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Planta multimarcas da Pace inaugura nova era da indústria automotiva no Brasil

Nesta entrevista, Rodrigo Teixeira, sócio e vice-presidente da Pace, explica a visão estratégica da nova planta automotiva no Ceará
Bruno Brandão
Bruno Brandão
De Fortaleza
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A inauguração da Planta Automotiva do Ceará (Pace) acontece nesta quarta-feira (03), com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do governador Elmano de Freitas e de executivos da General Motors (GM) e da Comexport, principal acionista da PACE, âncora do Polo Automotivo do Ceará. O empreendimento, que já soma R$ 400 milhões em investimentos, marca a reativação do parque industrial automotivo do Estado e nasce com um modelo produtivo inédito no Brasil: uma planta multimarcas focada em pequenas e médias escalas, mas com alta capacidade de diversificação.

A Pace inicia as operações com potencial para produzir até 10 mil veículos por ano, com previsão de 6 mil unidades já em 2026, além de um plano robusto de expansão para uma área total de 600 mil m². O projeto inclui ainda a criação de um polo tecnológico e de sistemistas, reforçando o impacto econômico na geração de empregos, atração de fornecedores e estímulo à inovação. Em entrevista exclusiva ao Movimento Econômico, Rodrigo Teixeira, sócio e vice-presidente da Pace, explica a visão estratégica da nova planta, as parcerias internacionais, o foco em sustentabilidade e as metas de exportação que prometem reposicionar o Ceará na cadeia global da mobilidade.

Rodrigo Teixeira, sócio e vice-presidente da Pace. (Foto: Juliana Rossini/Divulgação)
Rodrigo Teixeira, sócio e vice-presidente da Pace. (Foto: Juliana Rossini/Divulgação)

Movimento Econômico – Qual é a visão da Comexport para a Planta Automotiva do Ceará nesses primeiros anos de operação?

Rodrigo Teixeira – Queremos aproveitar uma grande janela de oportunidade para reindustrializar o setor automotivo brasileiro. O Brasil é um dos países que têm o privilégio de contar com um mercado automotivo importante e relevante em tamanho, mais de 2,5 milhões de veículos, e uma indústria nacional forte, de veículos, componentes e engenharia automotiva. A Pace surge com um projeto bastante ambicioso de ser a âncora de um polo automotivo em uma região com potencial importante de crescimento a longo prazo, com diferenciais estratégicos e proximidade de mercados relevantes para o Brasil no futuro. A Pace traz um conceito inovador no Brasil, embora consagrado fora, que são as plantas multimarcas, responsáveis pela industrialização para empresas que possuem estrutura de distribuição e produtos desenvolvidos por elas. Nós cuidamos da industrialização. Além disso, pretendemos investir cada vez mais em tecnologia no Brasil e abrir o polo para isso.

ME – Já sabemos que o Chevrolet Spark será a primeira produção do polo. Existem planos para outros modelos?

Rodrigo – No dia 3, já vamos anunciar a ampliação da parceria com a GM, com a produção de outro modelo para a General Motors. É motivo de muito orgulho para o nosso projeto ter como primeiro cliente uma marca como a GM, que completa 100 anos no Brasil este ano. A GM tem um dos maiores centros de desenvolvimento tecnológico do país, no estado de São Paulo, e quatro plantas no Brasil. Para a produção de veículos de nova energia em pequena escala, escolheu a Pace como parceira. Já temos negociações avançadas com outras empresas e pretendemos anunciar novidades ao longo de 2026. Mas, devido a acordos de confidencialidade, trata-se de marcas com tecnologia proprietária e projetos estratégicos, ainda não podemos divulgar.

Veículo de nova energia da GM que terá fabricação exclusiva em pequena escala pela Pace - Foto: Divulgação
Veículo de nova energia da GM que terá fabricação exclusiva em pequena escala pela Pace – Foto: Divulgação

ME – Sobre a produção, como será essa fase inicial?

Rodrigo – Vamos começar com produção 100% local, mas adquirindo parte das peças tanto no mercado interno quanto no exterior. A Pace licencia os direitos de produzir o modelo, portanto temos liberdade para o processo de localização, respeitando, é claro, as limitações da engenharia do produto. Começamos com conteúdo nacional, mas ainda em baixo volume. A antiga planta tinha capacidade produtiva limitada. Investimos na requalificação e estamos ampliando essa capacidade. É um processo industrial 100% brasileiro, com componentes importados ou adquiridos no Brasil.

ME – Em comparação com outros polos do país, qual é o diferencial do Ceará?

Rodrigo – Podemos citar dois grandes diferenciais. O primeiro é a natureza do empreendimento: em geral, processos industriais automotivos são monomarca. Nós somos multimarcas. Não comercializamos veículos no varejo, por isso podemos produzir para várias marcas, modelo já consolidado no mundo, como no caso da Nordex, na América do Sul, e da Magna, na Europa e no Canadá. O segundo diferencial é a capacidade produtiva: temos foco em menor escala. No Brasil, marcas premium já produzem em pequenos volumes, como BMW e Audi. Estruturamos nosso parque para pequenos volumes por modelo, porém com múltiplos modelos, o que exige áreas produtivas dedicadas.

ME – Existe expectativa de exportação desses veículos?

Rodrigo – O primeiro produto, o Spark, foi completamente preparado para o público brasileiro, com ampla engenharia para adequação ao mercado nacional. Mas o projeto já nasce com expectativa de exportação. Inicialmente, priorizaremos o Mercosul, por conta dos acordos comerciais e do capítulo específico para veículos elétricos, para os quais já atingimos o índice de conteúdo local necessário. O Ceará também tem vantagens estratégicas pela proximidade com mercados das Américas, América Central, África e, no médio e longo prazo, Europa. Há nichos a explorar. Além da exportação de produtos, a ambição da Pace é desenvolver tecnologias brasileiras e exportar também serviços.

Proximidade do Porto do Pecém fortalece o potencial exportador do Polo Automotivo do Ceará - Foto: Divulgação
Proximidade do Porto do Pecém fortalece o potencial exportador do Polo Automotivo do Ceará – Foto: Divulgação

ME – A expectativa é produzir cerca de 6 mil veículos em 2026?

Rodrigo – Nosso foco são os pequenos volumes. Em grandes volumes, normalmente se adota modelo monomarca. Na primeira fase, temos capacidade potencial para 10 mil veículos, e a projeção para 2026 é de 6 mil unidades. Vamos ampliar progressivamente essa capacidade. A planta anterior, desativada há alguns anos, tinha capacidade bastante limitada – produziu 26 mil veículos ao longo de 25 anos. Foi necessário realizar um investimento completo de readequação e ampliação. Já no primeiro ano, teremos capacidade para produzir 10 mil veículos.

ME – Já existe cronograma para a primeira e a segunda fase?

Rodrigo – Temos internamente, em fase final de ajustes, pois ainda estamos negociando.
A planta, quando adquirimos, tinha 120 mil m². Estamos adicionando mais 480 mil m². A terraplanagem já está em andamento, e finalizamos projetos de uso da área alinhados ao potencial novo cliente. Já trabalhamos nas fases 2 e 3. A fase 2 inclui ampliar a planta de 120 mil para 600 mil m² ainda em 2026.

ME – Quais são os próximos marcos importantes?

Rodrigo – Os primeiros funcionários foram contratados e treinados nas plantas da GM e pelo nosso próprio time de engenharia no Ceará. Em dezembro, iniciamos a produção em menor escala — veículos já vendáveis, mas feitos em volume reduzido para multiplicação da mão de obra. Em janeiro, entramos no ritmo normal de produção. O próximo marco será o início da produção de um novo modelo ainda no primeiro semestre de 2026.

Rodrigo Teixeira ao lado do governador do Ceará, Elmano Teixeira, durante o Salão de Automoveis em São Paulo - Foto: Divulgação
Rodrigo Teixeira ao lado do governador do Ceará, Elmano de Freitas, durante o Salão de Automoveis em São Paulo – Foto: Divulgação

ME – Existe a ideia de capacitação com universidades locais? Como será formada a mão de obra que vai atuar na planta?

Rodrigo – A planta já nasce com uma parceria importante com o Senai local, com apoio da Federação das Indústrias e do Governo do Estado do Ceará. Sempre tivemos consciência do peso da educação no Ceará, um estado referência na área, mas foi uma agradável surpresa encontrar um alto nível de qualificação e comprometimento das pessoas. Nossa prioridade é contratar mão de obra do Ceará e da região Nordeste, com foco desenvolvimentista. Vamos ampliar essas parcerias à medida que a planta e o polo evoluírem, com novos convênios e com certeza atentos à inauguração do ITA (Instituto Tecnológico da Aeronáutica) no Ceará este ano. O ITA, junto ao Polo Automotivo do Ceará, pode ser uma das âncoras do desenvolvimento de tecnologia brasileira no setor de engenharia automotiva.

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