
Um dos maiores especialistas em transporte de Pernambuco, o engenheiro Maurício Pina, criticou o fato da Ferrovia Transnordestina ter sido construída do interior para o litoral. O trecho Salgueiro-Suape desta ferrovia tem 179 km que foram concluídos. “Se tivesse começado a ser construída do Porto de Suape em direção ao interior, a ferrovia já teria chegado aqui em Belo Jardim e estaria transportando a produção de baterias da região”, explicou Maurício, na sua apresentação na quarta edição do Seminário Conexões Transnordestina, realizado pelo Movimento Econômico na quinta-feira (25) em Belo Jardim, a 180 km do Recife.
“Então, é uma lógica que realmente não se consegue entender, essa lógica inversa”, comentou o engenheiro, acrescentando que “sem analisar o passado não se chega a lugar algum”. Na cidade de Belo Jardim, estão implantadas quatro unidades da Baterias Moura. Ele estava se referindo ao traçado do trecho ferroviário Salgueiro-Suape que foi iniciado em 2006 e teve suas obras paralisadas, pelo menos, desde 2016.
Segundo Maurício Pina, somente a produção de baterias a ser produzida pela Moura seria suficiente para levar a Suape um trem com 25 vagões a cada dois dias. No Brasil, 60% dos veículos usam as baterias da Moura.
O especialista também citou que, no traçado antigo, os trilhos da ferrovia vão passar a 16 km da fábrica da Moura, em Belo Jardim. “É uma distância rodoviária considerável e vai encarecer o custo para a empresa que terá que levar a carga de caminhão. A não ser que seja feito um ramal ferroviário que ligue a fábrica à ferrovia”, resumiu Maurício.
A estatal Infra S.A. que está fazendo os projetos básico e executivos do traçado Salgueiro-Suape informou que “o projeto do trecho Salgueiro–Suape da Transnordestina ainda não teve sua versão final aprovada, sendo assim o traçado definitivo poderá sofrer ajustes. No entanto, até o momento, os estudos apontam que a ferrovia deve passar a aproximadamente 16 km de Belo Jardim”.

Um pouco da história da Transnordestina
As obras da Ferrovia Transnordestina começaram em 2006 no interior do Ceará e de Pernambuco. O trecho da Transnordestina que liga Eliseu Martins, no Piauí, ao Porto de Pecém, teve as suas obras retomadas em 2023 e vai ter o primeira etapa inaugurada em 2027.
Maurício Pina considerou “alvissareira” a notícia que as obras do trecho Salgueiro-Suape serão retomadas, mas levantou alguns “detalhes técnicos” existentes no traçado antigo da ferrovia pernambucana que devem ser observados, para que o trecho Salgueiro-Suape seja realmente competitivo e traga mais “desenvolvimento para a região”.
Um deles, segundo o especialista, é só ter a bitola larga que não é mais adequada para o tipo de carga, classificada como não densa, como combustíveis e gipsita, que o trecho pernambucano deve receber. “Este tipo de carga se for transportada em bitola larga fica mais cara. Precisaria de um terceiro trilho para ser de bitola mista e atender diversos tipos de carga”, comentou. A ferrovia que vai para Pecém é de bitola mista, segundo o engenheiro.
Maurício Pina também afirmou que é interessante ter alguma solução para o gesso embarcar no trecho pernambucano da ferrovia Salgueiro-Suape sem passar pela outra concessionária. O trecho Eliseu Martins-Salgueiro-Missão Velha-Pecém é explorado pela concessionária TLSA e passa próximo do polo do Araripe na divisa entre Pernambuco e Piauí. Dependendo do quanto for cobrado para transportar até Salgueiro pode inviabilizar o escoamento dessa carga por Suape, na opinião do especialista.
O gesso é um produto de baixo valor agregado e qualquer custo logístico a mais pode fazer diferença no escoamento do produto. Hoje, o gesso espanhol chega mais barato no Brasil do que o gesso do Araripe e uma das coisas que contribuem para isso é o transporte rodoviário.
E, por último, Maurício Pina, citou que tem 88 km do trecho Salgueiro-Suape que precisaria de uma terceira locomotiva, chamada helper, para puxar o trem com a carga por causa de rampas e curvas inadequadas existentes em 88 km do traçado antigo. De acordo com Pina, isso deixaria o transporte da carga mais caro no trecho Salgueiro-Suape.

Baterias Moura movimenta cargas no Agreste
A forma como a Baterias Moura estruturou o seu negócio faz com que a empresa faça uma grande movimentação de cargas. “A empresa faz logística reversa recolhendo o material das baterias usadas, reciclando corretamente e produzindo novas baterias automotivas. Então, quando a bateria cumpriu sua vida, a gente coleta essa bateria, recicla e começa o ciclo novamente. É o que se chama de economia circular”, resumiu na sua apresentação o diretor de Metalurgia e Compras da Baterias Moura, Flávio Bruno.
A empresa tem parceiros na Índia, China, Europa e América. Ou seja, grande parte dos componentes chegam pelos portos. A companhia criou uma transportadora focada em contêineres, a LAM, que tem sede no Porto de Suape. Somente esta subsidiária, transporta 72 mil toneladas de carga por ano. A LAM é uma das três empresas de logística do grupo.
Segundo Bruno, a empresa também faz hoje a bateria para armazenamento de energia, com tecnologia de lítio para os carros autônomos e para isso, a parceria da China é fundamental.
A companhia emprega 7 mil pessoas no Brasil, incluindo 4 mil trabalhadores em Belo Jardim, onde trabalham 170 engenheiros. A Moura tem 84 centros de distribuição dos seus produtos no Brasil. “Estamos totalmente abertos e com vontade de participar e ajudar nesse projeto. Nosso entendimento é de que é um projeto que vai, por fim, aumentar ainda mais o desenvolvimento da nossa região, aqui do Agreste Central, mais específicamente de Belo Jardim”, comentou, se referindo ao trecho ferroviário Salgueiro-Suape. Ele declarou que há uma expectativa de redução de custos com a implantação desta ferrovia.
“Outro ponto fundamental na discussão é sobre a redução da pegada de carbono promovida pelo modal ferroviário, garantindo que trens e locomotivas utilizados na operação sejam movidos por combustíveis com menores índices de emissões”, argumentou Flávio Bruno. O trem também dialoga com o futuro porque pode contribuir para a descarbonização da economia.
Ainda em Belo Jardim, um dos principais pontos do centro da cidade é uma estação ferroviária desativa, inaugurada em 1906. “A importância do trecho Salgueiro-Suape da Transnordestina é resgatar aquilo que já era nosso desde 1908, quando começou a passar o trem pela nossa cidade, transportando passageiros e mercadorias. Nos meados da década de 90, os trens foram desativados, não só aqui como em boa parte do Nordeste brasileiro, e a gente percebe que isso foi ruim para a economia regional”, resumiu o prefeito de Belo Jardim, Gilvandro Estrela, que também participou do seminário Conexões Transnordestina. Ele defendeu que trazer os trens de volta é “extremamente importante e necessário”.

Conexões Transnordestina continua
Ainda no evento de Belo Jardim, o superintendente da Sudene, Francisco Alexandre, defendeu a retomada das obras do trecho Salgueiro-Suape. Já o secretário estadual de Desenvolvimento Econômico, Guilherme Cavalcanti, reafirmou que o empreendimento é fundamental para melhorar a competitividade do Estado.
O seminário de Belo Jardim foi o quarto da série Conexões Transnordestina, que percorre o Estado discutindo os impactos regionais da ferrovia. O primeiro ocorreu em Salgueiro, em julho, seguido por encontros em Araripina e Petrolina, em agosto. As próximas edições acontecerão em outubro. Estão previstos seminários em Caruaru e Recife, em novembro.
Promovido pelo Movimento Econômico, o Conexões Transnordestina tem o patrocínio da Sudene, Complexo Industrial Portuário de Suape e Grupo Moura.
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