- Publicidade -

Crédito caro e garantias rígidas bloqueiam expansão industrial, aponta CNI

Sondagem CNI com 1.789 empresas revela: 31% usam crédito longo prazo para capital de giro. Pequenas empresas enfrentam maior restrição, com índice de acesso de apenas 37,6
- Publicidade -
indústria produção industrial produtividade CNI
Com juros elevados e acesso restrito, indústria abandona investimento estrutural. Pesquisa CNI revela que 31% das empresas usam crédito de longo prazo para despesas operacionais. Foto: José Paulo Lacerda/CNI

O uso de crédito de longo prazo pela indústria para financiar despesas operacionais atingiu 31% das empresas entre fevereiro e julho de 2025, segundo a Sondagem Especial nº 98 – Condições de Acesso ao Crédito, da Confederação Nacional da Indústria (CNI) publicada na sexta-feira (23). Esse padrão indica que empresas, especialmente pequenas e médias, estão desviando recursos destinados a investimento estrutural para manter o fluxo de caixa operacional — sinal de que o crédito de curto prazo ficou tão caro e inacessível que viraram para alternativas inadequadas ao seu porte e necessidade.

A pesquisa, realizada com 1.789 empresas entre 1º e 12 de agosto de 2025, cobre operações financeiras entre fevereiro e julho daquele ano. A amostra inclui 713 pequenas empresas, 637 médias e 439 grandes. A aplicação dos questionários foi realizada com o apoio da Associação Brasileira de Desenvolvimento (ABDE),

O resultado ilustra um quadro de restrição estrutural ao financiamento produtivo nacional — tendência que se agrava em regiões onde predominam pequenas e médias indústrias e a densidade de instituições bancárias é menor. Esse é o padrão comum no Nordeste, onde a base industrial se concentra em alimentos, têxteis, processamento mineral e energias renováveis.

Juros elevados e garantias reais formam dupla restritiva

As duas principais dificuldades apontadas pelas empresas com problemas de acesso ao crédito são taxas de juros elevadas — mencionadas por 80% das empresas que tiveram restrição no curto ou médio prazo e 71% no longo prazo — e exigência de garantias reais, citada por 32% em ambos os casos. A combinação desses dois fatores cria bloqueio duplo: mesmo que uma empresa consiga aprovar um empréstimo, o custo fica proibitivo; e mesmo que aceite o custo, não dispõe de bens imóveis ou móveis que atendam às exigências bancárias.

Para estados nordestinos, essa restrição é particularmente severa. Imóveis industriais na região possuem menor liquidez e valor de mercado médio inferior ao verificado em polos industriais do sul-sudeste. Resultado: empresas que em outras regiões conseguiriam usar patrimônio como garantia ficam bloqueadas. A pesquisa da CNI não traz recorte regional específico, mas o padrão é claro: pequenas empresas registram o pior índice de facilidade de acesso ao crédito, com 37,6 pontos em escala de 0 a 100 (valores abaixo de 50 indicam dificuldade). Médias empresas marcam 39,8 pontos e grandes, 42,0.

Quando a análise por porte é detalhada, a disparidade se aprofunda. No crédito de curto ou médio prazo, a taxa de frustração entre pequenas empresas é de 21%, contra 26% para médias e 16% para grandes. No longo prazo, a diferença se intensifica: pequenas apresentam 37% de frustração, médias 43% e grandes 27%. Isso indica que quanto menor a empresa, maior a dificuldade de acessar capital, especialmente em prazos estendidos.

Capital de giro desvia recursos de investimento estrutural

O desvio de crédito de longo prazo para despesas operacionais não é isolado. Capital de giro domina a demanda geral por crédito entre pequenas e médias empresas — citado por 59% das que contrataram, renovaram ou buscaram financiamento de curto ou médio prazo e 31% das que buscaram longo prazo. Esse padrão significa que essas empresas estão usando crédito para sustentar fluxo de caixa operacional, não para investimentos estruturais de modernização ou expansão.

“O fato de boa parte das empresas industriais tomarem crédito de longo prazo para capital de giro mostra que o crédito de curto prazo, provavelmente, está muito caro e que as demais condições, como a exigência de garantias, estão muito desfavoráveis. Por isso, as empresas acabam buscando usar o crédito de longo prazo para atender a necessidades do dia a dia”, avalia Maria Virgínia Colusso, analista de Políticas e Indústria da CNI. A realidade traduz-se em cenário onde o setor está mais focado em sobreviver em meio aos juros elevados e outros desafios do que em investir para garantir crescimento contínuo no futuro.

Investimento em máquinas e equipamentos, a segunda finalidade, é citado por 30% das empresas que buscaram crédito de longo prazo. Mas entre pequenas empresas, é mencionado por apenas 27%, contra 36% das grandes. Essa diferença revela o padrão: quanto menor a empresa, menos ela consegue acessar crédito para modernização produtiva. No Nordeste, onde a modernização industrial avança em ritmo inferior ao da média nacional, o cenário reforça um risco estrutural: a região depende fortemente de crédito direcionado.

Bancos de desenvolvimento ganham relevância, mas cobertura permanece limitada

Quando as empresas buscam crédito de longo prazo, 51% recorrem a bancos comerciais tradicionais como primeira fonte. Mas a segunda fonte mais citada é os bancos de desenvolvimento — BNDES, Banco do Nordeste, Banco da Amazônia e bancos regionais — mencionados por 30% das empresas. No curto ou médio prazo, essa participação cai para 20%, reforçando que esses bancos são percebidos como opção para financiamentos estruturados.

Para o Nordeste, essa dependência de crédito direcionado é crítica. O Banco do Nordeste e o BNDES são as principais alavancas de financiamento industrial na região. Porém, a concentração também representa fragilidade: quando esses bancos contraem oferta ou quando a taxa Selic sobe — como ocorreu até junho de 2025, chegando a 15% ao ano — o impacto é imediato e não há alternativa bancária comercial abundante para substituição.

Cooperativas de crédito aparecem como alternativa secundária, mencionadas por 16% das empresas no crédito de curto ou médio prazo e 14% no longo prazo. Embora ainda marginal frente aos bancos comerciais, representam opção relevante, especialmente para pequenas e médias empresas industriais, uma vez que oferecem condições menos rígidas de acesso. Fintechs, factoring, captação no exterior e mercado de capitais combinados não ultrapassam 10% das menções, indicando que a diversificação de fontes de financiamento permanece limitada.

IOF cria novo obstáculo: 32% das empresas alteraram decisão de crédito

Um dado recente agrava o cenário: o aumento do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras), instituído pelo Decreto 12.499/2025, impactou decisões de crédito de 32% das empresas industriais. Desse contingente, 16% desistiram completamente de contratar ou renovar crédito, e outros 16% reduziram o valor solicitado. Apenas 33% das empresas mantiveram sua decisão de contratação ou renovação sem alteração. Esse resultado mostra que a alíquota adicional do IOF funcionou como desincentivo imediato, reduzindo ainda mais a demanda por financiamento já comprimida por juros elevados.

Uma modalidade de crédito que poderia oferecer alternativa — o risco sacado, operação de antecipação de recebíveis com menor taxa — permanece pouco explorada. Apenas 13% das empresas contrataram essa modalidade nos 12 meses anteriores à pesquisa, e apenas 5% declararam intenção de contratar nos 12 meses seguintes. O elevado percentual de 29% que não souberam ou preferiram não responder reforça a percepção de que esse instrumento é ainda pouco conhecido ou compreendido no meio empresarial. Sem divulgação adequada ou sem acesso facilitado, a modalidade permanece subutilizada como alternativa ao crédito tradicional.

Endividamento revela padrão diferenciado por porte

Quase um quinto (18%) das empresas afirmaram estar acima do nível ideal de endividamento no momento da pesquisa, sendo 5% em situação considerada crítica (muito acima do limite desejável). Por outro lado, quase um quarto (23%) afirmaram não ter dívidas. Um quarto (25%) declarou estar no limite desejável de endividamento.

Ao analisar por porte, o padrão se diferencia. 30% das pequenas empresas afirmaram não possuir dívidas — percentual superior ao verificado entre médias (24%) e grandes (19%). Além disso, 11% das pequenas declararam estar abaixo ou muito abaixo do limite desejável de endividamento, proporção que aumenta para 15% nas médias e 17% nas grandes. Em contrapartida, 17% das pequenas afirmaram estar acima ou muito acima do limite desejável, enquanto esse percentual é de 16% entre médias e 19% entre grandes.

Essa diferença reflete restrições de acesso ao crédito enfrentadas pelas empresas de menor porte. Pequenas empresas recorreram menos ao mercado de crédito — não necessariamente por opção, mas por limitações de financiamento impostas por garantias insuficientes ou custos proibitivos. O resultado é menor nível de endividamento, que pode parecer saudável em números absolutos, mas mascara um problema: a empresa não está crescendo porque não consegue financiar expansão.

Redução de custos tributários é prioridade número um

Quando perguntadas sobre as melhores alternativas para lidar com o problema de crédito, as empresas que buscaram recursos e enfrentaram dificuldades apontaram medidas que simplificam e barateiam o acesso. Reduzir os custos tributários e administrativos sobre o crédito foi a alternativa mais apontada — 49% das empresas no curto ou médio prazo e 39% no longo prazo. Isso inclui redução do IOF e outras alíquotas que oneram a operação.

Em seguida, aparecem como prioridades ampliar as linhas públicas de crédito (32% no curto ou médio prazo e 31% no longo prazo) e simplificar as exigências impostas pelas instituições financeiras (29% no curto ou médio prazo e 32% no longo prazo). Medidas relacionadas à flexibilização de garantias e ao fortalecimento de programas públicos de garantias também são citadas, mas com menor intensidade (17% e 15%, respectivamente). Alternativas para estimular a concorrência bancária, ampliar a atuação das fintechs ou desenvolver o mercado de capitais aparecem com participação marginal.

Leia mais: Pequenos negócios têm até dia 30 para renegociar dívidas com a União

- Publicidade -
- Publicidade -

Mais Notícias

- Publicidade -