
O Brasil desperdiçou, este ano, cerca de 20,6% da energia limpa que poderia ter sido produzida por causa dos cortes de geração que provocaram uma perda de receita estimada em R$ 6 bilhões para usinas eólicas e solares, instaladas principalmente no Nordeste, segundo o estudo da consultoria Volts Robotics. O levantamento faz um balanço dos cortes de geração que bateram recorde em 2025 e diz também que mudanças de hábito de consumo poderiam contribuir para reduzir os cortes de geração.
Ainda de acordo com o estudo, os brasileiros deveriam consumir mais energia pela manhã, começo da tarde e principalmente nas manhãs dos domingos. É justamente nestes horários que ocorrem o excedente da geração de energia, por vários motivos, como: uma maior geração das usinas solares – incluindo os sistemas de geração distribuída, aqueles formados por pequenos sistemas de geração, como os fixados nos telhados das casas. Essa maior geração das usinas solares fotovoltaicas ocorre até as 14 h diariamente.
Entre os usos que podem ser transferidos, para manhã e começo da tarde, estão a máquina de lavar, secadora, lavalouças, ferro de passar, forno elétrico, air fryer, fogões elétricos e a recarga de veículos elétricos. O estudo também cita o uso diurno de bombas de piscina, aquecimento elétrico de água fora do início da noite e pré-resfriamento de ambientes com ar-condicionado.
A concentração desses consumos em horários de sobra de energia ajudaria a aliviar os cortes de geração, porque haveria um maior consumo no horário em que é produzido mais energia. Os cortes de geração ocorrem ou por falta de linhas de transmissão para escoar a energia do Nordeste para o Sudeste ou quando a geração é muito maior do que o consumo num determinado horário ou os dois fatores juntos. Os cortes são definidos pelo Operador Nacional do Sistema (ONS).
Cortes de geração atingiram 22% da geração renovável em novembro
Somente em novembro de 2025, mais de 22% da geração renovável foi cortada. Ou seja, deixou de ser produzida por causa dos cortes de geração. Agosto, setembro e outubro registraram recordes consecutivos nos cortes de geração, com outubro alcançando cerca de 8.000 MW médios de cortes. Isso corresponde a produção média da hidrelétrica de Itaipu, uma das maiores do mundo.
Os cortes também se concentraram em dias e horários específicos ao longo de 2025. O Brasil teve pelo menos 16 dias críticos no ano, com mais de 80% da geração renovável cortada no fim das manhãs, segundo o estudo.

O excesso de geração traz risco de apagão
O estudo cita que caso os cortes atingissem 100% das renováveis e ainda existissem as sobras de geração, o sistema poderia entrar em colapso. Ou seja: poderia ocorrer um apagão. O sistema elétrico foi projetado para receber uma certa quantidade de energia. Quando excede muito o previsto, podem ocorrer colapsos.
Em 2025, os domingos pela manhã foram os momentos mais sensíveis, com risco de apagão por excesso de geração, inclusive por causa da geração distribuída (GD), aquela em que a energia, geralmente, é produzida por pequenas usinas solares fotovoltaicas, como os existentes nos telhados das casas. A energia da GD entra direto no sistema elétrico nacional e não passam pelos cortes de geração.
De acordo com a Volts Robotics, o caso mais emblemático ocorreu em 10 de agosto de 2025, um domingo, Dia dos Pais, quando praticamente toda a geração centralizada – a renovável das usinas médias e grandes – foi cortada. Os impactos dos cortes se concentraram mais no Rio Grande do Norte, Ceará e em Minas Gerais.
Em novembro, os cortes de geração diminuíram, principalmente comparando com outubro último. Segundo o estudo, parte da redução dos cortes decorre de condições naturais da geração, e não apenas da ação operacional, como “o fim da safra dos ventos e a retração da geração eólica, diminuindo a referência do que poderia ser gerado.
O estudo também cita que o o desafio do setor elétrico é transformar a reação emergencial em política inteligente, planejamento constante e evolução regulatória sólida para proteger o sistema, o consumidor e o futuro energético do país. E complementa: “Desperdiçar energia limpa não é apenas ineficiência. Curtailment recorrente e sem regras claras afeta financiadores, encarece projetos futuros, gera insegurança jurídica, ameaça a continuidade do ciclo virtuoso de investimentos em energia limpa e compromete a transição energética”. E isso significa “desperdiçar oportunidade, competitividade, desenvolvimento e, no limite, o próprio futuro”. E, para o Nordeste, pode comprometer inviabilizar a expansão da energia renovável na região.
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