
O aumento recente no preço do diesel, impulsionado pelas tensões geopolíticas no Oriente Médio, já começa a acender alertas no setor de transporte e logística no Brasil. Para a indústria de implementos rodoviários, o combustível mais caro tende a pressionar os custos do frete e pode gerar efeitos em toda a cadeia de fornecimento, com impacto potencial sobre a inflação e o custo final de produtos.
Segundo o presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Implementos Rodoviários (Anfir), José Carlos Spricigo, o movimento de alta já é percebido no mercado, mesmo antes de eventuais reajustes mais amplos nas refinarias.
“Já notamos os preços da bomba e nos abastecimentos do diesel subindo de uma forma até inesperada, porque existiam reservas e eu pensava que isso não poderia não acontecer tão rapidamente, mas aconteceu. Claro que, trazendo os custos do diesel para cima, os fretes vão responder e isso impacta toda a cadeia de fornecimento, gerando inflação e preços ainda mais altos ao consumidor”, afirmou.
O avanço do diesel ocorre em meio ao aumento das tensões no Oriente Médio, que elevou o preço internacional do petróleo e ampliou preocupações sobre o fluxo de combustíveis no mercado global, especialmente diante das incertezas envolvendo o Estreito de Ormuz, rota estratégica para o transporte de petróleo.
Diesel mais caro pressiona custos do transporte
Para conter o impacto no mercado interno, o governo federal anunciou, na quinta-feira (12), a redução a zero das alíquotas de PIS e Cofins sobre o diesel, medida que representa uma diminuição de cerca de R$ 0,32 por litro. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva também pediu apoio dos governos estaduais para que avaliem a possibilidade de reduzir o ICMS sobre os combustíveis.
Já a Petrobras anunciou nesta sexta-feira (13) aumento de R$ 0,38 no preço do litro do diesel A vendido às distribuidoras, com vigência a partir deste sábado (14). O reajuste leva em conta a mistura de 85% de diesel A e 15% de biodiesel, o que é equivalente a R$ 0,32 por litro em cima do Diesel B que é comercializado nos postos.
Na avaliação de Spricigo, a iniciativa do governo federal é positiva, mas o esforço precisa envolver também os estados para reduzir o impacto sobre os custos logísticos.
“O que o presidente traz agora é uma atitude muito acertada, mas os estados também precisam embarcar nisso e reduzir seus impostos para que possamos atravessar esse período de transição com menos impacto negativo”, disse.
Apesar da pressão recente nos preços do diesel, o setor de implementos rodoviários ainda não projeta impacto imediato sobre as decisões de investimento das transportadoras ou sobre o ritmo de renovação da frota em 2026.
“Não acredito que deva haver um impacto de curto prazo agora. Esperamos que seja um conflito de curta duração. Caso se prolongue, aí sim poderemos ter efeitos maiores no médio prazo”, afirmou o dirigente.

Nordeste tem perfil logístico próprio
A avaliação da Anfir também indica particularidades no comportamento do mercado de implementos rodoviários no Nordeste. Na região, a demanda é mais concentrada em equipamentos da chamada linha leve, utilizados principalmente na distribuição urbana de mercadorias.
Esse perfil se reflete na participação regional nas vendas do setor. Em 2025, o Nordeste respondeu por 17,76% das vendas de implementos leves no país, com 13.891 unidades comercializadas, enquanto no segmento pesado a participação foi de 9,67%, com 6.865 equipamentos.
Entre os principais tipos de implementos pesados vendidos na região estão basculantes, carga seca, dolly, baú de carga geral e graneleiros. Já no segmento leve, os equipamentos mais demandados incluem baú de carga geral, carga seca, baú frigorífico, carga seca com guindaste e basculantes.
Outro diferencial da região é a presença de fabricantes voltados a operações de petróleo e gás em terra firme (onshore), especialmente ligados às atividades concentradas na Bahia e no Rio Grande do Norte.
Para a entidade, no entanto, o aumento dos custos logísticos provocado por fatores econômicos tende a afetar o mercado de forma semelhante em todas as regiões do país.
Setor ainda tenta recuperar ritmo
Os alertas sobre o diesel surgem em um momento em que a indústria de implementos rodoviários ensaia uma reação após um início de ano mais fraco.
Em fevereiro, foram emplacados 9.870 implementos no país, crescimento de 12,5% em relação a janeiro, quando o setor registrou 8.760 unidades.
Apesar da recuperação mensal, o desempenho ainda permanece abaixo do registrado no ano passado. No acumulado do primeiro bimestre de 2026, foram comercializados 18.630 implementos rodoviários, queda de 21,6% em comparação com o mesmo período de 2025.
Segundo a Anfir, a reação observada em fevereiro pode estar associada ao andamento da safra e a reflexos indiretos de políticas voltadas à renovação da frota de caminhões no país.
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