
Neste domingo, quem precisar do metrô para se deslocar no Grande Recife, ficará mais uma vez sem poder fazer a viagem. Desde 25 de agosto de 2024, o metrô deixou de circular aos domingos. A suspensão do serviço, anunciada pela Companhia Brasileira de Trens Urbanos (CBTU), foi justificada como necessária para a realização de manutenções corretivas nas linhas eletrificadas – Centro e Sul. Ao todo, já são 41 domingos sem operação.
Nove meses depois, as intervenções no metrô do recife seguem em andamento, mas sem previsão de término. O motivo, segundo a própria superintendência, é a falta de investimentos por parte do governo federal.
A paralisação afeta cerca de 50 mil usuários por domingo e só foi interrompida em datas específicas, como no período eleitoral e nos domingos de dezembro, atendendo a uma solicitação da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL).
Sem maquinário e sem repasse federal,
De acordo com a superintendente da CBTU Recife, Marcela Campos, a ausência de recursos tem comprometido o andamento das obras e impedido a definição de um cronograma de retorno.
“Não podemos estipular um prazo a partir do momento que a gente não tem investimento aportado para isso. Nós ampliamos essa janela de manutenção para que a gente possa ter uma qualidade de serviço durante a semana”, explicou.
Um dos principais entraves, segundo ela, é a falta de maquinário para a troca de trilhos e dormentes – estruturas utilizadas como base para os trilhos do trem. Com os equipamentos antigos e fora de operação, a maior parte do trabalho tem sido feita manualmente pelas equipes.
Ao todo serão realizadas as trocas de 62 mil dormentes apenas da Linha Sul do metrô do Recife e 6 mil dormentes da Linha Centro. As estruturas pesam cerca de 300 quilos, cada.

“Hoje praticamente tudo tem sido feito de forma braçal por não termos mais essas máquinas. Elas não estão operáveis, têm mais de 40 anos e são muito caras”, relatou.
A previsão inicial da superintendência é de que a substituição dos trilhos e dormentes do metrô do Recife seja finalizada em até 24 meses a partir do início das obras. No entanto, outros serviços, como a manutenção da rede aérea, ainda estão previstos, o que indica a permanência da suspensão dominical por tempo indefinido.
Metrô do Recife terá relatório técnico divulgado em setembro

Apesar das limitações, a CBTU promete apresentar em setembro de 2025 um relatório detalhado com tudo o que foi executado durante os períodos de manutenção dominical. A iniciativa busca dar transparência ao processo e esclarecer o estágio das intervenções.
As melhorias incluem troca de trilhos e dormentes, atualização de redes elétricas, aquisição de equipamentos para inspeção e manutenção de sistemas de energia. Ainda assim, parte do material necessário para o avanço das obras sequer chegou ao Recife.
Recursos federais foram anunciados, mas materiais chegam apenas no segundo semestre
Em outubro de 2024, o Governo de Pernambuco anunciou a liberação de R$ 136,1 milhões por meio do Novo PAC Seleções, voltados à modernização da infraestrutura do sistema metroferroviário. O valor inclui substituição de dormentes, melhorias em subestações de energia e renovação de estações.
As obras começaram pela estação Cavaleiro, com previsão de recuperar 14 km de trilhos até Joana Bezerra. Foram comprados 24 km de trilhos (o suficiente para renovar 12 km de via), ao custo de R$ 10,4 milhões. No entanto, o material só deve ser entregue no segundo semestre de 2025. No total, foram adquiridas 2,3 mil toneladas de trilhos – 1.365,13 toneladas destinadas a Pernambuco.
Outros investimentos incluem R$ 9 milhões em conversores de energia, R$ 8 milhões para instalação de novo painel elétrico e R$ 1,2 milhão em equipamento de ultrassom para inspeção de trilhos, rodas e eixos.
Concessão à iniciativa privada reforça cenário de abandono
Enquanto as obras seguem sem prazo definido, no dia 23 de maio o governo federal autorizou a concessão do metrô do Recife à iniciativa privada. Para a superintendente Marcela Campos, a medida simboliza o afastamento do poder público da responsabilidade direta pela recuperação do sistema.
“Já era algo esperado por nós. Mas a preocupação maior hoje da gente é que, independentemente do tempo disso [da concessão], a gente precisa da articulação das esferas, seja estadual ou federal, para que sejam garantidos aportes básicos”, declarou.
Ainda em novembro do ano passado, representantes do Governo Federal e do Sindicato dos Metroviários de Pernambuco (Sindmetro-PE) assinaram um acordo coletivo especial que garante a manutenção dos empregos dos servidores públicos efetivos que atuam no metrô do Recife em caso de concessão do sistema.
O Movimento Econômico procurou o Ministério das Cidades para falar sobre a falta de repasses ao metrô do Recife, mas até o momento não obteve retorno.
Paralisação aos domingos afeta rotina e lazer dos passageiros
O real impacto da paralisação do metrô do Recife aos domingos só pode ser mensurado por meio dos relatos de quem utiliza o transporte diariamente e se viu obrigado a recorrer ao sistema de ônibus coletivo da cidade para cumprir seus compromissos — uma necessidade que resultou no aumento dos custos para muitos trabalhadores.

É o caso de Jairo Oliveira, morador do bairro do Ipsep, na Zona Sul do Recife, que trabalha em Cavaleiro, no município de Jaboatão dos Guararapes, na Região Metropolitana. Nos dias em que o serviço de transporte ferroviário está em funcionamento, ele utiliza apenas uma linha de ônibus, pagando uma passagem do Anel A, no valor de R$ 4,30. O coletivo o leva até a integração do metrô em Afogados, de onde segue até a estação que leva o mesmo nome do bairro onde trabalha.
Aos domingos, no entanto, Jairo é obrigado a pagar duas passagens para chegar ao trabalho. O primeiro ônibus o leva até a estação de Afogados, e o segundo o deixa nas proximidades da estação de Cavaleiro. Ao todo, o custo chega a R$ 17,20 — quatro vezes mais do que ele gasta nos dias úteis. “Além de pagar duas passagens, também preciso me atentar ao tempo dos ônibus, que demoram muito. É mais custoso e mais desgastante”, relata.

A paralisação dominical também afeta quem utilizava o metrô para atividades de lazer nos fins de semana. É o caso da professora Patrícia Marilyn, usuária de cadeira de rodas, que costumava usar o transporte para ir até o centro da cidade e encontrar amigos. Ela saía da Estação Santa Luzia, no bairro da Estância, Zona Oeste do Recife, com destino à região central do município.
Segundo Patrícia, o metrô, ainda que operando de forma precária, oferecia mais segurança em comparação aos ônibus. “Os ônibus, além de demorarem muito mais, me chacoalham durante o trajeto por causa das vias irregulares. Para mim, que sou deficiente física, a falta de acesso ao serviço aos domingos dificulta bastante a mobilidade e o planejamento”, afirma.

Allison da Silva também é um dos usuários prejudicados com a paralisação do metrô aos domingos. Estudante de publicidade e morador do bairro do Ibura, na Zona Sul do Recife, ele relata que o acesso à região central da cidade — um dos principais pontos de lazer e turismo da capital — ficou mais complicado.
“Preciso usar dois ônibus para chegar até o centro do Recife. Além de tornar o trajeto bem mais difícil, o intervalo entre os coletivos também é um problema enfrentado por mim e por todos que querem se deslocar aos domingos”, reclama.
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