
Produtores de algodão da Região Metropolitana do Cariri, no sul do Ceará, identificam na Ferrovia Transnordestina a solução para reduzir custos logísticos que atualmente triplicam devido à dependência exclusiva do modal rodoviário para escoamento de pluma (fibra têxtil) e caroço aos portos de Pecém (CE) e Suape (PE). A Associação dos Produtores de Algodão do Estado do Ceará (Apaece), fundada em 2020, opera 1.000 hectares plantados distribuídos entre 10 sócios nos municípios de Missão Velha, Barbalha, Brejo Santo, Mauriti, Abaiara, Milagres e Porteiras.
Cícero Gonçalves, tesoureiro da Apaece, afirma que para compra de 100 mil quilos de adubo produtores podem enfrentar até três cobranças diferentes de frete, incluindo produtos provenientes do oeste da Bahia e insumos que chegam pelo porto de Suape. “Para comprar 100 mil quilos de adubo podemos ter até três cobranças diferentes de frete. Compramos muitos produtos que vêm do oeste da Bahia e, às vezes, recebemos produtos de fora que chegam pelo porto de Suape, em Pernambuco. A questão logística atrapalha muito”, explica.
A produção de 1.000 hectares gera, em média, 2,5 milhões de quilos de algodão em rama, com rendimento de 40% de pluma (fibra têxtil) e 60% de caroço (subproduto). O caroço é comercializado a R$ 1,70 por quilo na região, enquanto a pluma alcança R$ 9 por quilo. A distância em relação aos grandes centros comerciais de Fortaleza e Recife acarreta perda de competitividade para produtores do centro-sul cearense em comparação aos do norte do estado.

Cícero Gonçalves é tesoureiro e cofundador da Associação dos Produtores de Algodão do Estado do Ceará (Apaece). Foto: Yas Fonseca/MIDR
Terminal estratégico em Missão Velha
A Transnordestina Logística S.A. (TLSA) planeja instalar terminal de cargas em Missão Velha, onde está localizada uma das principais áreas de plantio da Apaece. “Principalmente para nós que trabalhamos com a agricultura, isso traz viabilidade de escoamento da produção”, afirma Gonçalves, explicando que o cultivo de algodão exige comercialização em larga escala para ser economicamente viável.
A ferrovia opera com modelo de contratação sob demanda, permitindo que cooperativas contratem desde um único vagão, facilitando tanto compra de insumos quanto escoamento de produção. A Apaece tem caroços e plumas de algodão para serem vendidos por tonelada e está apoiando criação de cooperativa regional para comprar insumos em associação e comercializar para indústrias têxteis.

Cooperativa de agroindústrias do Cariri
O Sistema OCB (Organização das Cooperativas Brasileiras e Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo) instalou escritório em Juazeiro do Norte em maio de 2025, sob coordenação do analista Lucas Bonfim. A organização realiza oficinas de consultoria sobre cooperativismo, conectando cooperativas locais e produtores rurais que estabelecem dinâmicas coletivas de comercialização e compra de insumos.
A articulação dará origem à cooperativa de agroindústrias do Cariri, reunindo empreendedores dos segmentos de apicultura, pecuária de leite, hortifrutigranjeiro, mandiocultura, bovinocultura e cotonicultura para adquirir matérias-primas em larga escala e baratear custos de produção. “O nosso objetivo é orientá-los sobre o cooperativismo para que possam trabalhar de maneira organizada. É através dessa formalização que eles vão ter acesso a políticas públicas, crédito, assistência técnica de qualidade e novos mercados”, ressalta Bonfim.
O analista do Sistema OCB considera ampliar contato com a operadora da Transnordestina para viabilizar acesso a novos mercados. “A ferrovia traz essa possibilidade de fortalecer cada vez mais as cooperativas, dando acesso a novos mercados”, pontua. A conexão do sertão do Cariri com o Porto do Pecém via ferrovia viabiliza especialmente o setor de orgânicos, com destaque para tomate e batata orgânicos, produtos exigidos nos mercados europeu e americano.
Avanço das obras da Transnordestina no Ceará
A Ferrovia Transnordestina registra 80% de avanço físico em sua extensão total de 1.206 quilômetros, com trecho experimental de 679 km já liberado entre São Miguel do Fidalgo (PI) e Acopiara (CE), passando por Salgueiro (PE). O Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR) contribui para o avanço da ferrovia por meio do Fundo de Desenvolvimento do Nordeste (FDNE).
Eduardo Tavares, secretário Nacional de Fundos e Instrumentos Financeiros, informa que 100% dos lotes até o Porto do Pecém estão contratados, com mais de 3.500 trabalhadores atuando na ferrovia e execução mensal de mais de R$ 120 milhões em obras. Os oito lotes remanescentes estão contratados. Após autorização da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) e concessão de licença de operação pelo Ibama, trens de carga da ferrovia iniciaram circulação experimental no trecho liberado.
*Com informações do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR)
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