
O Nordeste captou US$ 265 milhões em fintechs, startups especializadas em serviços financeiros digitais, em 2025, distribuídos em quatro rodadas, e registrou a maior mediana de investimentos do país no setor: US$ 50,5 milhões, valor 685% acima da mediana nacional de US$ 6,4 milhões. Os dados são do relatório Panorama Regional das Fintechs, produzido pela Sling Hub em parceria com o Torq, hub de inovação da Evertec, empresa especializada em tecnologia para o setor financeiro, divulgado nesta quinta-feira (28).
O resultado coloca a região como destaque qualitativo em um cenário nacional de contração. O número total de rodadas em fintechs brasileiras caiu de 244 em 2021 para 106 em 2025, queda superior a 50%. O volume nacional chegou a US$ 2,77 bilhões, com o Sudeste concentrando 88,2% do capital e 85,9% das rodadas. A mediana elevada do Nordeste indica que, embora a frequência de operações ainda seja reduzida, os negócios realizados na região tendem a ser de maior escala.
O ecossistema nordestino reúne 130 fintechs ativas nos 9 estados da região, segundo levantamento do Torq. Pernambuco lidera com 31 empresas, seguido pelo Ceará com 29 e pela Bahia com 26. Sergipe aparece com apenas 8, o menor volume entre os estados mais populosos, mas com a maior concentração de capital captado em 2025. A participação da região no volume nacional foi de 9,6%, proporcionalmente superior à representatividade no número de empresas (6,2%), resultado direto do tamanho das operações da iCred.
Em 2021, o Nordeste registrou apenas US$ 20 milhões em 7 rodadas. O volume cresceu até US$ 599 milhões em 2023, correspondendo a 31,4% do total nacional, recuou para US$ 329 milhões em 2024 e chegou a US$ 265 milhões em 2025. O número de rodadas oscilou entre 7 e 10 no período 2021–2024, com queda para 4 em 2025, redução de 60% em relação ao ano anterior.

Amadurecimento do ecossistema de fintechs
Para Thiago Iglesias, gerente de Inovação da Evertec e head do Torq, o cenário não representa retração, mas amadurecimento do ecossistema. Segundo ele, a queda no número de rodadas associada à manutenção de volumes elevados indica mercado mais seletivo, concentrado em operações de maior escala e qualidade. O instrumento que melhor ilustra essa mudança é o FIDC: quatro das cinco maiores rodadas do Sudeste em 2025 utilizaram o modelo, incluindo as duas operações da CloudWalk, que somaram mais de US$ 1,3 bilhão e lideraram o ranking nacional.
O Sudeste segue como o centro gravitacional do setor no Brasil, com 1.498 fintechs ativas, 91 rodadas e US$ 2,44 bilhões captados em 2025. O Sul registrou 10 rodadas e volume de US$ 55,7 milhões, com mediana de US$ 9,1 milhões. O Nordeste, com apenas 4 rodadas, superou todas as regiões na mediana: US$ 50,5 milhões por operação, ante US$ 6,2 milhões do Sudeste e US$ 9,1 milhões do Sul. Centro-Oeste e Norte registraram, respectivamente, 1 e 0 rodadas no período, sem medianas calculáveis.
iCred, de Aracaju, conquista selo inédito
As duas maiores rodadas da região foram da iCred, fintech fundada em fevereiro de 2022 em Aracaju, Sergipe, pelos irmãos Túlio (CEO), Thiago (CTO), Júlio (CFO) e Pedro Matos (CSO). O modelo é centrado em crédito consignado do INSS e antecipação de FGTS, modalidades lastreadas em recursos federais com inadimplência estruturalmente baixa, intermediadas por rede de correspondentes bancários e sustentadas por plataforma com uso de inteligência artificial para análise cadastral e aprovação de crédito.
Em 2025, a empresa obteve a qualificação de Primary Servicer pela Fitch Ratings para securitização de consignado INSS e FGTS, tornando-se a primeira fintech do Brasil a conquistar o selo, segundo a empresa. As duas rodadas registradas pelo relatório Sling Hub/Torq foram um FIDC de US$ 215 milhões, coordenado pelo Itaú Asset Management e pela XP Investimentos, e um segundo FIDC de US$ 50,5 milhões. A projeção de carteira de crédito da iCred é de R$ 25 bilhões a R$ 30 bilhões para 2030, e a fintech contratou a Vinci Compass para buscar um investidor institucional com mandato inicial nos Estados Unidos.
Hubfi cresce no Recife e já projeta novas captações
As outras duas rodadas nordestinas têm origem em Pernambuco, estado com o maior número de fintechs ativas da região. A Hubfi, sediada no Porto Digital, em Recife, é uma plataforma multibanco focada no mercado imobiliário, fundada pelos sócios João Leal (CEO), Murilo Soares (CFO) e Ricardo Paz (CTO). O modelo conecta corretores e construtoras ao sistema financeiro, realizando o trabalho de backoffice, curadoria e frente comercial junto a bancos e instituições financeiras para facilitar o acesso a crédito, financiamento e consórcios. O corretor recebe as informações em tempo real via plataforma digital, sem precisar recorrer a múltiplas instituições. A empresa se define como a única plataforma multibanco fintech de intermediação do segmento imobiliário no Norte-Nordeste com atuação em nível nacional.
Em agosto de 2025, a Hubfi captou R$ 1,8 milhão em rodada liderada pelo Investidores.vc, com participação de 59 investidores da rede. “A gente faz todo o trabalho de backoffice, curadoria, frente comercial, todo o trabalho junto aos bancos e instituições financeiras”, disse Leal ao Movimento Econômico. Os recursos são destinados à tração do modelo de negócio, ao desenvolvimento de ferramentas de inteligência artificial e à expansão da base nacional de parceiros.
Leal avalia que o ecossistema de fundos do Nordeste ainda apresenta pontos de atenção para modelos fora do padrão tradicional. “A maioria dos fundos daqui acabam ainda sendo muito travados ao modelo mais convencional. Tem muita gente com muita ideia boa e com muita oportunidade, mas ainda falta amadurecimento do mercado de fundos aqui do Nordeste para potencializar as captações das startups daqui”, afirmou.
A Hubfi opera no modelo de take rate, repassando parte da comissão recebida das instituições financeiras aos clientes, o que, segundo o CEO, gerou dificuldades iniciais com fundos locais e institucionais de outros estados. “A resiliência do nordestino, a resiliência do Recife fez com que a gente não esmorecesse e tivesse essa captação como concluída”, disse.
A empresa projeta nova rodada de captação a partir de 2027. “A gente já projeta novas captações para continuar investindo em tração, tecnologia e inteligência artificial para conseguir que o nosso negócio se destaque e a gente consiga favorecer cada vez mais o ecossistema de novas startups aqui no Nordeste”, afirmou Leal.
FlowUP sem valores revelados
A quarta rodada nordestina foi da FlowUp, plataforma de gestão de equipes, projetos e financeiro no modelo SaaS, também sediada no Porto Digital, em Recife. Desenvolvida em 2015 pela Fast, empresa de software de gestão fundada em 2005, a FlowUp ingressou no Porto Digital em 2016 e recebeu investimento de P&D da FACEPE entre 2016 e 2019. Em 2021, passou a contar com apoio da AWS e da Microsoft. Em 2024, foi reconhecida como a startup que mais atraiu investimentos no Acelera Hub. Em 2025, registrou base de mais de 1.000 empresas clientes. Os detalhes financeiros da rodada não foram divulgados.
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