
A cadeia produtiva do mel se consolidou como um dos pilares estratégicos para a bioeconomia e o desenvolvimento ambiental do Nordeste brasileiro. Segundo dados recentes do Escritório Técnico de Estudos Econômicos do Nordeste (Etene), vinculado ao Banco do Nordeste (BNB), a região já responde por quase 40% da produção nacional do alimento. Com um volume de 25,6 mil toneladas e um crescimento anual de 4,1%, o setor atrai olhares não apenas pelo retorno financeiro, mas pelo seu papel na transição ecológica.
O diferencial que coloca o mel nordestino em destaque no comércio exterior é o seu elevado padrão de pureza, fruto direto das condições climáticas do Semiárido.
A vegetação nativa da Caatinga e a baixa umidade do ar funcionam como barreiras naturais contra doenças nas abelhas, eliminando a necessidade de antibióticos ou pesticidas. Essa característica confere ao produto uma aptidão natural para certificações orgânicas, que possuem alto valor agregado no mercado global.
O papel da agricultura familiar e a preservação ambiental
Diferentemente de outras cadeias do agronegócio, a apicultura no Nordeste possui uma base social profunda. De acordo com o Censo Agropecuário, 80% dos estabelecimentos apícolas da região pertencem à agricultura familiar, com 94% desses produtores localizados em áreas de Semiárido.
Essa estrutura permite que pequenas comunidades gerem renda preservando a vegetação nativa, já que a produção de mel não exige desmatamento.
Anselmo Castilho, secretário de Sustentabilidade e Mudanças Climáticas do Consórcio Nordeste, destaca a conexão entre o trabalho no campo e as metas ambientais da região.
“A apicultura gera renda para a agricultura familiar em áreas de preservação sem causar desmatamento, tornando o produtor o guardião da Caatinga. Como as abelhas polinizam os cultivos, o fortalecimento dessa cadeia une de forma prática a meta de desmatamento zero do Consórcio Nordeste à bioeconomia do Semiárido”, afirma.
Desafios e incertezas nas exportações para os EUA
Apesar do sucesso, o ano de 2026 tem sido desafiador para os exportadores. O Nordeste lidera as vendas externas do Brasil, sendo responsável por 43% do volume enviado ao exterior, tendo os Estados Unidos como destino de 85% dessa produção.
No entanto, a entrada em vigor de tarifas de importação mais severas em solo americano, o chamado “tarifaço”, afetou o ritmo dos embarques nos primeiros meses deste ano, forçando cooperativas a buscarem novos parceiros.
No Ceará, por exemplo, as exportações diretas registraram queda no primeiro trimestre, em parte porque o mel local tem sido processado e enviado por empresas do Piauí, estado que lidera o fluxo de exportação regional.
Diante da queda temporária nos preços pagos aos produtores, muitos apicultores estão optando por estocar o produto à espera de uma reação do mercado internacional, aproveitando a longa durabilidade do mel.
Missões internacionais e a abertura de novos mercados
Para reduzir a dependência do mercado norte-americano, o Consórcio Nordeste tem intensificado missões comerciais para a Europa e Ásia. Recentemente, comitivas formadas por agricultores e gestores públicos participaram da Feira Anuga, na Alemanha, para apresentar o mel da Caatinga a compradores europeus que valorizam produtos com baixa pegada de carbono e impacto social positivo.
Além da Europa, a Índia surgiu no radar em fevereiro de 2026 como um potencial parceiro comercial em rodadas de negócios lideradas pelo Consórcio. A estratégia consiste em posicionar o mel nordestino como um item de luxo gastronômico e farmacêutico, capturando fatias de mercado dispostas a pagar mais pela origem sustentável e pela ausência total de resíduos químicos.
Crescimento interno e o avanço do Piauí e Maranhão
No cenário regional, o Piauí continua sendo a principal potência exportadora, mas outros estados mostram um fôlego renovado. O Maranhão registrou um incremento expressivo de 23,9% em sua produção anual, atingindo 3,2 mil toneladas.
Esse avanço é impulsionado por políticas de fomento que integram assistência técnica e melhoria na logística de escoamento, fundamentais para que o pequeno produtor acesse o Serviço de Inspeção Federal (SIF).
A união dos nove estados através do Consórcio Nordeste visa justamente padronizar essa infraestrutura. O Programa de Alimentos Saudáveis do Nordeste (PAS Nordeste) está em fase de implementação e promete levar tecnologias de beneficiamento e assistência técnica qualificada para dentro das propriedades, garantindo que o crescimento no campo seja acompanhado de ganhos reais de comercialização.
Um pilar estratégico para o desenvolvimento regional
A região reafirma o mel como uma peça-chave para o futuro do Semiárido. O foco atual não é apenas produzir mais, mas verticalizar a produção, transformando o mel bruto em produtos embalados e certificados com a “Marca Nordeste”, o que permite reter mais riqueza dentro das comunidades locais e evitar que a rentabilidade se perca entre atravessadores.
Com a consolidação de polos apícolas em estados como Piauí, Ceará e Bahia, o Nordeste prova que é possível aliar lucro e preservação ambiental. O objetivo do PAS Nordeste, segundo as diretrizes do Consórcio, é firmar a qualidade e expandir os negócios, consolidando a apicultura como um pilar estratégico e sustentável que protege o bioma enquanto gera divisas para o Brasil.
Leia também: Mel do Araripe: região busca indicação geográfica para fortalecer produção











