
O empresário recifense Leonardo Barbosa, que vive em Calgary, no Canadá, tem uma meta que mistura negócio e propósito: fazer da feijoada um prato semanal na mesa dos norte-americanos. À frente da Lead Foods, ele construiu uma operação que nasceu da saudade, se fortaleceu na superação pessoal e hoje atinge o mercado de todo o Canadá e Estados Unidos. Sua empresa produz carne seca e itens para feijoada em solo canadense e o e-commerce chega aos dois países.
Esta é a primeira reportagem da série “Nordeste pelo mundo”, que o Movimento Econômico inicia sobre empreendedores nordestinos no exterior que será publicada aos domingos.
“Nosso objetivo é que a feijoada entre na rotina das refeições do norte-americano. Que vire um prato comum, como qualquer outro aqui”, afirma o empresário.
Natural do Recife, Leonardo chegou ao Canadá em 2011 ao lado da esposa, Adriana, com o plano de empreender. Agrônomo de formação, sempre esteve ligado à produção de alimentos, uma relação que começou ainda jovem, entre fazendas e centros de abastecimento no Brasil.
Dois anos depois, fundou a Lead Grains of Canada, com foco na exportação de grãos brasileiros. O plano, no entanto, esbarrou em fatores externos. O prazo para obtenção de licenças e a instabilidade econômica no Brasil, no início do segundo mandato da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), inviabilizaram os primeiros contratos e interromperam a estratégia inicial da empresa. “Quando a licença finalmente saiu, foi justamente no período do impeachment. Os compradores recuaram e os negócios foram cancelados. Eu fiquei sem rumo”, relembra.

Uma virada que começou em casa
A ruptura nos negócios coincidiu com um momento pessoal decisivo. Em 2016, nasceu Oliver, filho do casal, com síndrome de Down e uma cardiopatia congênita. A notícia mudou completamente a dinâmica da família e o olhar de Leonardo sobre trabalho e vida. “Veio medo, angústia, aquela sensação de incerteza. Mas também veio a missão de que eu precisava estar presente”, conta.
Foi nesse período, entre consultas médicas e uma rotina reorganizada, que surgiu a ideia que daria origem ao novo negócio. A ausência de produtos brasileiros no Canadá, especialmente a carne seca, incomodava. “Quem é do Nordeste sente falta. É cultural, é afetivo. Não é só comida”, diz.
A primeira experiência aconteceu em maio de 2017, dentro de casa. Ele comprou um pedaço de carne no supermercado e, usando técnicas artesanais, fez o primeiro pedaço de carne seca. Ao provar, se sentiu transportado para o Brasil. Chamou alguns amigos para jantar e preparou um prato de charque acebolado.
O objetivo era pessoal, mas o resultado chamou atenção, revelando uma demanda latente entre brasileiros residentes no exterior e até entre consumidores locais curiosos por novos sabores.
“Quando coloquei o prato na mesa, foi uma loucura. Todo mundo perguntando onde tinha comprado. Foi ali que percebi que existia uma oportunidade”, relembra.

Da cozinha ao mercado
A partir dali, Leonardo mergulhou em uma rotina intensa de pesquisa. Foram mais de duas mil horas dedicadas a entender legislação, adaptar processos e viabilizar a produção dentro dos padrões sanitários canadenses. “Eu sabia que, se fosse fazer, tinha que ser da forma mais correta possível. Senão, não teria futuro”, diz.
Depois de cerca de 13 meses, veio a certificação federal que permitiu a produção em escala para o Canadá. Desde 2018, a empresa opera em um ambiente industrial supervisionado, com foco em qualidade e segurança alimentar.
A entrada nos Estados Unidos, em 2020, marcou uma nova etapa. Mesmo com dificuldades iniciais, o produto encontrou espaço, impulsionado, em parte, pelo contexto da pandemia. Com consumidores mais conectados às suas origens durante o isolamento social, a empresa ampliou sua base de clientes de forma consistente. “Muita gente ficou em casa e sentiu ainda mais falta da comida de origem. A gente conseguiu chegar nessas pessoas”, afirma.
Hoje, a Lead Foods vende online, está presente na Amazon e atende clientes em diferentes regiões da América do Norte. Mas é no contato direto com o consumidor que Leonardo diz encontrar a confirmação de que está no caminho certo.

A feijoada como estratégia e experiência
Uma das apostas mais recentes da empresa é o kit feijoada, pensado para facilitar o preparo e apresentar o prato a novos públicos. Em Calgary, Leonardo participa pessoalmente de ações de degustação em supermercados e acompanha de perto a reação dos consumidores. “Eu preparo a feijoada, sirvo e fico ali observando. A reação é impressionante”, conta.
Segundo ele, muitos canadenses provam pela primeira vez sem saber exatamente o que esperar e se surpreendem. “Eles dizem: ‘como é que eu vivi tanto tempo sem comer isso?’. Tem gente que volta para comprar na hora”, relata.
Entre brasileiros, a experiência costuma ser ainda mais emocional. “Já teve cliente que ficou em silêncio, só comendo. Depois disse que parecia que tinha voltado para casa. Isso não tem preço”, afirma.
A estratégia vai além da venda. É também uma forma de educar o mercado. “A gente explica como faz, como cozinha, como consumir. Porque não adianta só colocar na prateleira. Tem que contar a história”, diz.

Reconhecimento e próximos passos
Com cerca de 12 profissionais diretos e uma operação que combina produção própria e serviços terceirizados, a empresa já conquistou espaço relevante em plataformas digitais e vem ampliando sua presença no varejo. A trajetória também chamou atenção de autoridades locais. Leonardo foi convidado a representar o setor alimentício em eventos oficiais da província, incluindo agendas ligadas ao G7. “É um reconhecimento importante. Mostra que o trabalho está sendo visto”, afirma.
Agora, o foco é crescer. A empresa busca investidores para ampliar a produção, fortalecer o marketing e avançar para novos mercados, como Europa e Japão. Mas, para Leonardo, o principal segue sendo o propósito que deu origem a tudo. “A gente não vende só comida. A gente conecta as pessoas às suas melhores lembranças”, resume.
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