
O acordo fechado entre a União Europeia (UE) e os Estados Unidos, na semana passada, poderá contribuir para acelerar o processo de um acordo comercial que vem sendo negociado entre o Mercado Comum do Sul (Mercosul) e o bloco econômico europeu, segundo o ex-senador e ex-ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Armando Monteiro Neto. Ele também foi presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI). “Com o tarifaço de Trump, as lideranças dos principais países da Europa vão entender que precisam ter um olhar, a médio prazo, para ampliar esta rede de apoio com mais acordos comerciais”, comenta.
Formado pelo Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, o Mercosul vem negociando um acordo comercial com a União Europeia desde o começo dos anos 2000. O tarifaço anunciado por Trump podia impactar uma parte das exportações do bloco europeu aos EUA, que movimenta cerca de US$ 700 bilhões por ano.
O acordo comercial realizado entre os EUA e a UE fixou em 15% a taxação de grande parte dos produtos que o bloco europeu exporta para os EUA. No entanto, o acordo também tem uma lista de exceção e outros bens que vão receber uma taxação maior. Antes do acordo, Trump tinha anunciado que a maioria dos produtos exportados pelo bloco europeu – aos Estados Unidos – iria receber uma taxação de 30%.
“O que caracteriza esta crise do tarifaço de Trump é que, cada dia, tem um movimento. Há um terremoto e as placas tectônicas ainda estão em movimento. É difícil fazer uma avaliação mais completa”, comenta o ex-senador, argumentando que a instabilidade criada pelas medidas anunciadas por Trump vão fazer os grandes parceiros comerciais dos EUA, como os países da União Europeia, ficarem atentos a outros mercados. “E o mercado do Mercosul não é desprezível”, afirma o ex-senador.
Segundo o ex-ministro, as consequências negativas que podem surgir para o Mercosul e Brasil como consequência do acordo UE-EUA são condições preferenciais de acesso concedidas aos Estados Unidos pela União Europeia em produtos que o Brasil é competitivo, como por exemplo o de grãos. “Os EUA concorrem com o Brasil na produção de grãos e pode reivindicar um acesso preferencial ao mercado europeu dentro deste acordo iniciado”, explica Armando. Isso faria os grãos, como a soja americana chegar ao mercado europeu de forma mais competitiva do que o mesmo cereal produzido no Brasil.
E, por último, Armando fala que o alcance dessa negociação envolve muitas dimensões e “não há como dizer como será o final diante desta complexidade”. Os EUA estão fechando acordos comerciais com vários países, estabelecendo novas taxas para os produtos comprados pelos americanos e isso influencia o mercado como um todo.
“Esta crise com os EUA vão empurrar também o Brasil na direção de depender menos do mercado americano. Na exportação de bens manufaturados, o Brasil tem uma dependência dos EUA. Já com relação a venda de commodities, o Brasil tem uma dependência da China. O país pode olhar também a América do Norte, ampliando negócios com o México e o Canadá, que também têm sido penalizados com tarifas altas pelos EUA”, conclui o ex-senador.
E, por último, Armando diz que a indústria brasileira precisa se reinserir, ter mais presença no mercado internacional com mais acordos comerciais. “No fundo, esta crise vai nos servir para compreender que o Brasil precisa se abrir mais, ampliar as redes de acordos comerciais e diminuir a dependência de alguns mercados”, conclui.

Consequências do acordo EUA-União Europeia
O gerente de política industrial da Federação das Indústrias do Estado de Pernambuco (Fiepe), Maurício Laranjeira, diz que um dos efeitos que podem surgir como consequência do acordo entre os EUA e a UE é um desvio do comércio. “Isso significa que os Estados Unidos e o bloco europeu dariam preferência mútua para os produtos que podem ser comprados e vendidos entre eles”, explica o executivo.
Isso ameaçaria a exportação de alguns setores brasileiros que vendem para estes mercados como frutas – por exemplo a manga -, calçados, têxtil e maquinário. “É um ponto a se observar”, revela.
Os Estados Unidos também estão negociando com a Índia que produz também frutas, como a manga, e açúcar. “Se for fechado um acordo EUA-Índia com tarifas mais baratas do que as que serão cobradas aos produtos brasileiros, pode ser uma ameaça aos produtores brasileiros e aos do Mercosul”, comenta. Pelo que foi divulgado até agora, o açúcar indiano vai pagar uma tarifa de 25%, quando entrar nos EUA.
“Também pode ocorrer um aumento das barreiras comerciais exigidas aos produtos brasileiros para aumentar o comércio entre os EUA e UE”, revela Maurício. Para ele, o acordo União Europeia-Estados Unidos tornam os países periféricos mais periféricos.
Maurício argumenta que pode ocorrer fugas de investimentos do Brasil, “caso o acordo fechado entre a UE e o Estados Unidos estabeleçam que os americanos devem fazer investimentos na Europa e os europeus nos Estados Unidos”. Muitas empresas que investem no Brasil são americanas e europeias.
Pelo que foi divulgado até agora, a União Europeia se comprometeu a comprar US$ 750 bilhões em produtos energéticos dos EUA (gás, petróleo, tecnologia nuclear) nos próximos três anos e fazer investimentos de US$ 600 bilhões em empresas americanas entre 2028 e 2029.
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