
O mercado brasileiro de armazenamento de energia por baterias começa a ganhar contornos mais concretos como uma das novas fronteiras de investimento em infraestrutura. Impulsionado pela expansão acelerada das fontes solar e eólica e pela necessidade de dar mais flexibilidade ao sistema elétrico, o segmento pode atrair mais de R$ 57 bilhões nos próximos dez anos, segundo projeção da consultoria Deloitte até 2035.
A estimativa parte da demanda de aproximadamente 1,7 GW no primeiro leilão de capacidade para sistemas de armazenamento e considera a realização de leilões anuais ao longo do período.
Dois movimentos recentes ajudam a explicar o novo momento: a regulamentação aprovada pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e a previsão do primeiro leilão exclusivo para sistemas de armazenamento, que deve ocorrer em dezembro deste ano. Juntos, esses marcos são vistos pelo setor como fundamentais para reduzir incertezas, criar referências econômicas e destravar investimentos.
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Para Renato de Castro, sócio do Almeida Prado Hoffmann Advogados e especialista em energia e infraestrutura, o Brasil reúne condições para se tornar um dos principais mercados globais de armazenamento. “O mercado brasileiro de armazenamento de energia ainda está em estágio inicial, mas a rápida expansão das fontes renováveis cria uma demanda crescente por soluções capazes de conferir maior flexibilidade, segurança e eficiência ao sistema elétrico”, afirma.
A entrada das baterias na matriz elétrica responde a um desafio crescente: a intermitência da geração renovável. Como a produção solar e eólica depende das condições de sol e vento, o sistema precisa de mecanismos capazes de equilibrar oferta e demanda ao longo do dia. Sem essa flexibilidade, parte da energia produzida pode ser desperdiçada com interrupções do sistema, fenômeno conhecido como curtailment.
“As baterias funcionam como um verdadeiro colchão energético. Elas armazenam a energia excedente nos momentos de maior geração e a devolvem à rede quando a demanda aumenta ou a produção renovável diminui”, explica Castro.
Segundo dados da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), o PDE 2034 prevê, no horizonte decenal, expansão de 15,5 GW em eólicas, 13,1 GW em usinas fotovoltaicas centralizadas e 27,3 GW em geração distribuída. Esse avanço reforça a necessidade de maior flexibilidade no sistema elétrico, abrindo espaço para soluções de armazenamento de energia. Já nas projeções do PDE 2035, a EPE indica que o Brasil pode incorporar cerca de 7 GW em armazenamento de energia e outros 3 GW em mecanismos de resposta da demanda até 2035.
Na avaliação do especialista, a regulamentação da Aneel representa um divisor de águas porque estabelece regras para autorização, conexão, operação e remuneração dos sistemas de armazenamento. Entre os pontos mais relevantes está a definição de que a tarifa de uso da rede será cobrada apenas no momento da descarga da energia, no caso dos sistemas integralmente despachados pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), evitando a dupla tarifação.
“Essa medida aumenta a viabilidade econômica dos projetos e cria os sinais necessários para a estruturação de novos modelos de negócio”, afirma Renato de Castro.
Outro marco é a Portaria Normativa MME nº 136/2026, que definiu as diretrizes para o primeiro Leilão de Reserva de Capacidade voltado exclusivamente a sistemas de armazenamento. Para o setor, o certame deve funcionar como referência para preços, remuneração e estruturação de futuros projetos.
Menores custo e impacto ambiental
O avanço das baterias também pode reduzir a necessidade de acionamento de usinas termelétricas nos horários de maior consumo. Como essas usinas costumam ter custo mais elevado e maior impacto ambiental, o armazenamento de energia renovável pode contribuir para reduzir emissões, aliviar congestionamentos na rede de transmissão e aumentar a confiabilidade do Sistema Interligado Nacional.
“As baterias ampliam a capacidade de resposta do sistema diante de oscilações de demanda, eventos climáticos extremos e variações na geração renovável. Elas serão fundamentais para garantir a segurança energética do país”, destaca Castro.
Desafio da produção de baterias
Apesar do potencial, o Brasil ainda enfrenta desafios para consolidar esse mercado. A queda no preço das baterias de íons de lítio aumentou a competitividade dos projetos, mas a dependência de equipamentos importados continua elevada. Para Renato de Castro, o país precisa aproveitar o avanço regulatório para desenvolver também uma política industrial voltada à produção local de baterias, inversores e sistemas de controle.
A corrida é global. Países como Chile, Estados Unidos e Austrália já avançaram na adoção de sistemas de armazenamento, combinando marcos regulatórios claros com mecanismos de remuneração dos serviços prestados pelas baterias ao sistema elétrico.
Para o especialista, o armazenamento tende a se consolidar como um dos pilares da nova economia de baixo carbono. “Se o Brasil atrasar a estruturação desse mercado, corre o risco de perder oportunidades de desenvolvimento tecnológico, industrial e de atração de investimentos. O momento de construir essa agenda é agora”, afirma.
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