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Efeito Ozempic muda cardápios de bares no NE e impacta moda e supermercados

Supermercados, farmácias e vestuário ajustam estratégias ao avanço das canetas emagrecedoras
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  1. Medicamentos emagrecedores redesenham hábitos de consumo em bares, restaurantes, farmácias, supermercados e setor de moda.
  2. Mais da metade dos bares nordestinos relata mudanças no comportamento dos clientes com redução de pedidos e porções menores.
  3. Mercado de GLP-1 atinge 5,5% da população brasileira, superior à média global de 3,7% e Estados Unidos.
  4. Pague Menos registra alta de 100,8% em clientes após redução de preço do Poviztra para R$ 299,50 mensais.
  5. Potencial mercado de medicamentos emagrecedores no Brasil pode alcançar R$ 50 bilhões até 2030, segundo estimativas do setor.
Canetas emagrecedoras
Canetas emagrecedoras redesenham hábitos alimentares e de consumo no país e forçam setores a buscar adequações para atender às novas necessidades. Foto: Divulgação

O avanço dos medicamentos emagrecedores à base de GLP-1 começa a redesenhar hábitos de consumo no Brasil e já provoca ajustes em setores como os de farmácias, supermercados, bares, restaurantes e moda. No Nordeste, mais da metade dos bares e restaurantes afirma perceber mudanças no comportamento dos clientes, com reflexos nos pedidos de pratos principais, sobremesas, bebidas alcoólicas e porções menores.

Levantamento da EMS aponta que o mercado de GLP-1 no Brasil já alcança 5,5% da população, percentual superior à média global, de 3,7%, e 40% maior que o registrado nos Estados Unidos. A substância tem se popularizado por meio de medicamentos de marcas como Mounjaro, Ozempic e Wegovy.

Dados da NielsenIQ, por sua vez, mostram que 4,6% dos lares brasileiros já utilizam medicamentos injetáveis com o composto, enquanto outros 26% são considerados potenciais consumidores, mas ainda não fazem uso desses produtos devido ao custo ou ao receio em relação ao tratamento. Atualmente, 69% dos usuários da substância no Brasil pertencem à classe A, que representa apenas 4% da população.

As farmácias tentam ampliar o acesso aos produtos. A rede cearense Pague Menos tem observado o aumento do número de marcas e a maior presença de genéricos nacionais. Segundo Jonas Marques, CEO da Pague Menos, a estimativa é que o mercado formal de GLP-1 no Brasil alcance R$ 50 bilhões até 2030.

Jonas Marques, CEO da Pague Menos
CEO da rede de farmácias Pague Menos, Jonas Marques, observa aumento de marcas e estima que mercado de canetas emagrecedoras pode alcançar R$ 50 bilhões até 2030. Foto: Divulgação

Um exemplo citado pela Pague Menos é o Poviztra, medicamento produzido pela Novo Nordisk e distribuído pela Eurofarma, cujo preço foi reduzido, fazendo com que o custo da dosagem necessária para um mês de tratamento chegasse a R$ 299,50. Após a redução, a Pague Menos registrou alta de 100,8% no número de clientes e de 178% no total de unidades vendidas.

Segundo a empresa, 84% desses novos clientes nunca haviam utilizado semaglutida ou tirzepatida, o que indica a entrada de novos consumidores nesse mercado.

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A rede também informou que vem investindo em infraestrutura de cadeia fria para entrega de medicamentos termolábeis, além de usar dados de programa de fidelidade e consultórios farmacêuticos para acompanhar os consumidores em tratamento. A estratégia inclui a oferta de produtos complementares, como suplementos e vitaminas, categorias que tendem a ganhar espaço com a expansão do uso dos medicamentos para perda de peso.

“Nosso objetivo é garantir que essa inovação chegue a todos os que precisam, democratizando o acesso e melhorando a qualidade de vida de milhões de brasileiros”, destaca o CEO da Pague Menos.

Supermercados já sentem mudanças no carrinho

Nos supermercados, o impacto dos medicamentos emagrecedores já aparece na composição do carrinho. Levantamento da Scanntech estima redução de 0,49% ao ano no volume total de alimentos vendidos no varejo brasileiro, com efeito mais intenso nas cestas associadas à indulgência. O levantamento realizado pela Scanntech também mostra que categorias como cerveja (-1,03%), petiscos e snacks (-0,82%), chocolate (-0,72%), biscoitos (-0,63%), goma de mascar (-0,55%), refrigerantes (-0,55%) e balas e pirulitos (-0,51%) lideram as quedas.

O impacto não se restringe apenas às perdas. Os números apontam crescimento em categorias como alimentos frescos (+11,5%), academia e bem-estar (+9,6%), suplementos proteicos (+9,1%), água com e sem gás (+7,9%) e vitaminas e suplementos (+7,4%). Entre os usuários, 29% relataram perda de massa magra, um dado que ajuda a contextualizar o crescimento observado em proteínas e suplementos.

“Um dos aspectos mais relevantes observados na pesquisa é que parte das mudanças nos hábitos alimentares persiste mesmo após o fim da utilização do GLP-1. Entre os usuários atuais, 54% afirmam que a alimentação saudável é prioridade, enquanto os índices registrados entre ex-usuários permanecem acima dos observados entre quem nunca utilizou o medicamento”, afirmou Priscila Ariani, diretora de Marketing da Scanntech.

Bares e restaurantes do Nordeste percebem mudanças no consumo

Se, nos supermercados o impacto aparece na composição do carrinho, nos bares e restaurantes a mudança surge na forma de consumo à mesa. Segundo levantamento da Abrasel, 56,7% dos empresários ouvidos no Nordeste afirmam perceber mudanças no comportamento dos clientes em função do uso das chamadas canetas emagrecedoras.

O impacto aparece principalmente na composição dos pedidos. De acordo com a pesquisa da Abrasel, 63,4% dos estabelecimentos identificaram mudanças no volume de pedidos de pratos principais, enquanto 66% observaram alteração nas sobremesas e 68,3% nas bebidas alcoólicas. O levantamento também aponta maior procura por formatos reduzidos: 62% perceberam mudanças na demanda por tamanhos menores ou miniporções.

A tendência também aparece na forma de consumo à mesa. Segundo a Abrasel, 67,9% dos bares e restaurantes do Nordeste perceberam aumento na frequência de clientes que dividem pratos principais. Além disso, 67,1% relataram crescimento no número de consumidores que deixaram de pedir sobremesas individuais.

Paulo Solmucci, presidente-executivo da Abrasel
Presidente-executivo da Abrasel, Paulo Solmucci, vê particularidades no consumo de bares e restaurantes no Nordeste; desafio para setor é equilibrar esforços para manter ou ampliar o ticket médio sem perder frequência de consumo. Foto: Danilo Viegas

O presidente-executivo da Abrasel, Paulo Solmucci, disse ao Movimento Econômico que o comportamento observado no Nordeste é semelhante ao do restante do país, mas com algumas particularidades.

“Enquanto a percepção geral de mudança é menor (56,7% contra 61% no Brasil), os indicadores de comportamento específico são, em sua maioria, mais altos que a média nacional. Os dados sobre a percepção da redução nos pedidos de bebidas alcoólicas (68,3% no Nordeste contra 65% no Brasil) e de compartilhamento de pratos principais (67,9% contra 64%) chamam atenção. Eles apontam para uma mudança de ocasião de consumo e na quantidade”, analisou.

Para Solmucci, do ponto de vista do negócio, o desafio para bares e restaurantes nordestinos será equilibrar os esforços para manter ou ampliar o ticket médio sem perder frequência de consumo.

 “Como o uso dessas medicações ainda está concentrado no público de maior renda, o tíquete médio tende a se manter, às vezes até aumentar, porque o cliente consome menos quantidade, mas escolhe itens de maior valor agregado. A melhor estratégia, então, neste momento, é buscar formas de aproveitar um custo unitário mais alto para compensar a queda em volume”, afirmou.

Do lado dos restaurantes, grandes redes já percebem o movimento e preparam ajustes em cardápios para atender a esta nova demanda.

Divino Fogão
Restaurantes tem se adaptado à novos hábitos alimentares de consumidores que utilizam canetas emagrecedoras. Foto: Divulgação

O Divino Fogão identificou desde o pós-pandemia uma redução significativa nas vendas de chope nos mais de 250 restaurantes da rede. Em contrapartida, cresceu o interesse dos consumidores pelo buffet, especialmente na modalidade sirva-se uma vez, em que o cliente paga um valor fixo e pode montar a refeição conforme sua preferência.

O diretor de Planejamento e Novos Negócios do Divino Fogão, Rodrigo Varela, explicou que essa mudança reflete um consumidor mais interessado na refeição completa do que no consumo de bebidas alcoólicas durante o almoço, comportamento que também acompanha a retomada das refeições presenciais em centros comerciais e praças de alimentação de shoppings centers.

“Com isso, a preferência pelo buffet demonstra que conveniência, variedade e liberdade de escolha passaram a ter maior peso na decisão de compra. O modelo permite que cada cliente monte um prato de acordo com seu apetite e estilo alimentar, contemplando desde quem busca refeições mais leves até quem prefere uma experiência mais completa”, disse.

O Giraffas também deve lançar em outubro mudanças no cardápio para contemplar consumidores deste segmento, com porções menores, mas com alto valor proteico.

Eduardo Guerra, diretor de expansão da rede, comentou que já observa há algum tempo uma mudança no comportamento do consumidor, que se iniciou com o segmento Wellness e segue se intensificando com consumidores que estão utilizando medicamentos para emagrecimento.

“Já percebemos uma mudança, que ainda não é tão nítida dentro do nosso consumidor, mas no setor de alimentação já é bastante percebida. Acreditamos que o Giraffas tem um posicionamento privilegiado em relação a isso, por oferecer um cardápio com arroz, feijão, salada, legumes e proteína”, disse em entrevista ao Movimento Econômico.

Escolha de roupas, moda Abit
Para Abit, busca por peças com maior adaptabilidade ao corpo tem exigido do setor de vestuário acompanhamento permanente de preferências do público. Foto: Divulgação

Moda monitora mudança de numeração e consumo

No setor de vestuário, o impacto ocorre na busca por peças com maior capacidade de adaptação ao corpo, confeccionadas com tecidos flexíveis, modelagens reguláveis e soluções que ampliem a vida útil das roupas durante períodos de transição de medidas.

A Associação Brasileira de Indústria Têxtil e de Confecção (Abit) diz que outra tendência observada é o fortalecimento dos serviços de reforma e customização, além da valorização de modelos de negócios ligados à economia circular, como revenda, aluguel e reaproveitamento de roupas.

Para Fernando Pimentel, diretor-superintendente da Abit, a indústria da moda acompanha permanentemente as transformações do comportamento do consumidor. “Estamos observando mudanças no perfil de parte do público, o que pode alterar a distribuição da demanda entre diferentes numerações. Isso, porém, não significa redução da importância do segmento plus size. A moda continuará oferecendo opções para todos os perfis de consumidores, enquanto a indústria buscará responder com maior flexibilidade às novas demandas do mercado”, declarou.

Para a associação, as empresas do setor precisam trabalhar com coleções cada vez mais dinâmicas, estoques equilibrados e maior velocidade na reposição de produtos, acompanhando as mudanças de comportamento do consumidor. A Abit ressalta que ainda é cedo para mensurar os impactos econômicos do fenômeno sobre a indústria brasileira. No entanto, considera importante acompanhar sua evolução diante da expansão do mercado de medicamentos.

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