
Sonho de infância, coragem para mudar de vida e empreendedorismo. Foi dessa combinação que nasceu a Sorveteria Retrô Aracaju. Aos 41 anos, a advogada Camila Damásio de Barros decidiu deixar para trás 14 anos de atuação na advocacia criminal para investir em uma paixão cultivada desde a infância: produzir e vender sorvetes artesanais em máquinas retrô. Três anos depois, o empreendimento produz mais de 30 sabores, opera quatro máquinas restauradas — três delas em funcionamento diário — e está presente em três dos principais espaços públicos de Aracaju.
A trajetória de crescimento da empresa acaba de ganhar reconhecimento nacional. Camila está entre os 20 vencedores regionais da 9ª edição do Prêmio Academia Assaí, promovido pelo Instituto Assaí, após um processo seletivo que reuniu mais de 7 mil empreendedores do setor de alimentação em todo o país. A classificação garante à empresária uma etapa de imersão em gestão e a coloca na disputa pelas quatro vagas nacionais da premiação.
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Mais do que uma história de mudança de profissão, a trajetória da empreendedora revela como planejamento, capacitação e diferenciação podem transformar uma ideia antiga em um negócio competitivo. Em um mercado formado majoritariamente por micro e pequenas empresas, a Sorveteria Retrô encontrou espaço apostando em um produto artesanal e em uma experiência que desperta a memória afetiva de diferentes gerações.

Da advocacia ao empreendedorismo
Até 2023, a realidade de Camila era outra. Advogada criminalista, mantinha escritórios em Aracaju, Maruim e Simão Dias e percorria diversas cidades sergipanas para participar de audiências e atender clientes.
A chegada do filho José Antônio fez com que repensasse a rotina profissional. As viagens constantes, os plantões e a necessidade de permanecer vários dias fora de casa tornaram incompatível o modelo de trabalho que havia construído ao longo de mais de uma década. Em vez de buscar apenas uma atividade que lhe proporcionasse maior flexibilidade, decidiu colocar em prática um projeto que vinha amadurecendo havia anos.
A decisão também levou em conta a dedicação exigida pelo filho, hoje com quatro anos. José Antônio apresenta altas habilidades e passa por acompanhamento especializado. Curioso e apaixonado por temas como astronomia, ele demanda uma rotina de estímulos e acompanhamento que reforçou a escolha da mãe por uma atividade que lhe permitisse administrar o próprio tempo.
“Eu sempre dizia que um dia teria uma daquelas máquinas de sorvete. Achava que seria para colocar dentro de casa, apenas porque gostava daquele sorvete antigo. Quando percebi que precisava construir uma nova rotina de trabalho, lembrei daquele sonho e pensei: chegou a hora”, conta.
O sonho, na verdade, começou muito antes da Sorveteria Retrô. Durante quase dez anos, sem imaginar que um dia deixaria a advocacia, Camila pesquisou as antigas máquinas retrô de sorvete, equipamentos que deixaram de ser fabricados há décadas e hoje sobrevivem graças ao trabalho de restauradores e colecionadores. Em uma dessas buscas conheceu, no interior de São Paulo, um especialista na recuperação dessas máquinas e passou a acompanhar seu trabalho.
Na época, ela queria apenas realizar uma vontade de infância: ter uma máquina daquelas em casa. A ideia de transformá-la em um negócio só surgiu anos depois, quando decidiu construir uma nova rotina profissional. Foi então que todo o conhecimento acumulado durante aquele período deixou de ser um hobby e passou a fazer parte do plano de criação da Sorveteria Retrô.
A compra da primeira máquina consumiu cerca de R$ 30 mil. Depois veio outro desafio: aprender a produzir os sorvetes e dominar o funcionamento de um equipamento pouco comum no mercado brasileiro.
Sem experiência anterior no setor de alimentação, passou a integrar grupos de proprietários dessas máquinas espalhados pelo país, trocando receitas, técnicas de produção e informações sobre manutenção. Com o tempo, desenvolveu receitas próprias e especializou-se também na operação dos equipamentos.
“Hoje eu faço tudo. Produzo os sorvetes, faço manutenção nas máquinas, desenvolvo sabores e cuido da gestão da empresa. Foi um conhecimento construído aos poucos.”
O negócio começou com uma única máquina. Atualmente, a Sorveteria Retrô atende consumidores na Orla da Atalaia, no Parque da Sementeira e na Praça Tobias Barreto, além de fornecer sorvetes para aniversários, casamentos e eventos corporativos.
O crescimento permitiu ampliar a estrutura da empresa e gerar empregos. Enquanto colaboradores atendem parte das operações, Camila concentra sua atuação na produção, na logística e no planejamento da expansão do negócio.
Espaço no mercado
A evolução da empresa acompanha um mercado que continua em crescimento no Brasil. Segundo a Associação Brasileira das Indústrias e do Setor de Sorvetes (ABIS), o país reúne mais de 11 mil empresas ligadas à cadeia produtiva do sorvete, responsáveis por um faturamento superior a R$ 14 bilhões por ano. Desse total, cerca de 92% são micro e pequenas empresas, segmento que também concentra boa parte da inovação em produtos artesanais e de maior valor agregado. A cadeia produtiva responde ainda por aproximadamente 100 mil empregos diretos e outros 200 mil indiretos.
No Nordeste, que representa cerca de 19% do consumo nacional de sorvetes, pequenos empreendimentos têm apostado na diferenciação para conquistar espaço em um mercado competitivo. Em vez de disputar apenas preço, muitos negócios investem em identidade, qualidade dos ingredientes e experiências capazes de criar vínculo com os consumidores. É justamente nesse nicho que a Sorveteria Retrô consolidou sua marca.
O reconhecimento veio depois de uma jornada que exigiu muito mais do que uma simples inscrição. Para chegar à etapa regional do 9º Prêmio Academia Assaí, Camila participou de cursos, atividades práticas e avaliações voltadas à gestão de pequenos negócios do setor de alimentação.
No ano passado, ela conheceu a iniciativa, participou pela primeira vez e não avançou até a fase final. Em vez de desistir, aproveitou a experiência para aperfeiçoar a administração da empresa e voltou a concorrer este ano. “Eu sempre procuro cursos e capacitações para melhorar o negócio. No ano passado conheci o prêmio, participei, mas não consegui chegar até o fim. Recebi o convite para tentar novamente e resolvi me preparar melhor. Este ano consegui passar por todas as etapas e representar Sergipe.”

Ao longo da seleção, os participantes tiveram acesso a aulas sobre gestão financeira, planejamento estratégico, formação de preços, fortalecimento da marca e crescimento empresarial. As atividades incluíram avaliações, apresentações dos negócios e acompanhamento de especialistas.
Segundo Camila, o aprendizado foi tão importante quanto a própria conquista. “Os cursos fizeram a gente olhar a empresa de outra forma. Passei a entender melhor a organização financeira, o planejamento e onde estavam algumas falhas. Foi um aprendizado que já trouxe resultados para o dia a dia da sorveteria.”
Como vencedora regional, Camila receberá R$ 4 mil em cartão pré-pago para investimentos no negócio, R$ 600 em vale-compras no Assaí, um smartphone e consultoria especializada. Ela segue na disputa por uma das quatro vagas nacionais da premiação.
Com a classificação já assegurada, a empreendedora olha além do prêmio. O objetivo agora é fortalecer a Sorveteria Retrô, ampliar sua presença no mercado e continuar investindo em capacitação e inovação. A empresa que nasceu de uma decisão cuidadosamente planejada entra em uma nova etapa: consolidar a marca e ampliar sua competitividade em um mercado que valoriza cada vez mais diferenciação, qualidade e gestão.
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