
A presença crescente de mineradoras estrangeiras no Nordeste do Brasil confirma a região como nova fronteira de exploração mineral em escala global. Gigantes do setor, como a canadense Aura Minerals e a ValeOre Metals, intensificam seus aportes no semiárido nordestino, atraídas pela diversidade geológica e pelas perspectivas econômicas de longo prazo. A aquisição da South Atlantic Gold pela ValeOre para atuação no Ceará e o avanço da Aura no projeto Borborema, no Rio Grande do Norte, ilustram o novo ciclo de investimentos no subsolo da região.
Impulsionado pela valorização de commodities estratégicas, como o ouro — que acumula alta de 23% em 2024 e ultrapassou os US$ 3.500 a onça-troy [equivalente a 28,35 gramas] nesta segunda-feira (5) — o interesse internacional na mineração nordestina vai além da geologia. Pesam na equação fatores geopolíticos recentes, como o tarifaço implementado pelo ex-presidente Donald Trump em 2025, que abalou cadeias de suprimento e acentuou a busca por ativos físicos de reserva.
Com a desconfiança no dólar e a expectativa de cortes nos juros dos EUA, o ouro se tornou uma “âncora de confiança” para investidores, aumentando ainda mais o apetite por projetos minerários. Enquanto isso, o Nordeste se consolida como uma das fronteiras mais estratégicas para o setor, combinando recursos naturais abundantes e um ambiente favorável para investimentos internacionais.
Mas não é só o ouro que desperta o interesse das mineradoras pelo Nordeste. A região possui reservas relevantes de gipsita (gesso), sal-gema, cromita, titânio, fosfato, ferro, níquel, cobre, chumbo e zinco. Também têm importância as rochas ornamentais e os minerais industriais, como calcário e bentonita. E ainda diamantes.
Na Bahia, a região de Santo Inácio, distrito de Gentio do Ouro — identificada no histórico Manuscrito 512 como uma “cidade perdida” — retorna ao mapa da mineração com o projeto Diamante de Santo Inácio, leiloado pelo Serviço Geológico do Brasil. A vencedora foi a A.S.X. Mineração Ltda, de origem maranhense, com resultado publicado no Diário Oficial da União em 3 de dezembro de 2024. Além da jazida baiana, a empresa arrematou área mineral na cidade de Natividade (TO), onde há estimativa de 724 mil toneladas de ouro.

Ouro potiguar pode gerar até US$ 5,6 bi em lucros
No Rio Grande do Norte, o projeto Borborema da Aura Minerals envolve um investimento de US$ 188 milhões para três concessões de lavra mineral em uma área de 29 km², com capacidade de produzir 815 mil onças de ouro ao longo de 11,3 anos. Segundo o estudo de viabilidade, apenas no primeiro ano deverão ser extraídas entre 33 mil e 40 mil onças.
Em 2023, a empresa identificou a possibilidade de expansão: um grande depósito com mais de dois milhões de onças foi localizado em uma área já pertencente à mineradora, atravessada pela BR-226, próximo a Currais Novos.
Caso o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) autorize a liberação da estrada, a produção poderá dobrar, saltando de 815 mil onças para 1,6 milhão de onças de ouro — o que, considerando a cotação atual de cerca de US$ 2.670 por onça-troy, representaria até US$ 5,6 bilhões em lucros. O Projeto Borborema apresenta uma taxa interna de retorno (TIR) pós-impostos de 41,8% em base desalavancada e de 81,4% quando alavancada em 50%, considerando o preço do ouro a US$ 3,315.57 por onça.
Esses números ainda não contabilizam o potencial adicional de crescimento das reservas, especialmente após a possível realocação da estrada.

Avanço da ValeOre Metals no Ceará
Além do projeto Borborema no Rio Grande do Norte, o Nordeste brasileiro também desponta no cenário internacional com a recente movimentação da mineradora canadense ValeOre Metals. A empresa anunciou a assinatura de um acordo para adquirir 100% das ações da South Atlantic Gold, também com sede no Canadá.
Essa operação terá impacto direto em projetos de exploração de ouro, platina, paládio e outros minerais preciosos no sertão do Ceará, abrangendo os territórios de Pedra Branca, Mombaça e Tauá. Esse foi o primeiro projeto de exploração comercial de ouro na história do Estado, iniciado em 2021.
Segundo comunicado da ValeOre, o objetivo é criar um distrito mineral de 100 mil hectares no interior cearense. O negócio unificará os projetos de Pedra Branca sob uma mesma estrutura corporativa, aumentando a escala, a viabilidade econômica e o potencial exploratório da região.
A operação envolverá a incorporação da South Atlantic pela ValeOre, por meio da subsidiária ValOre Subco, em uma transação já aprovada por unanimidade pelos conselhos das duas companhias. Após a conclusão, a nova empresa (Amalco) será integralmente controlada pela ValeOre.
“Estamos muito animados para iniciar os programas de exploração nas áreas combinadas e expandidas do projeto Pedra Branca, uma vez concluído o acordo”, afirmou Jim Paterson, presidente e CEO da ValeOre, em nota oficial.
A efetivação da transação ainda depende da aprovação dos acionistas da South Atlantic, em assembleia prevista para maio.
O projeto Pedra Branca é dividido em duas frentes principais: Pedra Branca PGE (platina e elementos associados) e Pedra Branca Au (ouro). Ambos estão situados em uma área estratégica e já possuem recursos identificados por estudos técnicos independentes. A nova configuração proporcionará à ValeOre uma área contínua para desenvolvimento mineral no sertão cearense, fortalecendo o objetivo de transformar Pedra Branca em uma referência nacional na mineração de metais preciosos.
O avanço desse novo polo mineral pode gerar mais de mil empregos nos próximos anos, reforçando o impacto socioeconômico do setor. A South Atlantic já havia investido pelo menos R$ 15 milhões em pesquisas minerais na região.
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