029.
A prefeita Elbinha Rodrigues ressaltou que “o gesso é o grande empregador da região” e que a economia de Trindade depende diretamente do setor. Dados da Fiepe mostram que, em 2018, o polo gerou 15 mil empregos e R$ 420 milhões em receita. O futuro presidente do Sindusgesso, Jorberth Granja, alertou que, sem ganhos logísticos, há risco de perda de empregos, restando apenas a atividade de mineração.
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