
Quando o pinscher Guga morreu, após nove anos convivendo com a família da analista de marketing Giovanna Simões, a dor do luto do pet foi semelhante à perda de um parente próximo. O cachorro acompanhou o crescimento do filho do casal, participou da rotina da casa e deixou um vazio difícil de explicar. Diante da perda, a família decidiu recorrer a um serviço de cremação e realizar uma cerimônia de despedida.
“Eu queria dar uma despedida digna porque ele era muito importante para nossa família. A cerimônia de entrega das cinzas ajudou até meu filho a entender que Guga não voltaria mais do hospital. Foi um momento de encerramento que trouxe acolhimento para toda a família”, conta.
A experiência da funcionária pública Nívia Gouveia revela que essa preocupação já faz parte da realidade de muitas famílias brasileiras. Em 2024, ela perdeu três cães idosos. Nos dois primeiros casos, optou pela cremação coletiva. Na terceira despedida, escolheu a cremação individual para receber as cinzas da cadela.
“Eu não queria jogar no lixo nem procurar um lugar qualquer para enterrar. A gente começou a pesquisar alternativas quando eles ficaram mais velhinhos. Quando aconteceu, já sabíamos que queríamos um destino mais digno para eles”, relata. Nívia destaca que o acolhimento recebido foi fundamental para enfrentar o momento da perda. “O tratamento é muito humano. A equipe conversa com a família, identifica o animal, faz todo o transporte com muito respeito. Facilitou muito a nossa vida naquele momento”, relata.
As histórias de Giovanna e Nívia refletem uma mudança cultural que vem impulsionando um novo nicho de mercado no Brasil. Os animais de estimação deixaram de ser vistos apenas como companhia e passaram a ocupar posição central dentro das famílias. Com isso, o luto pela perda dos pets também passou a demandar acolhimento, rituais e serviços especializados.
O avanço desse segmento ocorre dentro de um mercado que movimenta aproximadamente R$ 10 bilhões por ano no Brasil e atende cerca de 1,5 milhão de óbitos anuais, segundo dados do Sebrae. Considerado um dos setores mais resilientes da economia, o mercado funerário passa por um processo de modernização impulsionado pela digitalização dos serviços, pela expansão dos planos preventivos e pela busca por experiências mais personalizadas. Nesse cenário, o segmento pet desponta como uma das áreas de maior potencial de crescimento.

Mercado pet descobre uma nova oportunidade
Segundo Eliza Fonseca, diretora de Marketing do Grupo Morada da Paz, a procura por serviços funerários pet ganhou força principalmente após a pandemia, período em que muitas famílias estreitaram seus vínculos com os animais de estimação. “Hoje os tutores não enxergam mais o pet apenas como um animal de companhia. Eles o enxergam como membro da família, alguém que participou da rotina, dos momentos importantes e da história daquela casa”, afirma.
Ela explica que fatores como o fortalecimento do conceito de família multiespécie, a redução do tamanho das famílias e a verticalização das cidades ajudaram a impulsionar essa transformação. “Muitas vezes o tutor chega sem saber o que fazer. Mora em apartamento, não tem quintal, não sabe como proceder e está vivendo uma dor intensa. A cremação deixou de ser vista como algo distante e passou a ser entendida como uma forma digna e segura de homenagear aquele pet”, explica.
Se antes a despedida de um animal costumava ocorrer de maneira informal, muitas vezes em quintais ou terrenos particulares, hoje a realidade é diferente. As exigências sanitárias e ambientais, somadas à mudança de comportamento dos tutores, criaram demanda para uma série de serviços especializados que incluem remoção, cremação, cerimônias de despedida, urnas personalizadas, memoriais e acompanhamento psicológico do luto.
Atualmente, o Grupo Morada da Paz opera estruturas exclusivas para atendimento pet em Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte. Os serviços incluem transporte 24 horas, salas específicas para despedidas, forno crematório exclusivo para animais, entrega personalizada de cinzas e espaços de memória. “O tutor quer uma cerimônia personalizada. Quer levar brinquedos, fotos, músicas que façam sentido para a história daquele animal. Nosso desafio é transformar a despedida em uma homenagem única”, diz Eliza.

Um negócio criado a partir da dor
O potencial desse mercado também vem impulsionando novos empreendimentos. Um dos exemplos é a Pet Fênix, empresa especializada em cremação animal fundada em Sergipe e atualmente presente em seis unidades no Nordeste. A origem do negócio está ligada a uma experiência pessoal vivida pela família do fundador. Em 2013, o tio de Diogo Lupinacci perdeu uma ninhada de dez filhotes de pastor-belga malinois após os animais contraírem parvovirose ao terem contato com um terreno contaminado por animais enterrados anteriormente.
Sem encontrar alternativas adequadas para a destinação dos corpos, surgiu a ideia de criar uma empresa especializada em cremação animal. “Na época não existiam opções estruturadas. Foi uma necessidade real que acabou se transformando em negócio”, afirma Lupinacci. Hoje, a Pet Fênix realiza entre 500 e 600 atendimentos mensais e planeja estar presente em todos os estados do Nordeste até 2030.
Para Lupinacci, o crescimento do mercado está diretamente relacionado à forma como a sociedade passou a se relacionar com os animais. “Existe uma contradição muito grande. O pet recebe banho, tratamento veterinário, alimentação especial, participa das viagens da família e da rotina da casa. Mas, quando morria, muitas vezes era tratado como lixo. Nós trouxemos para a despedida o mesmo cuidado que as pessoas têm durante a vida do animal”, explica.
Segundo ele, cerca de 60% dos clientes optam por realizar algum tipo de cerimônia antes da cremação. Entre os atendimentos que mais marcaram a trajetória da empresa, está de uma criança de 12 anos que fez uma despedida para um peixe. “Foi bem disruptivo para a minha cabeça, porque até então eu era muito acostumado a só prestar serviço para cães e gatos, que representam 95% da nossa clientela. Quando eu vi a emoção daquela criança se despedindo de um peixe que, em tese, é um animalzinho que não tem a proximidade, me tocou bastante”, lembra.
Outro caso foi de uma família que se despediu de um cachorro, em Sergipe. O grupo de 15 pessoas chegou no local do velório com camisetas com a foto do cachorrinho, que estava na família há 18 anos. A cerimônia de despedida foi marcada por fotos, orações e depoimentos.
“Antes as pessoas tinham vergonha de demonstrar essa dor. Hoje elas entendem que perder um pet pode ser tão difícil quanto perder um familiar. O mercado passou a reconhecer essa necessidade de acolhimento”, enfatiza Lupinacci.
Além da demanda espontânea das famílias, clínicas e hospitais veterinários também passaram a buscar parcerias com empresas especializadas para orientar tutores sobre procedimentos adequados após a morte dos animais. O serviço resolve uma necessidade emocional, mas também atende exigências sanitárias e ambientais relacionadas à destinação correta dos corpos.
Um setor que se profissionaliza
Embora o segmento pet seja a face mais visível dessa transformação, o movimento ocorre em todo o mercado funerário. De acordo com dados do Sebrae, o setor movimenta cerca de R$ 10 bilhões por ano no Brasil e atende aproximadamente 1,5 milhão de óbitos anuais.
“É um segmento praticamente à prova de crise. As pessoas podem adiar várias compras, mas não podem deixar de lidar com a morte. Existe uma demanda permanente e previsível”, informa Omero Galdino, analista técnico do Sebrae Pernambuco.
Segundo ele, um dos principais desafios continua sendo a modernização das empresas. “Muitas funerárias ainda são negócios familiares de pequeno porte. O que estamos vendo agora é um movimento de profissionalização, com investimentos em tecnologia, automação, experiência do cliente e digitalização de processos”, destaca.
Na avaliação do analista, o setor vive um momento semelhante ao enfrentado por outros segmentos de serviços nos últimos anos, quando precisaram se adaptar a consumidores mais exigentes e conectados. A expansão da cremação também faz parte dessa transformação. Além das questões culturais, fatores como praticidade, urbanização e preocupação ambiental vêm ampliando a procura pelo serviço em diferentes regiões do país.
Planos funerários ganham espaço
Outro vetor de crescimento é a expansão dos planos funerários. Com mensalidades acessíveis, esses serviços passaram a oferecer benefícios que vão muito além da assistência pós-vida, incluindo seguros, programas de descontos, empréstimo de equipamentos de recuperação, telemedicina e suporte para as famílias.
Para Márcia Alves, CEO da Rosa Master, empresa que nasceu na cidade de Ferreiros, em Pernambuco e hoje atua com lojas próprias também no Maranhão e na Paraíba, a evolução do setor está diretamente ligada à adoção de práticas modernas de gestão. “Tecnologia, governança corporativa, gestão de pessoas e experiência do cliente deixaram de ser diferenciais e passaram a ser necessidades para as empresas que desejam crescer de forma sustentável”, avalia.
Ela acredita que o principal desafio continua sendo quebrar o tabu que cerca o tema. “Muitas pessoas evitam falar sobre planejamento funerário porque associam o assunto à morte. Nosso desafio é mostrar que isso é um ato de cuidado. Da mesma forma que alguém faz um plano de saúde para se prevenir, o plano funerário traz segurança financeira e emocional para a família”, explica.
As perspectivas para o mercado são positivas. Há oportunidades em áreas como memoriais digitais, acompanhamento psicológico do luto, personalização de cerimônias, serviços pet, soluções tecnológicas para gestão funerária e expansão dos planos preventivos. A cremação segue em expansão e já influencia investimentos em novas estruturas e equipamentos em diferentes regiões do país.
A tendência é que os serviços deixem de ser vistos apenas como uma necessidade operacional para se tornarem experiências de acolhimento capazes de respeitar as particularidades de cada família. Para Márcia Alves, a palavra-chave para o futuro do setor é personalização. “As pessoas querem ser acolhidas. Querem homenagens mais significativas, atendimento humanizado e apoio em um dos momentos mais difíceis da vida”, resume.
Além das mudanças culturais, o avanço dos serviços funerários para animais também está ligado a questões sanitárias e ambientais. Embora o Código Estadual de Proteção aos Animais de Pernambuco não detalhe as regras federais para a destinação de corpos, a legislação estabelece alinhamento com a Lei de Crimes Ambientais e determina que procedimentos relacionados ao fim da vida animal observem normas do Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV).
Na esfera federal, resoluções da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) classificam carcaças de animais como resíduos que exigem manejo adequado para evitar riscos à saúde pública e à contaminação do solo e dos recursos hídricos. Nesse contexto, a cremação e a destinação em locais licenciados surgem não apenas como uma escolha afetiva dos tutores, mas também como alternativas alinhadas às exigências sanitárias e ambientais cada vez mais rigorosas.
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