
Antes de assumir uma cadeira estratégica na área de novos negócios da Rio Ave, a engenheira civil Camila Ferreira da Costa decidiu fazer o caminho mais difícil. Em vez de entrar diretamente na empresa fundada pelo avô, escolheu sair do Recife, construir carreira no mercado financeiro em São Paulo e testar, longe do sobrenome, até onde conseguiria chegar por conta própria. Ela é o destaque da quinta matéria da série Novas Lideranças, que traz, a cada mês, um dos 12 integrantes do Conselho de Lideranças Familiares, da Cambridge Family Enterprise Group Regional Recife (CFEG Recife), numa parceria com o portal Movimento Econômico.
Entre reuniões no mercado financeiro paulista, mudanças de cidade, a construção da própria família e o retorno planejado para a empresa familiar, Camila Ferreira da Costa construiu uma trajetória marcada por uma palavra que aparece repetidamente em sua fala: preparação. Filha de Álvaro Costa, CEO da Rio Ave, ela cresceu frequentando canteiros de obras ao lado do pai. Os passeios de sábado pelas obras da empresa ajudaram a despertar cedo a curiosidade pelo setor imobiliário. Ainda adolescente, percebeu também outra característica que acabaria definindo sua escolha profissional: a afinidade com números. Camila é de exatas.
A decisão pela engenharia civil veio naturalmente. Camila entrou na Universidade Federal de Pernambuco em 2011 e, ainda durante a graduação, iniciou os primeiros estágios ligados ao universo da construção. Primeiro numa empresa de planejamento e orçamento de obras que prestava serviços para a Rio Ave. Depois, já na própria incorporadora. Foi justamente nessa primeira experiência dentro da empresa familiar que surgiu uma inquietação importante. Apesar da identificação com o negócio, ela sentia que ainda não estava pronta para construir uma trajetória própria dentro da companhia.
“Eu tinha muito receio do rótulo. Não queria ser conhecida apenas como a filha do CEO. Sabia que precisava ter bagagem e experiências que me dessem mais segurança profissional”, afirma. A decisão seguinte mudou sua vida. Pouco depois de formada, em 2017, Camila se mudou sozinha para São Paulo. Sem rede próxima de amigos e praticamente começando do zero, mergulhou no mercado financeiro. Primeiro, fez um curso voltado para a área. Depois, ingressou na gestora de crédito Captalys, onde permaneceu por mais de quatro anos.
A experiência, segundo ela, foi decisiva não apenas do ponto de vista técnico, mas principalmente pessoal. “O mercado financeiro é extremamente desafiador e muito masculino. Foi uma escola de inteligência emocional. Aprendi a me posicionar sem precisar perder minha essência”, conta.

Durante esse período, ela também cursou pós-graduação em gestão financeira no Insper e começou a desenvolver uma visão mais ampla sobre negócios, governança e estratégia empresarial. Ao mesmo tempo, vivia um processo de amadurecimento pessoal. Em São Paulo, construiu sua vida adulta, casou e consolidou uma carreira independente da empresa da família. Mas a conexão com o mercado imobiliário continuava presente.
Após a passagem pelo mercado financeiro, Camila decidiu migrar para uma proptech voltada ao setor imobiliário. O movimento representou uma reaproximação com o universo da incorporação e ajudou a amadurecer a ideia de um eventual retorno à Rio Ave. Esse processo, no entanto, não aconteceu de forma improvisada. Pelo contrário.
A partir de um plano estruturado de desenvolvimento de carreira realizado com apoio da Cambridge Family Enterprise Group (CFEG), Camila começou a discutir formalmente com a família e os sócios da empresa quais poderiam ser os caminhos para sua entrada na companhia. “Não foi uma decisão do dia para a noite. Houve muito planejamento, conversas e reflexão sobre onde eu poderia realmente agregar valor”, lembra.
O retorno ao Recife aconteceu há cerca de dois anos e trouxe desafios adicionais. O marido permaneceu inicialmente em São Paulo e, durante um longo período, ela viveu na ponte aérea entre as duas cidades.
Sua primeira missão foi assumir a reestruturação da área de patrimônio imobiliário da Rio Ave, responsável por uma carteira de mais de 600 imóveis. A experiência permitiu reorganizar processos e melhorar resultados da área, mas também revelou algo importante: seu perfil profissional estava mais conectado à dinâmica da incorporação e do desenvolvimento de novos negócios.
Pouco tempo depois, surgiu a oportunidade de migrar para a área de novos negócios da incorporadora – movimento que ela define como um reencontro com sua verdadeira vocação. “Foi onde eu realmente me encontrei. Eu gosto da dinâmica da incorporação, da construção de produtos, da interação com pessoas, da estratégia”, diz.
Hoje, Camila atua diretamente no core business da companhia e faz parte do grupo de integrantes da terceira geração da família que começam a ocupar espaços de liderança dentro da empresa. Para ela, um dos maiores aprendizados desse processo foi compreender que os diferentes papéis precisam coexistir com equilíbrio. “Eu nunca vou deixar de ser membro da terceira geração. Mas também preciso exercer meu papel como executiva. Quando consegui entender isso, as coisas começaram a fluir com mais naturalidade.”
A maternidade trouxe uma nova camada de complexidade à rotina. Mãe de um bebê de nove meses, Camila fala com naturalidade sobre os desafios de equilibrar carreira, maternidade e responsabilidades familiares – tema que aparece com frequência nas conversas do Conselho de Lideranças Familiares da Cambridge Family Enterprise Group (CFEG), iniciativa coordenada pela CFEG Regional Recife para desenvolver e conectar um grupo de jovens integrantes de famílias empresárias nordestinas.
“A maternidade me ensinou a ser menos dura comigo mesma. A entender que equilíbrio é essencial”, afirma. Ela conta que o retorno da licença-maternidade foi um processo intenso emocionalmente, especialmente pela necessidade de conciliar uma agenda executiva com a presença ativa na criação do filho. Ao mesmo tempo, diz que a experiência reforçou sua conexão com o trabalho e com os projetos que conduz na empresa. “Meu filho é minha prioridade. Mas também percebi o quanto amo o que faço.”
No Conselho de Lideranças Familiares da Cambridge, Camila encontrou um espaço de troca com outros herdeiros e sucessores de empresas familiares que vivem desafios semelhantes. Segundo ela, o principal ganho do grupo é justamente perceber que, apesar das diferenças entre empresas e histórias, muitas dores e dilemas se repetem. “Você percebe que todo mundo passa por conflitos, inseguranças e desafios parecidos. Essa troca é extremamente rica.”
Sobre o futuro, ela evita respostas prontas. Reconhece que existe uma expectativa natural sobre os integrantes da terceira geração, mas prefere construir a trajetória passo a passo. “Talvez um dia eu queira uma posição de CEO. Talvez não. O que eu procuro fazer é me preparar da melhor forma possível para qualquer decisão que venha no futuro.”
Mais do que uma sucessora em formação, Camila parece representar uma geração que enxerga a empresa familiar não como um destino automático, mas como uma escolha que exige preparo, construção de identidade própria e capacidade de equilibrar legado e transformação.
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