
A Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) iniciou por Alagoas o lançamento do programa NE 4.0, voltado à transformação digital da indústria e à adaptação regional de diretrizes da Nova Indústria Brasil. A indústria alagoana vem realizando um debate mais amplo sobre o reposicionamento da base produtiva, em um cenário de mudanças econômicas, avanço tecnológico e pressão crescente por competitividade.
Em evento realizado na Casa da Indústria, em Maceió nesta quarta-feira (6), o programa foi oficialmente lançado e tem como proposta aproximar indústria, universidades, instituições de ciência e tecnologia e entidades de representação empresarial para acelerar a adoção de ferramentas como inteligência artificial, automação, internet das coisas (iOT) eanálise de dados.
De acordo com a Sudene, depois de Alagoas, o cronograma prevê lançamentos em Sergipe, na próxima segunda-feira (11), e no Maranhão, no dia seguinte (12). Na sequência, o programa também será apresentado no Ceará, Rio Grande do Norte, Minas Gerais e Bahia. No fim do mês, chega a Pernambuco e ao Piauí.
O superintendente da Sudene, Francisco Alexandre, afirmou que o programa foi desenhado justamente para responder ao desafio imposto ao setor industrial de incorporar novas tecnologias para não perder espaço.
“Se a gente não pensar como é que desenvolve a nossa indústria, como desenvolvemos capacitação, treinamentos e absorve novas tecnologias, não traremos novas indústrias para a nossa região. Esse é um desafio da ordem do dia”, declarou.
A iniciativa será executada em parceria com a Universidade de Pernambuco (UPE), a Universidade Federal de Alagoas (Ufal) e a Federação das Indústrias de Alagoas (Fiea), com atuação nos nove estados do Nordeste e no norte de Minas Gerais. A expectativa é impactar diretamente mais de 500 pessoas e apoiar cerca de 20 indústrias, a partir de diagnósticos de maturidade digital, workshops, visitas técnicas, apoio especializado e elaboração de planos de ação alinhados às vocações produtivas de cada estado.
Setor industrial alagoano vive momento de reposicionamento
No caso de Alagoas, o lançamento do NE 4.0 foi apresentado como parte de um movimento mais amplo de reorganização econômica. O reitor da Ufal, Josealdo Tonholo, afirmou que o estado vive uma fase de transição tanto na indústria quanto no agronegócio e que esse contexto exige uma nova estratégia de desenvolvimento.
“É um momento de reposicionamento. No estado de Alagoas, não é diferente. A gente tinha uma empresa âncora, que catalisava uma série de ações, ainda continua catalisando lá do polo de Marechal, mas temos uma transição econômica em curso, tanto no setor industrial quanto no sistema agrícola do estado, e isso exige novas respostas”, disse.
Segundo Tonholo, esse movimento levou à identificação de cinco setores considerados estratégicos para o futuro da economia alagoana: construção civil, biotecnologia, turismo, energia alternativa e a cadeia de plástico, petróleo e derivados. Para ele, a discussão sobre indústria 4.0 precisa ser conectada a esses segmentos e à capacidade de o estado transformar conhecimento em competitividade.
O reitor também destacou que Alagoas chega a esse debate com algumas vantagens. “O estado de Alagoas hoje produz o dobro de energia do que consome. E nós temos uma energia verde, limpa. Cerca de 82% da matriz energética de Alagoas não tem origem no carbono, o que é muito importante do ponto de vista do posicionamento estratégico do estado e da capacidade de atração de negócios”, afirmou.

Nova indústria exige automação e ganho de competitividade
A leitura de que a indústria precisa se modernizar para sobreviver à nova disputa de mercado também foi reforçada pelo professor da Ufal Reynaldo Ferreira Júnior, que atua como ponto focal do programa em Alagoas. Para ele, falar de transformação digital já não é uma escolha opcional para a indústria, mas uma condição para sustentar produtividade, gerar valor e melhorar a qualidade dos empregos.
“Se queremos salário de qualidade e agregação de valor, teremos que ter uma indústria moderna. Não adianta fugir. Já se foi o tempo em que o concorrente estava no mesmo estado, do seu lado. Hoje ele está em qualquer lugar do mundo. Então, se você não tem capacidade de se diferenciar, de construir soluções e de se mostrar competitivo, não adianta”, afirmou.
Reynaldo avaliou ainda que o programa ajuda a recolocar a indústria no centro da agenda de desenvolvimento. “Perdemos um pouco esse contato da relevância da indústria. Se fala muito de serviço, mas não existe serviço de qualidade sem indústria de qualidade. Se quisermos desenvolvimento, modernização e agregação de valor, a indústria precisa voltar a ter protagonismo”, disse.
O presidente da Fiea, José Carlos Lyra de Andrade, reforçou o argumento, classificando o programa como um passo relevante para aproximar a política nacional da realidade regional.
“Ao adaptar à região Nordeste as diretrizes da Nova Indústria Brasil, conseguimos aproximar as estratégias nacionais da realidade local, respeitando nossas vocações e potencializando nossas capacidades. Trata-se de uma iniciativa estratégica, que dialoga diretamente com os desafios e as oportunidades da nossa indústria”, afirmou.
Programa tenta regionalizar política industrial
Durante o lançamento do NE 4.0 os especialistas e representantes da indústria reforçaram a necessidade de adaptar a Nova Indústria Brasil à realidade de cada território. A avaliação é que uma política nacional de indústria precisa ganhar leitura regional para funcionar de forma mais efetiva no Nordeste.
“É uma tentativa de adequação da NIB à questão territorial, à questão regional. A NIB foi pensada originalmente como uma política industrial para o Brasil, mas estamos em um país de dimensões continentais, que tem diferenças importantes. Então, esse núcleo favorece uma lógica de governança em rede, em que os gaps de cada estado vão ficando mais explícitos”, afirmou o professor Reynaldo Ferreira Júnior.
Na prática, o programa pretende fazer esse ajuste por meio de mapeamento de oportunidades e gargalos, construção de portfólios estratégicos por estado e apoio técnico para estruturação de projetos. O diretor de Planejamento da Sudene, João Farias, afirmou que uma das primeiras entregas esperadas é justamente um retrato mais detalhado da indústria local.
“A gente espera, ao longo do tempo, e daqui a três meses, ter um mapeamento mais estruturado a partir das seis missões da Nova Indústria Brasil. A partir disso, construir quais são as necessidades e quais são as estratégias mais adequadas para o estado de Alagoas”, disse.
Segundo ele, o programa também pode abrir caminho para ações mais específicas na indústria. “Poderemos pensar numa residência tecnológica para trabalhar indústria 4.0 e trabalhar mais fortemente algum tipo de linha de crédito para a inovação. O empresariado ainda não enxerga, em muitos casos, recursos muito baratos disponíveis para inovação e competitividade”, afirmou.
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